Extraordinário é aquele típico filme que americano sabe fazer muito bem e talvez com a maior honestidade: o que pretende explicitamente passar uma mensagem sentimental e edificante. Sim, até o termo é piegas. Extraordinário é também um filme espertamente carismático e bem competente. Muito pela carga dramática que já traz em si – uma adaptação do best-seller (tanto lá fora quanto aqui) homônimo de R. J. Palacio, pela direção muito arrojada do canadense Stephen Chbosky, o mesmo que também comandou a excelente adaptação de As Vantagens de Ser Invisível (uma pérola que só cresce com o tempo), e pelas ótimas atuações de Jacob Tremblay (o impressionante menino de O Quarto de Jack, aqui, sob pesadíssima maquiagem) e Julia Roberts (ainda sendo Julia Roberts com muito brilho).

Pronto, a receita é certeira. Tremblay é o adorável garotinho Auggie, que tem que conviver com uma deformidade congênita no rosto, já tendo passado por quase 30 cirurgias. Após toda uma infância sendo alfabetizado em casa pela mãe (Julia), ele precisa enfrentar o seu maior desafio social: passar a estudar numa escola regular com crianças de sua faixa etária. Assim, acompanhamos o seu processo de adaptação e o quanto isso interfere a todos a sua volta.

Em seu segundo longa, o diretor vai revelando uma habilidade em dar um verniz cool ao sentimentalismo que gravita suas adaptações literárias, o que nesse filme é muito mais explorado que o anterior (o que torna “As Vantagens de Ser Invisível” até bem superior). Obviamente isso vem muito também de sua matriz literária, o que o diretor usa de maneira até bem criativa, com uma divisão de “capítulos” sob o ponto de vista de cada personagem (mesmo que o desenvolvimento disso seja dramaturgicamente irregular).

O roteiro mescla certa pieguice discursiva – típica dos filmes ianques “mensageiros” – com boa dose de fascínio pelo universo particular de seu protagonista. É interessante notar que apesar de apelar bastante para o choro fácil, o protagonista não é vitimizado. Muito pelo contrário, as vezes é mostrado de maneira bem humanizada (repare a perspectiva da irmã, interpretada por Izabela Vidovic). Seu sofrimento é espetacularizado para arrancar lágrimas, mas sua catarse também é enaltecida, e isso equilibra bastante o filme.

No fim das contas, mesmo sabendo de seu oportunismo dramático, Extraordinário tem mais coração (imperfeito) que necessariamente razão (lucidez). Ou seja, prepare o lenço e chore, ria e se divirta sem culpa. Depois você vai dizer: “esses americanos são uns filhos da mãe!”. Aos soluços de insuspeita satisfação.

Filme: Extraodinário
Direção: Stephen Chbosky
Elenco: Jacob Tremblay, Julia Roberts, Owen Wilson
Gênero: Drama
País: Estados Unidos
Ano de produção: 2017
Distribuidora: Paris Filmes
Duração: 1h53 min 
Classificação: 10 anos

  • Cadorno Teles

    Irei assistir com certeza esse fiilme com a família toda.