“O Rei do Show” se desenha sobre uma matéria-prima muito cara aos musicais hollywoodianos: a história de superação. A abordagem da jornada, claro, é para lá de grandiloquente. Vislumbrou-se na trajetória de P.T. Barnum um potencial para isso. Phineas Taylor Barnum (5 de julho de 1810 – 7 de abril de 1891) foi um showman e empresário do ramo do entretenimento norte-americano, lembrado principalmente por promover as mais famosas fraudes (hoaxes) e por fundar o circo que viria a se tornar o Ringling Bros. and Barnum & Bailey Circus. Depois ele enveredou pela política. Proporcionando um espetáculo de gosto duvidoso, tornou-se o primeiro milionário da indústria do entretenimento. Certamente por isso acendeu o interesse em Hollywood em transformá-lo em filme. Um autêntico conto de fadas protagonizado por um self-made man.

Mas não bastava apenas uma superprodução. Tinha que ser um musical ostentação. Daqueles que desperta ódio nos amantes do gênero. Só que no caso aqui pode causar desconforto até nos amantes do cinema cantado. “O Rei do Show” peca pelo excesso, algo de praxe em se tratando de musicais. Porém fica a impressão de que o projeto foi colocado na mesa ambiciosamente e acabou saindo do papel da forma mais preguiçosa pelas mãos do diretor iniciante Michael Gracey. Os roteiristas Bill Condon (diretor de A Bela e a Fera) e Jenny Bicks (que também assina o argumento) parecem ter seguido à risca a cartilha de como se alinhavar um produto do gênero. Tão à risca que se emaranharam em um cipoal de clichês.

Incomoda ver ao longo da projeção tanto lugar comum e repetição de fórmula. Seja no script, nas canções, nos números de dança. Tudo ali é uma pálida versão do que vimos com brilhantismo em clássicos do gênero. O recente “La La Land” é um modelo que poderia ser seguido. Ironicamente, Benj Pasek e Justin Paul, os responsáveis pelas músicas do oscarizável, também assinam as daqui. Mas o resultado é bem distinto. As canções são inseridas da maneira mais forçada e óbvia: sobe a trilha de fundo e o personagem começa a cantar. Além de tudo são canções ruins, com letras constrangedoras. Poucos números se salvam (uns dois no máximo). A irritante ‘This Is Me’ é o “melhor” exemplo. Parece tirada diretamente do High School Music ou qualquer subproduto pop da Disney para o público adolescente. Coincidentemente (ou não) o astro Zac Efron está no elenco. Canastríssimo.

Ok, nem tudo é catástrofe aqui. Hugh Jackman veste o personagem principal com charme e carisma. Ele bem que se esforça em promover a grandeza pretendida na trama. O ex(?)-Wolverine está bastante à vontade, pois já tem uma certa experiência nessa seara. Uma de suas atuações na Broadway, “The Boy From Oz”, já lhe rendeu até um Tony de Melhor Ator em Musical. Mas no cinema é a primeira chance de mostrar seu lado cantor. Michelle Williams, que interpreta Charity, esposa de Barnum o faz com graça e leveza, em uma bela simbiose com as lentes. A direção de arte e o figurino podem até ter algum chance no Oscar, embora não escapem do efeito flamboyant.

Se P.T. Baurnum era chamado por muitos de embuste, o mesmo se pode dizer de “O Rei do Show”. Já há rumores de uma adaptação para a Broadway. Pode ser que nos palcos funcione. Na telona ficou um gosto amargo de enganação. Para uma produção que pretende colher louros na temporada de prêmios, sobretudo no Oscar, o que foi entregue deixou muito a desejar.

Filme: O Rei do Show (The Greatest Showman)
Direção: Michael Gracey
Elenco: Hugh Jackman, Michelle Williams, Zac Efron
Gênero: Musical
País: EUA
Ano de produção: 2017
Distribuidora: Fox Films do Brasil
Duração: 1h 45 min 
Classificação: 12 anos