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Festival do Rio: Irregular, “Açúcar” abrange questões raciais e sociais na zona da mata pernambucana

Açúcar é aquele tipo de filme que começa meio intrigante, persuade sua atenção pela virulência do senso crítico e, depois… Bem, esse depois que é o grande problema do longa dos diretores Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira que está na mostra competitiva Premiere Brasil do Festival do Rio 2017.

Todo passado na zona da mata pernambucana, que ainda mantém suas ruínas de engenhos de açúcar – muito comuns na época em que a escravatura ainda estava vigente no país – vemos Maria Bethânia (Maeve Jinkings, maravilhosa), herdeira de terras onde funcionou no passado, o Engenho Wanderley, e que volta à casa para manter, como uma missão, as posses da família. Além de encontrar o lugar corroído pelo tempo e pelas dívidas, ela ainda se depara, próximo a seu terreno, com um barulhento centro cultural africano, erguido e mantido por filhos e netos de trabalhadores antigos da Casa Grande da qual constituía sua família, e visivelmente mais próspero que a fazenda em si.

Cria-se uma crescente tensão entre a protagonista e seus “vizinhos”, dentre eles o “faz tudo” do lugar, o libidinoso Zé (Zé Maria Pescador). Com a chegada de uma tia de São Paulo (Magali Biff, ótima) com pensamentos arcaicos e aristocráticos banhados a racismo e classicismo, Bethânia entra num espiral de perturbação consigo e com seu meio, exacerbando questões ancestrais e psíquicas.

O casal de diretores aborda o trama com toques sobrenaturais, num recurso de realismo fantástico para realçar a crítica que permeia a história. Esse contraste com o discurso e seu simbolismo é bem interessante na contextualização que o roteiro vai empreendendo ao longo da projeção. A trama cresce e encorpa com esse desenvolvimento. Só que a narrativa vai se transformando numa histeria subjetiva que não tem a força de sustentar o impacto que o filme vinha causando até ali. É como se a excessividade alegórica diminuísse a potencialidade dramática e até discursiva do filme. Por mais que isso também destaque o trabalho de direção de Renata e Sérgio que entregam um resultado irregular, mas muito notável. 

Cotação: Bom

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Publicado por Renan de Andrade

Renan de Andrade

A paixão pelo audiovisual me pegou de assalto desde o berço. Assim como a necessidade de desbravar o alcance da comunicação. Formado em Jornalismo e atuando nas áreas de roteiro e direção na TV, sinto-me cada vez mais imerso nos matizes da arte (audiovisual) e da vida (comunicação).

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