Embora o ano de 2017 tenha diversos lançamentos de terror e suspense, poucos realmente se destacaram até a primeira metade do ano, como “Fragmentado” ou “Corra”. Talvez porque ambos se arriscaram em fazer algo que fugisse dos clichês (algo que até o grande Ridley Scott não conseguiu escapar), mesmo cometendo algum deslize aqui e ali. Por isso, é interessante notar que ainda há realizadores que procuram fugir do susto fácil para investir mais na criação da atmosfera, na sensação de desconforto, de que algo terrível está prestes a acontecer, embora não se saiba exatamente o que é, nem de onde vem. Esse é o caso do diretor Trey Edward Shults e seu filme “Ao Cair da Noite” (“It Comes at Night”, 2017), que realizou uma obra que ganha pontos ao investir muito mais no clima do que em truques baratos para fazer espectadores desavisados pularem da cadeira de cinco em cinco minutos. Só peca, no entanto, em investir tanto em sua proposta que acaba afastando um pouco de seu público-alvo, por desenvolver mais a paranoia e menos o terror em si da situação.

Ambientada numa época indefinida, a trama é centrada em Paul (Joel Edgerton), que vive com a esposa, Sarah (Carmen Ejogo), e o filho, Travis (Kelvin Harrison Jr), numa casa que fica no meio de uma floresta. Isolados por causa de uma misteriosa doença que (aparentemente) dizimou boa parte da população mundial, a família segue uma série de regras rígidas impostas por Paul para impedir o contágio, incluindo a utilização de máscaras de gás e luvas quando saem ao ar livre e nunca deixar o lar durante a noite.

Um dia, chega ao local Will (Christopher Abbott), que pede ajuda a Paul para resgatar a mulher, Kim (Riley Keough), e o filho pequeno. As duas famílias passam a conviver juntas no mesmo espaço e, durante um tempo, a relação entre elas beira à normalidade, apesar da ameaça ainda existir. Mas, aos poucos, os problemas começam a surgir e a suspeita de que alguém não está sendo totalmente honesto tornam a situação cada vez mais tensa e podem por tudo a perder.

O que torna “Ao Cair da Noite” um thriller diferente dos demais é a ótima construção de clima sufocante, onde boa parte da ação acontece dentro da casa, com corredores longos e escuros (embora a belíssima fotografia de Drew Daniels trabalhe muito bem a luz e as sombras, nunca deixando o espectador perdido sobre o que está acontecendo na tela), que ajudam a dar a sensação de que a epidemia deixou as coisas fora de ordem e mesmo todos os cuidados tomados por Paul e sua família podem ser insuficientes para impedir a chegada da praga. Além disso, o diretor conduz muito bem o clima de tensão entre os personagens, especialmente nas cenas em que Travis mostra sentimentos confusos em relação aos novos hóspedes, já que não sabe como lidar com eles e isso gera sonhos conflitantes, típicos de um adolescente, com o agravante de ter de combater um inimigo invisível.

Outro mérito do filme está no roteiro, também escrito por Trey Edward Shults, que define muito bem os personagens e não dá respostas óbvias durante o desenrolar da trama. Mais preocupado em desenvolver o clima de tensão e paranoia, o diretor e roteirista dá pistas falsas e não se preocupa em dar respostas para tudo o que acontece, deixando ao espectador o trabalho de montar o quebra-cabeças que se vê na tela. É uma atitude corajosa, numa época em que as pessoas estão acostumadas a ter tudo bem mastigado quando vão ao cinema.

O único porém do filme é que, ao apostar nesta forma de contar a sua história, “Ao Cair da Noite” acaba tendo menos impacto do que deveria, já que a tensão obtida, embora seja mesmo desconfortável, jamais causa medo ou aflição, algo que mesmo produções mais comerciais como as da franquia “Invocação do Mal” não deixam de lado em prol de algo diferente, por mais original que seja. O que é uma pena, já que os primeiros 2/3 do filme funcionam muito bem e dão a impressão de um crescimento do terror, o que não acontece do jeito que muitos esperam em seu desfecho, deixando uma sensação de frustração quando as luzes do cinema se acendem.

Cada vez mais empenhado em estrelar produções de suspense e terror, como “O Presente” (que também dirigiu), Joel Edgerton constrói Paul como um homem extremamente metódico e desconfiado, que endureceu após a chegada do vírus e capaz de tudo para sobreviver e salvar sua família, mesmo que seus métodos não sejam totalmente éticos. Carmen Ejogo pouco tem a fazer com a sua Sarah, mas faz o possível para tornar a sua personagem a mais conciliadora do grupo, dando-lhe até alguma complacência, e só ganha mais importância na parte final.

O jovem Kelvin Harrison Jr tem a tarefa mais difícil porque é através de Travis que muitos momentos importantes da trama acontecem e o espectador divide com ele as dúvidas que a história traz. Felizmente, o rapaz tem uma boa performance e não “deixa a peteca cair”. Christopher Abbott até dá a Will uma certa dissimulação, necessária para criar a suspeita sobre seus atos, mas poderia ser mais misterioso. Já Riley Keough é pouco aproveitada e, assim como Ejogo, só se destaca mais no epílogo.

Embora tenha sido muito comparado com o sensacional “A Bruxa”, provavelmente por causa de seu ritmo mais lento, “Ao Cair da Noite” é uma proposta totalmente diferente e merece ser mais conhecido pelo grande público por ser um filme que é quase um estudo comportamental que, por acaso, tem elementos de suspense e terror. A produção mostra que é possível, sim, fazer obras que não subestimem a inteligência do espectador e consigam levar a reflexão sobre como conviver melhor com as pessoas em situações-limite. Afinal, como diz aquela velha expressão, “O inferno são os outros”.

Filme: “Ao Cair da Noite” (It Comes at Night)
Direção: Trey Edward Shults
Elenco: Joel Edgerton, Carmen Ejogo, Kelvin Harrison Jr, Christopher Abbott, Riley Keough
Gênero: Terror, Drama, Supsense
País: EUA
Ano de produção: 2017
Distribuidora: Diamond Films
Duração: 1h 31min
Classificação: 14 anos