Lançado em março de 2012, o canal de vídeos Porta dos Fundos se tornou um grande sucesso na internet e seus curtas, lançados todas as semanas, conseguem milhões de acessos e geraram uma legião de fãs, que se divertem com o bom humor de seus roteiros. Eles também popularizaram nomes de comediantes como Fábio Porchat, Gregório Durvier, Marcos Veras (e sua esposa, Julia Rabello), Luis Lobianco, Antonio Tabet, Leticia Lima, entre outros, que acabaram conquistando seu espaço nas TVs aberta e fechada, além do cinema. Logo, quando anunciaram que seria lançado um filme de um dos diretores da Porta, que contava com parte do elenco dos vídeos, era de se esperar que fosse uma extensão do que já haviam apresentado até então. Felizmente, “Entre Abelhas” (Idem, 2015) foge da ideia óbvia e apresenta uma história mais dramática e madura, ainda que tenha espaço para humor, o que pode agradar o grande público que gosta de rir de piadas em português no cinema. O resultado final, ainda que irregular, pelo menos está acima da média das produções voltadas para as grandes massas do nosso país com uma trama que intriga, mas também diverte.

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A história gira em torno de Bruno (Fábio Porchat), jovem de quase 30 anos, que acaba de se separar de Regina (Giovanna Lancelotti), sua esposa, e tenta reconstruir sua vida. Ele se muda para a casa da mãe (Irene Ravache), que tenta animá-lo, assim como o melhor amigo, Davi (Marcos Veras), que acredita que sua tristeza vai passar quando ele arranjar outra mulher. Só que algo inusitado começa a acontecer para Bruno. De uma hora para outra, ele começa a tropeçar no ar, a esbarrar no que não vê e passa a não enxergar mais as pessoas ao seu redor. A situação começa a ficar cada vez mais desesperadora porque até mesmo seus conhecidos também desaparecem para ele, seja em fotos do passado ou mesmo pessoalmente. Aflito, Bruno recorre a um psiquiatra (Marcelo Valle) para tentar entender o que está acontecendo e o que fazer para conviver com essa estranha condição, que acaba causando situações inusitadas e até constrangedoras no seu trabalho e, principalmente, com seus amigos.

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Estreante em longas-metragens, o diretor Ian SBF mostra bastante segurança e toma decisões acertadas para dar um clima de mistério para a trama de “Entre Abelhas”. Uma delas foi não realizar a maioria de suas cenas com efeitos computadorizados ou trucagens de câmeras desnecessárias, algo que tem sido cada vez mais visto em trabalhos de cineastas novatos que querem tornar seus nomes marcantes para o público, mas pelos motivos errados. Os recursos que ele lançou mão para dar a sensação de desaparecimento das pessoas para Bruno são simples, porém eficientes. Além disso, SBF também realizou boas sequências dos momentos em que o protagonista se encontra sozinho em várias partes da cidade, evidenciando o isolamento social que ele, meio que sem querer, impôs a si mesmo. Ele também realizou uma boa montagem ao lado de Bernardo Pimenta, que encontra soluções eficazes, especialmente nas passagens de tempo da história.

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Porém, apesar de se apresentar como diretor e montador eficiente, Ian SBF não consegue ser um roteirista tão inspirado. O texto, escrito pelo cineasta e o seu astro, Fábio Porchat, apresenta algumas irregularidades, como situações que terminam com resoluções ruins ou sem explicação mesmo. Um bom exemplo disso é quando acontece um atropelamento na história e o espectador fica sem saber exatamente o destino da pessoa acidentada. Além disso, precisava ficar um pouco mais claro por que Bruno se separou de Regina, já que a trama joga pistas aqui e ali, mas nunca chega a algo mais conclusivo. Outra questão que não foi bem explorada é o fato de que o protagonista não querer assumir grandes responsabilidades, o que é representado pelos pedidos da mãe para ele ligar para um médico e sempre diz que fará isso mais tarde. Lá pelas tantas, essa característica do personagem é simplesmente esquecida e deixada de lado. Em compensação, o humor é muito bem construído e (felizmente) é bem diferente do que SBF e sua equipe já tinham apresentado em Porta dos Fundos e, só por isso, deve ser reconhecido como uma boa iniciativa de todos os envolvidos em sair da zona de conforto.

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Além do diretor, o ator Fábio Porchat procura aproveitar a chance para se mostrar mais do que um simples comediante com seu papel no filme. No início, ele parece fora do tom, desnecessariamente exagerado e com alguns cacoetes adquiridos com vários trabalhos humorísticos. Mas, durante o filme, ele consegue encontrar a maneira adequada para tornar seu personagem bem mais convincente e faz o espectador compadecer de sua situação tragicômica. Irene Ravache, como de costume, tem uma ótima atuação como a mãe de Bruno e faz uma interessante parceria com Porchat e Luis Lobianco, que interpreta Lino, um atendente de pizzaria que aceita fazer experimentos para que o rapaz volte a ver as pessoas, e rouba todas as cenas em que aparece. Já Marcos Veras não faz nada muito diferente do que já apresentou anteriormente na TV e no cinema, embora consiga divertir em alguns momentos. A bela Giovanna Lancelotti não compromete em seu primeiro papel na telona e mostra que, se fizer as escolhas certas no futuro, terá uma boa carreira como atriz, assim como Letícia Lima, que faz a prostituta Rebeca, uma das que se comovem com o problema de Bruno.

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Com um desfecho fora do convencional, “Entre Abelhas” (título retirado de um caso de um suposto desaparecimento desses insetos, sem nenhum motivo aparente) tem o mérito de procurar ser algo diferente num mercado saturado de comédias populares e esquecíveis, sem nenhum espaço para a reflexão. O filme intriga, diverte e faz pensar, tornando-se algo um pouco acima da média, mesmo com as falhas que impedem de ser uma produção melhor. Mesmo assim, vale ser abraçado pelo grande público, já que isso pode motivar a criação de obras ainda mais originais nos próximos anos, antes que elas desapareçam diante de nossos olhos.