A amizade construída em tempos de redes sociais é incrível. Acabo de terminar a leitura de dois tomos que um amigo me enviou da Espanha. Utsubora é um(a) mangá que apresenta uma das autoras japonesas mais polifacéticas e complexas do panorama atual, Asumiko Nakamura. Não a conhecia e creio que o mercado brasileiro ainda não tenha publicado nada desta mangaká, por trazer histórias em gêneros não tão visíveis, como o yaoi ou o yuri e com um estilo gráfico que se afasta completamente do mangá mais comercial.

No caso de Utsobora, Nakamura segue em outro gênero, se afastando do hentai e indo para uma narrativa shounen, construindo a história seguindo o estilo de um thriller, em que as relações entre os personagens criam uma trama de mistério na qual nada é o que parece e todos estão escondendo algo.

A narrativa começa com um suicídio e como as duas únicas pessoas que tinham um certo contato com a falecida se veem envoltos numa investigação policial para descobrir se o suicídio foi na realidade um assassinato. Assim conhecemos Jun Mizorogi, um escritor reputado que está publicando um novo livro, Utsubora; Sakura Miki, a irmã gêmea de Aki Fujino, a moça que suicidou, e vários personagens que ajudam a dar credibilidade e complexabilidade ao mundo em que os protagonistas adentram, como um amigo escritor de Mizorogi, seu editor, os investigadores, a sobrinha do escritor.

O certo é que Utsubora tem dois planos distintos: o primeiro, está relacionado a temas com a ambição artística e o êxito de seu trabalho, a artificialidade da beleza nos dias de hoje e sua importância para alcançar determinadas metas, a complexidade da metalinguagem e os processos de construção de identidade na sociedade contemporânea. Por outro lado, é especialmente como a autora converte a historia sobre a investigação policial em um relato de suspense com uma narrativa que começa despretensiosa e se desenvolve em um sem fim de analepses que nos mostram as relações que os personagens escondem e vai dando, pouco a pouco, as peças para resolver o quebra-cabeça. E com um traço fino e sóbrio Nakamura consegue não só criar uma história muito sólida, como uma narrativa complexa que se sustenta tanta na composição dos quadros e vinhetas como na posição dos balões de diálogos para guiar a leitura, fazendo de sua arte como um fio condutor para sua história.

Nakamura desenvolve um relato sobre o fanatismo, o desejo de entrar na ficção, sobre o quixotismo extremo no qual confunde-se a realidade com a fantasia. Tudo relacionado com a construção de nossa identidade nos dias de hoje, onde muitas vezes podemos notar o nosso reflexo muito mais recorrente em uma ficção do que em eventos da vida real, e como esta fantasia nos abduz a um mundo fictício que desejamos que fosse real. Sob esta premissa parte Utsubora, e sua autora nos passa um conto sobre um mundo de beleza e artifício, de sensualidade e sexualidade onde o falso dá sua mão ao real para acabar questionando como se forma a realidade e como a fantasia forma parte dela. Espero ser publicada por aqui, mas a edição espanhola está maravilhosa.