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“Joaquim” mostra a origem de Tiradentes de forma ousada, porém mal resolvida

“Joaquim José da Silva Xavier/ Morreu a 21 de abril/ Pela Independência do Brasil/ Foi traído e não traiu jamais/ A Inconfidência de Minas Gerais”. Estes são os primeiros versos de “Exaltação a Tiradentes”, samba de Mano Décio da Viola, Estanisláu Silva e Penteado, que rendeu o bicampeonato ao Império Serrano no carnaval de 1949. Ele foi regravado por artistas como Chico Buarque e Elis Regina e resume bem a visão que a maioria dos brasileiros tem sobre o homem que se tornou um dos maiores ícones da história do nosso país, cujo nome ficou tão conhecido que batizou uma cidade mineira e até hoje é matéria obrigatória nas escolas e sua morte é celebrada com um feriado nacional (algo que não acontece, veja bem, com a data do Descobrimento do Brasil).

Sua trajetória foi tema de alguns programas de TV, peças teatrais e filmes, como “Os Inconfidentes”, de Joaquim Pedro de Andrade (1972), em que José Wilker interpretou o alferes, e “Tiradentes”, de Oswaldo Caldeira (1988), com Humberto Martins no papel-título. Mas nenhum deles foi realizado de forma tão ousada, tanto na forma quanto no conteúdo, quanto “Joaquim” (Idem, 2017), que procura deixar o mito de lado para se aprofundar no homem e nos motivos que o levaram a se revoltar contra ao domínio português no Brasil. Assim, temos um filme bastante diferenciado em relação à maioria das obras já feitas no país sobre o assunto, o que por si só já é algo a comemorar no nosso cinema tupiniquim. No entanto, sua realização apresenta irregularidades que acabam prejudicando o resultado final e deixando a impressão de que havia um grande potencial a ser explorado que acaba ficando no meio do caminho.

Ambientada no século XVIII, a trama mostra Joaquim José (Julio Machado) ainda como um alferes em busca de uma promoção para obter uma patente como tenente. Especialista em capturar contrabandistas de ouro, ele mantém uma relação íntima com uma de suas escravas, Preta (Isabél Zuaa) e espera, com a sua ascensão, ter condições de comprar a liberdade de sua amante. Só que o tempo passa e sua situação não muda. Um dia, ele recebe a missão de encontrar minas de ouro no chamado Sertão Proibido. Durante a expedição, ele passa por diversas experiências e conhece pessoas que o fazem mudar sua postura em relação à Coroa portuguesa e plantam em sua mente o desejo de insurgir contra os que controlavam o Brasil e iniciar uma luta para libertar o país.

Para contar essa história, livremente inspirada nos documentos históricos sobre a vida de Tiradentes, o diretor Marcelo Gomes, o mesmo do cultuado “Cinema, Aspirinas e Urubus”, procurou traçar um panorama da sociedade brasileira na época em que surgiu o principal nome da Inconfidência Mineira. Para isso, o cineasta caprichou na reconstituição histórica, ressaltando a mistura étnica de seus habitantes na região mineira, além de se valer de uma fotografia realizada com luz natural para dar um ar mais realista da iluminação deste período.

Além disso, Gomes se vale de muita utilização de câmera na mão e com movimentos bruscos, dando uma linguagem, paradoxalmente, mais “moderna” para o filme, que se distancia da maioria dos filmes históricos feitos no Brasil. O cineasta também lança mão de um estilo mais documental e conduz seus atores a dizer suas falas da maneira mais naturalista possível. O efeito é bem interessante e cria momentos que deixam de lado aquela impressão que se tem geralmente deste estilo de filme, em que tudo é tão encenado que parece maior do que a vida. Ponto para todos os envolvidos.

Outro aspecto a ressaltar é a concepção dos personagens no roteiro, também escrito por Gomes. Principalmente seu protagonista. No texto, o diretor não mostra Tiradentes carregado nas tintas heroicas, mas sim um homem que chega a mentir e roubar para conseguir seus objetivos e que, embora deseje libertar a mulher que ama, não se preocupa em libertar os outros escravos, como João (Welket Bungué), seu fiel serviçal. Um pensamento, aliás, bem comum entre as pessoas deste período, mesmo aquelas que queriam o Brasil independente de Portugal.

No entanto, o filme apresenta alguns problemas que acabam prejudicando o seu resultado final. Um deles está em seu ritmo irregular, onde há momentos mais dinâmicos em sua narrativa seguidos por outros bem mais arrastados que podem testar a paciência do espectador. Um bom exemplo disso é a parte envolvendo a expedição, mostrada nos mínimos detalhes e com algumas sequências que parecem não chegar a lugar nenhum, enquanto algumas partes mais interessantes, como a que mostra o início da mudança de personalidade de Tiradentes são mostrados na tela de forma mais corriqueira do que deveria ser. Uma edição mais trabalhada poderia resolver essa questão facilmente.

Outro problema está em sua conclusão apressada, que acontece justamente no momento em que o filme encontra seu melhor equilíbrio e priva o espectador de ter uma maior  imersão ao que está sendo contado na tela. É como se, mal comparando, alguém tivesse apagado as luzes bem na hora que a festa começa a pegar fogo. O que é uma pena pois deixa um gosto amargo de frustração quando a trama chega ao fim, podendo deixar o público cheio de indagações que não gostaria de ter, simplesmente por desejar ver um pouco mais de sua história ao invés de ser privada dela abruptamente.

Pelo menos, o diretor tem em suas mãos um ótimo elenco, cujos destaques são seus atores principais. Julio Machado tem uma atuação visceral como Joaquim e passa muito bem a mudança de alferes conformado a opositor radical do império português tanto pelos gestos quanto pelo olhar cada vez mais insano que passa ter à medida que a trama avança. A portuguesa Isabél Zuaa rouba todas as cenas em que aparece como Preta e engrandece sua personagem como uma mulher ávida pela liberdade e pelo fim da exploração de seu corpo, tanto para o trabalho escravo quanto para questões sexuais (como, aliás, eram vistas as escravas naquela época). A atriz se revela magnética em cena e certamente uma das pessoas que mais são lembradas ao fim da projeção. Os outros atores fazem bons trabalhos, embora não sejam tão marcantes.

Único representante do Brasil na Mostra Competitiva do Festival de Berlim de 2017, “Joaquim” poderia ser a obra mais relevante sobre Tiradentes já lançada no cinema devido a suas diversas qualidades. Infelizmente, algumas escolhas de Marcelo Gomes acabam sabotando suas intenções e deixam o filme com a sensação de que poderia ter rendido mais. No fim das contas, vale para quem quer ver algo que vá além ao que foi mostrado na escola e pode servir como um complemento. Afinal, na época em que vivemos, é sempre bom revisar a História para que não se comentam os mesmos erros do passado.

Filme: “Joaquim”
Direção: Marcelo Gomes
Elenco: Julio Machado, Isabél Zuaa, Nuno Lopes, Rômulo Braga e Welket Bungué
Gênero: Drama
País: Brasil/Portugal/Espanha
Ano de produção: 2017
Distribuidora: Imovision
Duração: 1h 42min
Classificação: 16 anos

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Publicado por Célio Silva

Célio Silva

Sou um cara que, desde que viu Flash Gordon na telona, com 7 anos de idade, sempre foi apaixonado por cinema. Também curto muito TV, música e livros. Mas é na sétima arte que sinto o maior prazer.

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