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O mangá “Tsumitsuki” e seu terror visceral

Interior do Ceará. À luz do lampião, histórias de lobisomem e almas penadas eram contadas na debulha do feijão e aquilo, além de assustar, causou tanto impacto na minha infância, que tudo que lembre o terror, passa um medo instintivo.  O gênero de terror, seja nos filmes ou nos quadrinhos, que me apresentaram um novo limite para o que sentia. É certo que as diversas obras de terror criam o suspense ou a causa imediata do medo. Mas podemos encontrar obras que vai além disso, abordando o terror na sua forma mais forte, mais impactante do interior do ser humano, onde os pensamentos, ilusões e desejos são colocados num limiar da realidade e da loucura.

“O Exorcista”, “O Monstro do Pântano”, “Hellblazer”, “O Grito”, “Os Contos da Cripta”, “Hellraiser”, “O Chamado”, “Contos de Lobisomem” conseguiram ambientar o medo de uma maneira própria em meu cerne, que cenas/palavras/imagens causaram marcas em minha psiquê, que ao lembrar do pavor do momento, uma sensação estranha perfila por dentro. Um mangá, lançado pela JBC, Tsumitsuki – Espírito da culpa (edição especial, 200 páginas) de Hiro Kiyohara, trouxe recentemente esse pavor em alguns momentos da narrativa que trata de uma lenda urbana numa cidade do interior do Japão.

tsumitsuki-1549653Os Tsumitsuki, ou deuses do pecado, são demônios capazes de possuir pessoas carregadas de culpa e remorso. Na possessão, empurram seu hóspede a cometer terríveis assassinatos para se alimentar e perpetuar seu parasitismo. Estes seres estão fazendo estragos em um instituto onde encontraram um cultivo perfeito para possuir pecadores arrependidos, um caldo nutritivo para sua sede.

A edição é dividida em cinco capítulos. Cada um deles narra os últimos dias de uma pessoa possuída por um Tsumitsuki. A maneira que o mangaka apresenta qual pecado faz o possuído sentir-se culpado é bastante interessante. Olhar a luta interna para se desfazer do remorso e sua rendição ante a força da entidade em seu interior é de uma narrativa muito sinistra, pois mexe com o psicológico do leitor.

No primeiro capítulo, Chinatsu Takada, é uma garota que acaba de chegar na cidade e está se adaptando ao novo local. Tenta assim fazer amizade, inclusice com a melancólica Mayu Shinohara, que os demais colegas marginarizam por alguma razão. Ao se aproximar dela, conhece Kuroe, o filho do sacerdote do templo sintoísta do lugarejo. Um personagem que irá aparecendo em todos os capítulos e que os conectará como um fio de ariadne. O autor joga com os personagens e com o leitor, criando cenas onde os sentimentos de culpa não estão arraigadas somente no culpado, mas nas vítimas.

Tanto o volume como os capítulos são autoconclusivos entre eles e estão bem desenvolvidos. Uma narrativa diferente, o habitual neste tipo de situações é deixar fios narrativos soltos, personagens para serem aprofundados numa sequência argumental, mas não, Kiyohara consegue fazer um produto de grande qualidade em muito pouco espaço. O conceito abordado é assustador. Fazia um certo tempo que uma história não fazia isso com minha consciência, pois fazer ou pensar algo de errado e se tornar um monstro, faz a agonia dos personagens sair das páginas e empatizar com nossa realidade e nossos remorsos.

A cada página, a cada capítulo, sentimos a mente e o corpo sendo deformados e devorados pelos Tsumitsuki. O autor que também assina a arte enquadra as cenas de ação em ângulos bem simbólicos para a narrativa. Cada personagem tem uma peculiaridade, mas o que mais me chamou a atenção foi o de Kuroe, um olhar que assusta, que não é visto em outros heróis.

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Tsumitsuki é uma narrativa bastante sombria, com uma intensidade incrível. Vale conferir, ou melhor, sentir medo ao ter remorsos.

Hiro Kiyohara nasceu em Nagoya em 1981. Colaborou como desenhista em mangás como Another de Yukito Ayatsuki, que a JBC já trouxe, Calling You e Missing Holiday de Otsuichi, ainda não publicados por aqui.

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Publicado por Cadorno Teles

Habitante das terras áridas dos vales, guerreiro aposentado que desgraçadamente foi jogado numa dimensão que ninguém acredita nele. Se tornou professor, e nos momentos livre aproveita para ler e levar livros pelo sertão. RPG, quadrinhos, literatura e cinema estão entre seus vícios, para esquecer ou mesmo lembrar de seu mundo originário.

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