Ela perdeu o controle (She’s lost control) não é um filme sobre a banda Joy Division, antes que alguém pergunte. Inclusive, na exibição de sábado à noite no Festival do Rio, ao ser perguntada sobre o que a motivou a fazer o filme, a diretora Anja Marquardt não citou a banda inglesa, nem a música homônima. O filme trata de Ronah, espécie de “profissional da intimidade”, cuja função é ajudar seus clientes (pacientes?) na aprendizagem de habilidades de se relacionar amorosamente, chegando às vias de fato (sexuais) com seus clientes, encaminhados por um supervisor que supostamente conhece a fundo as dificuldades psicológicas, emocionais e comportamentais de cada um deles. Ronah mora de aluguel em um apartamento com problemas de encanamento e infiltração, está fazendo seu mestrado em Behaviorismo (Psicologia Comportamental) e não tem amigos. Ela, cuja ocupação profissional é ajudar os clientes a desenvolver habilidades de relacionamento íntimo, não parece por sua vez ter nenhum relacionamento desse tipo e, quando quer uma companhia para o jantar, é à vizinha que recorre.
O filme possui algumas inconsistências teóricas, apesar de ter sido realizada, segundo a diretora, uma pesquisa de campo com profissionais que utilizam essa prática de terapia (pergunto-me em que lugar dos Estados Unidos isso é feito, mas Anja Marquardt esclarece que é uma prática “obscura”, isto é, não parece arraigada nem possuir grande aprovação de outros profissionais de terapias diversas). Um terapeuta que faz mestrado em Behaviorismo mas, em conversas com o supervisor, usa um conceito da Psicanálise (‘Contratransferência’) resvala para um sincretismo teórico difícil de engolir e levar a sério. Para quem não é da área, unir Psicanálise e Behaviorismo é o mesmo que fazer Vasco e Flamengo habitarem um mesmo coração torcedor. Outras inconsistências do próprio trabalho e da comunicação entre terapeuta e supervisor incomodam um pouco, mas não chegam a comprometer o filme, que consegue sustentar do início ao fim a tensão dos relacionamentos íntimos e profissionais e suas tênues fronteiras. Os afetos de Ronah e o manejo dos sentimentos dos clientes é o que justificam o título do filme, que a diretora define como “anti-história de amor”, e apesar das escorregadelas mencionadas, ela consegue trabalhar bem a verossímil tensão presente em qualquer tipo de relacionamento afetivo.

Crítica: Ela perdeu o controle (She's lost control)2