A literatura de John le Carré, especialista em romances de espionagem, é aparentemente feita para o cinema. Mas para as adaptações darem certo, elas requerem que seus diretores deixem o protagonismo para a força de suas histórias matizes, até pela objetividade do gênero a qual esse universo do escritor faz parte: o thriller. O cineasta Fernando Meirelles é um que captou essa questão no ótimo O Jardineiro Fiel. Já o diretor sueco Thomas Alfredson problematizou a narrativa de seu O Espião Que Sabia Demais (clássico de Le Carré) esvaziando a história. O Festival do Rio 2014 trouxe para seu cardápio mais uma produção baseada na obra do autor, O Homem Mais Procurado , dirigido com firmeza e precisão pelo fotógrafo Anton Corbijn (do quase experimental Control), que não esmoreceu diante da responsabilidade, entregando um thriller adulto e um tanto vigoroso. O filme é marcado também como um dos últimos do ator Philip Seymour Hoffman. Aqui, ele é Günther Bachmann, líder de uma agência secreta alemã contra o terrorismo, que está de olhos postos em Issa Karpov (Grigoriy Dobrygin). O ex-prisioneiro checheno visita território alemão para levantar uma autêntica fortuna. A própria suspeição do checheno é suspeita. De um lado surge uma advogada (Rachel McAdams) em defesa dos direitos de Issa, do outro a CIA (outra forte presença de Robin Wright), que quer manter a situação sob rédeas curtas. O novelo ainda se expande pelo envolvimento de um banqueiro (Willen Dafoe) que pode ajudar a solucionar a questão.

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A adaptação cinematográfica de Le Carré pede uma habilidade especial em gerir as intrigas literárias que constroem suas tramas. O roteiro do filme é bem sucedido nesse desafio, principalmente por investir na percepção política paranoica que se transformou as instituições americanas. A todo momento pistas são lançadas e ficamos nos questionando até que ponto são factuais ou delírios políticos (e por que não, xenófobos?). Günther também está no limite dessa dúvida, mas seu tino e capacidade investigativa são maiores que sua cautela. Corbijn é meticuloso na sua direção. Ele estabelece a tensão sem banalizá-la. É quase como Paul Greengrass faz, mas sem sua câmera nervosa. Philip poderia facilmente ser indicado a qualquer premiação por seu desempenho nesse filme. Sua tensão (controlada na história, mas exposta para o espectador) vai delineando toda a condução da história que, ajudada pela competência do roteiro, só somatiza diante de tantos bons personagens em meios a urgência política da investigação. O final é catártico e nada feliz (depende para quem…). Entretanto deixa bem claro que a ambiguidade, no mundo em que vivemos, pode ser mais nociva que a certeza. Filmaço!