2016 já entrou para a História como “o ano serial killer”. O número de celebridades mortas no ano que passou é tão alto que fica até difícil listar todos os nomes aqui. O “massacre” se iniciou com a morte de David Bowie e terminou com a perda de Carrie Fisher e sua mãe Debbie Reynolds. Houve até o artista engraçadinho que recriou a capa do álbum Sgt Pepper’s dos Beatles com as celebridades falecidas em 2016 (e onde estava o nome da banda na capa do disco se lê ‘Brexit’, em referência à polêmica saída do Reino Unido da União Europeia esse ano).

O humor da internet não poderia deixar de se manifestar e gerou muitos memes, além de vídeos como esse abaixo, que edita as mortes e acontecimentos ruins de 2016 como um trailer de filme de terror.

Mas, afinal, por que fica impressão que tanta gente boa morreu no ano passado?

No caso específico, digamos que, a princípio, muito se deve a uma trágica coincidência. Contudo, o número de nomes célebres falecidos por ano já vinha aumentando há algum tempo e existe sim uma explicação para isso. Pessoas importantes morrem todos os anos desde priscas eras, é claro. Nossa percepção é que mudou.

Até o início do século XX as celebridades eram os nobres, os heróis de guerra, os revolucionários, grandes inventores. E quando morriam, não havia a repercussão pública de hoje. O grosso da população muitas vezes nem os conhecia. Era um mundo em que, muito mal, existia uma incipiente imprensa. Quem dirá internet e redes sociais. Para se ter ideia, hoje todo mundo sabe que Shakespeare e Cervantes morreram no mesmo dia em 1616. Mas, na época, ninguém tomou conhecimento da coincidência.

A partir do pós-guerra, com o crescimento da indústria do entretenimento e a profissionalização dos esportes, as celebridades passaram a ser os cantores, astros dos esportes, estrelas do cinema e TV, cineastas, produtores, etc.

Essa indústria do entretenimento, como a conhecemos, teve seu ápice nas décadas de 1950, 1960 e 1970. Foi a fase em que a indústria fonográfica literalmente chafurdava em dinheiro, pois a única forma de se consumir música era comprando discos. Hollywood se firmava como a maior arma de dominação norte-americana. Na época da Guerra Fria, enquanto a União Soviética intimidava seus dominados com tanques, os Estados Unidos mantinham seu quintal domesticado exportando seu way of life. E esses astros e estrelas da música e do cinema que se tornaram grandes ícones entre os anos 60 e 70, e mantêm esse status até hoje, estão experimentando o final da meia idade ou já se encontram na chamada terceira idade.

E vale lembrar que, de acordo com profissionais da área de saúde, a faixa de maior incidência de ataques cardíacos, derrames e câncer é justamente entre 50 e 70 anos. Por acaso, essa é a faixa etária da maioria das perdas que tivemos em 2016. Um dado que precisa ser levado em consideração é que uma boa parte dos famosos não leva exatamente uma vida regrada e saudável, o que aumenta significativamente os riscos.

Outro fator determinante: os sexagenários de hoje pertencem à chamada geração “baby boom”. No período que compreende o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, até 1963, houve um crescimento demográfico causado pela explosão de nascimentos, daí o nome (algo como “explosão de bebês” em português). Com mais bebês nascidos naquela geração, isso significou mais pessoas a eventualmente se tornarem famosas. Muitos famosos nasceram, logo muitos famosos estão morrendo.

Uma pesquisa no Reino Unido apontou, de fato, um aumento de óbitos na população comum em 2016. No caso das celebridades, em abril, o editor de obituários da BBC, Nick Serpell, foi encarregado de verificar se havia algo incomum sobre o número de pessoas conhecidas morrendo. Afinal, naquela época, muita gente na mídia social já queria saber o que estava havendo.

Ele contabilizou o número de obituários da BBC de janeiro até o final do ano entre 2012 e 2016. E nesse ponto ele descobriu que, sim, apenas olhando para os primeiros três meses do ano, houve um aumento.

O dobro de pessoas notáveis tinham morrido neste período de 2016 em comparação com o mesmo período em 2015, e cinco vezes mais do que em 2012. Observe o gráfico abaixo.

Fazendo um comparativo do total de mortes célebres ao ano, vemos que em 2012 houve 16. Em 2013, contabilizaram-se 24. Em 2014, 29 e em 2015 32. 2016 fechou com 50. Daí temos a trágica coincidência. Mortes naturais como a de David Bowie, Leonard Cohen e Muhamed Ali se juntaram a acidentes como do ator Aton Yelchin, do ator Domingos Montagner e do time da Chapecoense.

Por isso, dificilmente teremos um 2017 tão slasher como 2016, até porque o ano não mata ninguém. É apenas uma piada que fazemos para amenizar a dor das perdas. E se aumenta o número de perdas, também há um aumento na longevidade. Assim, uma grande parcela de celebridades alcançará os 80, 90 ou até cem anos. E confirmando a lenda de imortal, Keith Richards sobreviveu a 2016. E vai muito bem, obrigado.