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Clint Eastwood: 80 anos

Talvez ele seja um dos atores, diretores e roteiristas mais famosos e bem vistos pela academia de artes e ciências de Hollywood. Os fãs mais novos talvez não saibam muito bem quem é ele, o que ele fez e talvez nem se importem. Porém, Clint Eastwood é uma lenda viva entre os verdadeiros fãs de cinema pelas mais diversas razões. Hoje, 31 de maio, ele completa 80 anos e a carreira dele talvez seja melhor comparada a um bom vinho, que quanto mais maturado, melhor.

Clint começou relativamente tarde sua carreira como ator, com 24 anos de idade e pouca experiência de interpretação. Sua maior virtude, inicialmente, era seu visual que, como se pode perceber ao lado, era bem estiloso, meio que um James Dean sem frescuras.

Logo ele se viu filmando o seriado Rawhide, um dos primeiros papéis que o relacionaram com o velho oeste. Porém, os cinco anos em que passou na série foram, segundo as próprias palavras do ator, alguns dos mais pesados em sua vida, trabalhando 12 horas por dia, seis dias por semana. Em 1963, a série foi cancelada e Eastwood ficou sem emprego.

No final daquele mesmo ano, Eric Fleming, ator com o qual ele trabalhou em Rawhide, o convidou para atuar em um faroeste que seria dirigido pelo diretor espanhol Sergio Leone. O filme se chamava Por Um Punhado de Dólares (Per um Pugno di Dollari, 1964). O primeiro de uma trilogia que apresentaria o “Homem sem nome”, personagem de Eastwood.

O visual foi inteiramente criado por Eastwood, que levou todas as peças de roupa consigo para a Itália. Sergio Leone adorou cada detalhe, desde a calça surrada até os cigarros pretos comprados numa lojinha de Los Angeles. Ali estava nascendo uma das melhores trilogias da história do cinema e uma colaboração que iria criar vínculos de amizade entre ator e diretor e daria início ao spaghetti western.

Os outros dois filmes, Por Uns Dólares a Mais (Per Qualche Dollaro in Più, 1965) e Três Homens em Conflito (Il Buono, il Brutto, il Cattivo, 1966) foram filmados em seguida. Na Itália, Eastwood era um ídolo, mas os três filmes foram lançados apenas em 1967 e os críticos foram quase imperdoáveis com o ator. A partir dali, ele teria de lutar não só contra os problemas financeiros, mas também em favor de um respeito por parte de todos que viam aqueles filmes italianos com desdém.

Em 1968, ele estrelou A Marca da Forca (Hang’em High) com Pat Hingle, Dennis Hopper, Ed Begley, Bruce Dern e James MacArthur. Era uma mistura dos filmes de Leone com o faroeste tradicional. O filme foi sucesso de crítica e público e isso sedimentou financeiramente a sua companhia, a Malpaso Productions.

Após essa passagem pelo velho oeste, chegou a era do diretor Don Siegel. Ele queria criar uma nova linha de filmes, com personagens principais durões, quase uma versão atualizada do velho oeste. Com ele, Clint começou a estrelar uma série de filmes que finalmente lhe levaria a um dos personagens que mais os fãs relacionam com ele: Harry Callahan (Dirty Harry, 1971).

Sabem porque Harry Callahan é foda? Melhor ver a cena abaixo:

Isso é cinema épico em todo seu ápice. A colaboração de Clint e Don Siegel gerou todo o misticismo que se vê até hoje em Eastwood. O anti-herói que irá fazer o bem, mas nem sempre conforme a lei. Por anos ele trabalhou com personagens nesta linha, mas ao mesmo tempo o gosto pela direção dos filmes veio e começamos a ver um novo lado do ator.

Um dos primeiros filmes que ele dirigiu e merece nota é a fantástica biografia do músico Charlie Parker intitulada Bird (1988). O amor de Eastwood pelo jazz e a sua sensibilidade inata em cenas de forte emoção ficam claras e serão melhor exploradas mais para frente.

Em 1992, com 62 anos de idade, Clint volta ao gênero do Western, desta vez para desmistificar tudo o que foi feito, recriando para as platéias que há 20 anos não viam um Western de qualidade. Em Os Imperdoáveis (Unforgiven, 1992), Eastwood dirige e atua um filme sobre um ex-assassino chamado William Munny que, após anos, vive em uma fazenda cuidando de seus filhos e se vê em uma missão de redenção quando é chamado por um ex-parceiro à caçar alguns homens que retalharam o rosto de uma prostituta. Talvez nunca o velho oeste tenha sido tão bem retratado. Nada de duelos ao entardecer, nada de honra, apenas pessoas tentando viver suas vidas em uma terra em que a lei vinha armada.

No elenco do filme, além do ator tinhamos Gene Hackman, Morgan Freeman e Richard Harris. A cena final em que Munny e Little Bill (Hackman) se veem cara a cara em um bar talvez seja uma das mais fortes que eu já vi no cinema. Era um duelo em que ambos tinham tudo a perder.

Daí em diante vemos Clint deixando aos poucos a vida de ator para apenas dirigir e criar as trilhas sonoras de alguns de seus filmes, ou até mesmo cantar, como é o caso de Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal (Midnight in the Garden of Good and Evil, 1997) ou até mesmo em Menina de Ouro (Million Dollar Baby, 2005), talvez seu melhor filme como diretor, merecedor de todos os prêmios que ganhou.

A melhor homenagem a um homem como Clint Eastwood e sua carreira é mostrar à nova geração que seus filmes, por mais cadenciados e emocionantes que sejam, são muito melhores que estas receitas prontas que são oferecidas semanalmente pelos estúdios de Hollywood. Homenagear Eastwood e seus 80 anos é homenagear o cinema como um todo e é gratificante saber que ainda temos o privilégio de tê-lo criando e dirigindo filmes, espalhando uma boa cultura àqueles que sabem apreciar o cinema e a arte.

J.R. Dib

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Publicado por J.R. Dib

J.R. Dib

A cultura, o cinema, a arte, a justiça e a literatura unidas em prol de uma melhor sociedade. Advogar, viver e difundir cultura e aprender a cada dia mais, buscando novos desafios e descobrindo a beleza e a doçura de cada objetivo como Advogado, Editor e Colunista.

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