Uma das obras mais conhecidas de Jorge Amado, “Dona Flor e seus dois maridos” já ganhou várias versões que adaptaram a história criada pelo escritor que descreveu tão bem sua Bahia natal, misturando questões sociais com relacionamentos temperados á base de romance e muita sensualidade. A primeira adaptação para o cinema, feita em 1976, com Sonia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça se tornou um marco (tanto que ganhou em 1982 uma adaptação americana não autorizada, o péssimo “Meu Adorável Fantasma”). Tornou conhecido o nome do diretor Bruno Barreto,  e, até o lançamento de “Tropa de Elite 2” em 2010, era o filme nacional que mais arrecadou nas bilheterias brasileiras. Outras adaptações que se destacaram  foram a minissérie feita para a TV lançada em 1998, com Giulia Gam, Edson Celulari e Marco Nanini, além da peça estrelada por Carol Castro, Marcelo Faria e Duda Ribeiro, que começou sua bem sucedida carreira em 2008.

Foi a partir desse sucesso no teatro que uma parte dos envolvidos nessa montagem resolveu levar para as telonas uma nova versão do best seller. O caminho foi longo e tortuoso, com vários atores entrando e saindo do elenco principal (onde apenas Marcelo Faria permanecia desde o início), até chegar ao novo “Dona Flor e seus dois maridos” (Brasil, 2017). O filme pode até funcionar para o espectador que nunca viu nenhuma das adaptações anteriores e seja admirador de um humor mais popularesco. Mas as falhas graves da direção deixam essa refilmagem muito aquém do que já tinha sido feito anteriormente com a obra de Amado, com resultado pálido e esquecível assim que as luzes do cinema se acendem ao final da sessão.

A trama não apresenta maiores surpresas em relação ao que já foi mostrado anteriormente. Ambientada nos anos de 1940, a história começa com a morte de Vadinho (Marcelo Faria), conhecido malandro de Salvador, após uma vida de excessos com noitadas regradas a muita bebida e jogatina, durante o Carnaval. Ele acaba deixando sua esposa, a bela e recatada Dona Flor (Juliana Paes), inconsolável e num luto profundo por causa de sua repentina partida. Tempos depois, mesmo com muitas saudades de Vadinho, ela decide recomeçar sua vida e aceita a corte de Teodoro (Leandro Hassum), o farmacêutico da cidade, e logo se casa com ele. Embora seja tratada como uma verdadeira rainha pelo novo marido, Flor não lida muito bem com o jeito calmo e burocrático de Teodoro, especialmente entre quatro paredes. Até que, um dia, para a sua surpresa, o espírito de Vadinho ressurge cheio de amor para dar, deixando-a em conflito sobre com quem ela deve ficar no fim das contas.

O que esse novo “Dona Flor e seus dois maridos” tem de diferente ou que possa acrescentar às adaptações já feitas até então? Praticamente nada. A história é, praticamente, a mesma que já foi contada anteriormente (e melhor) por Bruno Barreto em 1976, sem maiores alterações e sem quase nenhum tempero especial. O diretor Pedro Vasconcelos (também autor do roteiro), dá um tom mais televisivo e pouco cinematográfico para o filme, com escolhas estranhas como enquadramentos muito fechados nos rostos dos atores em cenas mais simples, além de não mostrar muita habilidade em algumas sequências, com as de brigas, por exemplo.

Além disso, o cineasta, cujo maior sucesso é a comédia “O Concurso”, se mostra pouco criativo para encontrar soluções que não se repitam durante a história. Isso pode ser notado nos momentos em que Flor conversa com o fantasma de Vadinho, em que Vasconcelos insiste em usar os mesmos recursos várias vezes, o que deixa tudo bem enfadonho. O mesmo se vale de usar a todo momento a versão do sucesso “É o Amor”, de Zezé di Camargo e Luciano, na voz de Maria Bethânia. Na primeira vez que se escuta a canção, o efeito emotivo até é obtido. Mas depois de ouvir novamente em outras partes da história, vê-se que a inventividade mandou lembranças.

Outro pecado cometido pelo diretor e roteirista é a sua vontade de gerar risadas do público através de Teodoro, que é mostrado como um homem bobo e até mesmo ridículo (algo enfatizado com o fraco tema musical do farmacêutico, composto por basicamente uma nota). Um erro que não ocorreu em suas outras versões, já que o personagem é apenas metódico e respeitador, mas nunca um idiota. A única justificativa possível para isso foi a vontade de aproveitar a popularidade de Leandro Hassum para tornar seu comportamento mais “engraçadinho”, já que o ator fez a sua fama com personagens deste estilo. O problema é que, embora se esforce bastante e até consiga seu intento em algumas cenas, Hassum acaba se tornando inadequado para o papel e desperdiça a chance de mostrar que tem mais versatilidade do que fazer tipos como o da série “Até que a sorte os separe”. Mas quem sabe, um dia, ele encontre um trabalho que realmente mostre seu potencial.

Já os outros dois vértices do triângulo amoroso se saem um pouco melhor. Juliana Paes, já habituada ao universo de Jorge Amado, pois já viveu o papel-título de “Gabriela” na TV, parece disposta a se tornar a substituta de Sonia Braga para as novas gerações. A atriz consegue passar o lado passional de Dona Flor e transborda sensualidade e carisma nas cenas mais quentes, além de transmitir corretamente a indecisão da personagem em ficar com o certo ou com o duvidoso, e de acrescentar em bom tom uma discussão bastante atual, em que as mulheres clamam por respeito de seus companheiros.

Marcelo Faria, mais do que confortável como Vadinho, já que interpreta o malandro há anos no teatro, convence dando ao protagonista o tom safado necessário para que o público tolere até os atos mais condenáveis que ele comete quando está vivo ou morto. O restante do elenco não se destaca, mas tem uma curiosidade: Duda Ribeiro, que viveu Teodoro no teatro, ganhou outro papel como Epaminondas, um dos amigos de farra de Vadinho, em sua última atuação no cinema, já que estava gravemente doente e morreu após o fim das filmagens. Tanto que o filme é dedicado a ele e a outros nobres falecidos, como José Wilker (o primeiro Vadinho) e o diretor Roberto Talma.

Sem praticamente nenhuma grande novidade e tratando de forma rasteira as questões sociais embutidas no texto de Jorge Amado, o novo “Dona Flor e seus dois maridos” acaba sendo uma das versões mais fracas dessa história que atravessou o tempo e ainda é capaz de conquistar novos fãs. Por isso, merecia um tratamento melhor e mais cativante. Do jeito que ficou, o filme acaba se nivelando por baixo, já que não consegue ter brilho ou mesmo malemolência próprios e acaba com o saldo bastante negativo. Que pena.

Filme: Dona Flor e seus dois maridos
Direção: Pedro Vasconcelos
Elenco: Juliana Paes, Marcelo Faria, Leandro Hassum
Gênero: Comédia
País: Brasil
Ano de produção: 2017
Distribuidora: Downtown Filmes
Duração: 1h48
Classificação: 16 anos