Nesses tempos de internet e redes sociais, os diversos tipos de ideologias e opiniões conseguiram “ganhar voz” e muitas delas acabam obtendo mais adeptos às suas causas, por mais ilógicos e absurdos que sejam. Há, por exemplo, gente que não acredita que o homem já pisou na Lua. Outras pessoas acreditam em teorias bizarras, como aquela que diz que Paul McCartney morreu e foi substituído por um sósia ainda quando tocava com os Beatles. E tem aqueles que juram de pés juntos que determinados fatos importantes da nossa História não aconteceram ou não foram exatamente do jeito que muitos de nós leram nos livros ou aprenderam nas salas de aula.

Como o Holocausto, ocorrido na Segunda Guerra Mundial, quando o governo de Adolf Hitler perseguiu grupos de etnias diferentes da sua considerada “Raça Superior”, em especial os ciganos e os judeus, e os colocaram em campos de concentração, onde foram torturados e até mortos. É sobre uma dessas pessoas que foi inspirada a realização de “Negação” (“Denial”, 2016), que conta como foi um dos mais polêmicos julgamentos da história recente da Grã-Bretanha, onde se discutiu a veracidade dos fatos a respeito de um dos mais lamentáveis episódios da humanidade. O filme dá um tratamento adequado ao tema e conta com um ótimo elenco. No entanto, faltou a ele um pouco mais de energia para torná-lo mais impactante para o público em geral.

Inspirada em fatos reais, a trama mostra que, durante o lançamento de um livro sobre o Holocausto no Reino Unido, no fim dos anos 1990, a professora universitária Deborah Lipstadt (Rachel Weisz) descobre que está sendo processada pelo escritor David Irving (Timothy Spall) por calúnia porque ela o chamou de negador do Holocausto. Para a sua surpresa, de acordo com as leis do Reino Unido, ela é presumidamente culpada a não ser que possa provar a sua inocência.

A historiadora vê que, não apenas terá de se defender, mas também de obter provas que não deixem dúvidas de que o Holocausto aconteceu. Assim, ela decide recusar qualquer tipo de acordo e leva o caso aos tribunais, contando com a ajuda de uma equipe de advogados liderada por Anthony Julius (Andrew Scott) e Richard Rampton (Tom Wilkinson), que resolvem que nem Deborah nem quaisquer sobreviventes do Holocausto prestem depoimento no processo, numa medida radical para tentar vencer o caso.

Em “Negação”, o espectador poderá conhecer um pouco mais como funciona o sistema jurídico britânico, graças principalmente ao roteiro bastante didático de David Hare, que também escreveu “O Leitor”, que deu o Oscar a Kate Winslet, e também envolve questões relacionadas à Segunda Guerra Mundial e ao Holocausto. Aqui, o escritor mostra que se preocupou muito mais em detalhar os pormenores do processo e isso deve ser bem apreciado, já que não é todo dia que um projeto cinematográfico deseja fugir dos clichês e da apelação melodramática que pode surgir em filmes de tribunal. No entanto, Hare dá um tratamento um pouco frio e distante, que pode deixar o público pouco envolvido com o drama apresentado na tela.

O mesmo vale para a direção do britânico Mick Jackson, que tem em seu currículo O Guarda Costas” (sim, aquele mesmo com Kevin Costner e Whitney Houston) e o premiado telefilme “Temple Grandin”. O cineasta até obtém bons momentos, como a cena em que a protagonista e seus advogados vão até o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, na Polônia, em busca de evidências que os ajudem no julgamento e desmintam as afirmações proferidas por Irving. Ou nos embates que Deborah tem com seus defensores, que encontram dificuldades em convencê-la de que sua estratégia é a mais adequada. Mas na maioria do tempo, impera um tom solene e formal demais que deixa o filme apenas correto e sem muito impacto.

O bom elenco, no entanto, vale o ingresso. Embora Rachel Weisz peque em não conseguir se livrar de seu sotaque britânico para interpretar uma americana, pelo menos convence com o tom de indignação e angústia que coloca em sua atuação. Tom Wilkinson, mais uma vez, marca presença como o austero e eloquente advogado que busca a justiça para um caso tão controverso quanto este, assim como o correto Andrew Scott, que faz o seu parceiro de tribunal.

Mas o principal destaque vai para Timothy Spall, mais conhecido do grande público como o Peter “Rabicho” Pettigrew da franquia “Harry Potter”. O ator rouba todas cenas em que aparece como o perigoso (e, ao mesmo tempo, patético) David Irving, que dispara provocações e impropérios com seu discurso preconceituoso contra os judeus, diferentes etnias e até as mulheres, além de acreditar piamente em sua ideologia distorcida, especialmente sobre o Holocausto. Spall impressiona ao mostrar as contradições de Irving, ao tentar justificar o injustificável e, anda assim, procura convencer o júri de que não é o monstro que aparenta ser.

“Negação” resulta, no fim das contas, num bom filme de tribunal, mas não memorável. As discussões que o filme levanta, sobre o que é verdade e os efeitos de uma ideologia na mente das pessoas, são muito interessantes, mas poderiam ser tratadas de uma forma mais cativante. Do jeito que ficou, pode até ser que a polêmica apresentada no filme desapareça assim que as luzes do cinema se acendam. Mesmo assim, não há a sensação de tempo perdido. Ainda mais nos dias atuais, em que infelizmente informações erradas e mal apuradas podem causar um grande estrago na nossa sociedade, por causa de interesses mesquinhos de pessoas com pouca humanidade no coração.

Filme: “Negação” (Denial)
Direção: Mick Jackson
Elenco: Rachel Weiz, Timothy Spall, Tom Wilkinson
Gênero: Drama biográfico
País: EUA/Reino Unido
Ano de produção: 2016
Distribuidora: Sony Pictures
Duração: 1h 51min
Classificação: 12 anos

REVISÃO GERAL
Bom
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Célio Silva
Sou um cara que, desde que viu Flash Gordon na telona, com 7 anos de idade, sempre foi apaixonado por cinema. Também curto muito TV, música e livros. Mas é na sétima arte que sinto o maior prazer.