O Amor e Outros Objetos Pontiagudos“. Esse título diz respeito a um livro de contos mordaz do escritor (mais mordaz ainda) Marçal de Aquino, lançado num longínquo ano de 1999, marcante em sua radiografia sobre os relacionamentos amorosos em suas contradições e contrações. O filme francês Monsieur & Madame Adelman remete ao livro, especialmente a contundência corrosiva do título. O brilhantismo é o mesmo. O que reverbera também.

A trama parece simples: acompanhamos um casamento desde o seu início (encontro do casal) até o que ele vai representar 45 anos depois. Só que essa trajetória matrimonial traz si toda imperfeição, passionalidade, incorreção e contrariedade que toda relação no mínimo crível, pode mostrar ser. Nicolas Bedos, que protagoniza a trama junto com excepcional Doria Tiller, também dirige a história com pulso e vigor de iniciante, o que quer dizer que passeia por uma estrutura tradicional, com um olhar e curiosidade cinematográfica muito original. 

O roteiro vai se desenvolvendo em flashback. Sarah (Tiller), está enterrando seu marido (Tiller), enquanto relata em entrevista a um jornalista (Antoine Gouy) como foi a sua vida com ele. E aí que Bedos dispõe de toda sua habilidade para mostrar a humanidade – por vezes desconsertante – de seu casal. Existe aí uma amoralidade muito identificável nessa história. Da desmitificação do amor romântico à sua própria evocação, Monsieur & Madame Adelman é perfeito ao analisar o amor por seus paradoxos, na perspectiva desse casal.

Bedos faz um falso filme romântico, para estabelecer sua história humana. E resulta num filme muito eloquente nessa bordagem. É por isso que fui remetido ao título literário de Marçal Aquino: quando os créditos finais subiram, eu ainda refletia sobre os “objetos pontiagudos” que designam o que chamamos de amor. Filmaço.