Desde que os computadores e a internet se tornaram bem mais populares, o cinema procura mostrar como as pessoas lidam com a tecnologia no seu dia a dia, se ela é realmente benéfica para nos ajudar a realizar tarefas que eram mais complicadas no passado, ou se ela surgiu para controlar cada passo que damos, numa espécie de dominação informática sobre a raça humana. Como uma versão moderna do Grande Irmão do clássico livro “1984”, de George Orwell.

Assim, surgiram produções que exploraram essa ideia de controle como “A Rede” (1995), “Hackers – Piratas de Computador” (também de 1995) ou “Ameaça Virtual” (2001). Até mesmo a franquia “O Exterminador do Futuro” mudou um pouco a ótica de sua vilã onipresente, a Skynet, tornando-a uma espécie de vírus cibernético que se infiltra sorrateiramente pela Terra para destruir a humanidade, como mostrado no (até agora) último capítulo, o desengonçado “O Exterminador do Futuro: Gênesis”, que poderia ser bem mais interessante se tivesse se aprofundado mais nessa questão.

O mais recente exemplar a levar essa discussão para o grande público é “O Círculo” (“The Circle”, 2017), que mostra como a tecnologia pode influenciar a vida e as decisões das pessoas comuns, ao mesmo tempo que pode passar por cima dos direitos individuais, como a privacidade de cada um. É uma pena, no entanto, que o filme não vá mais fundo nessas questões e parece se satisfazer em ser apenas um suspense superficial, mais preocupado em agradar os espectadores que curtem a recente onda de adaptar obras distópicas estreladas por jovens mulheres fortes, como “Jogos Vorazes” e “Divergente”.

Inspirada no livro de mesmo nome, escrito por Dave Eggers, a trama é centrada em Mae Holland (Emma Watson), uma jovem bastante descolada que, por intermédio da amiga Annie Allerton (Karen Gillan), consegue uma entrevista para trabalhar para O Círculo, uma gigantesca empresa de tecnologia e mídias sociais, criada e comandada por Eamon Bailey (Tom Hanks) e seu parceiro Tom Stenton (Patton Oswalt), que está prestes a lançar sua mais nova invenção: a câmera SeeChange, que além de pequena, possui várias inovações. Aprovada, Mae vê no novo emprego uma chance de dar uma vida melhor para seus pais, Vinnie (Bill Paxton) e Bonnie (Glenne Headly), e não demora muito para que comece a se destacar em sua função. Mas as coisas mudam mesmo quando, após um incidente, ela acaba tendo maior contato com Eamon e passa a ter um papel mais importante nas decisões do Círculo. Só que, influenciada pelos conselhos de Ty (John Boyega), Mae começa a perceber que as ideias de seus chefes não são tão altruístas quanto parecem ser.

Um ponto interessante de “O Círculo” é mostrar como as novas tecnologias e as mídias sociais fazem com que as pessoas se tornem cada vez mais obsessivas em se integrar a um grupo, quase como se fosse um culto. Isso fica bem claro em duas sequências. Uma é quando Mae é persuadida por dois funcionários da empresa a interagir mais com seus colegas de uma forma que beira a imposição, mesmo que eles estejam com sorrisos no rosto. A outra é quando a protagonista, já bem conhecida por todos, tem toda a sua vida acompanhada por seus fãs o tempo inteiro através da SeeChange e a bombardeiam com mensagens vindas de várias partes do mundo, como se fossem amigos íntimos da garota, mesmo nunca tendo-a visto pessoalmente antes (Aliás, uma observação: É uma pena que a versão exibida no Brasil não tenha traduzido os textos dos internautas que aparecem na tela, o que pode fazer os espectadores que não sabem muito de inglês – e também outros idiomas – fiquem  perdidos e não percebam muito bem o que está acontecendo).

Outro destaque está na cenografia do Círculo em si, que lembra muito a sede da Apple, mas misturada com a do Google, que foi mostrada na comédia “Os Estagiários”. Os efeitos especiais são discretos, mas funcionais, que nunca deixam a impressão de que os objetos mostrados no filme não poderiam existir num mundo real. Além disso, a discussão sobre os limites que surgem a respeito do que pode ser privado e o que não pode está mais atual do que nunca, além da interferência que uma empresa privada possa vir a ter sobre decisões públicas, como o direito ao voto, é realmente instigante, assim como a mudança de personalidade da protagonista, que começa a “pôr as mangas de fora” à medida que vai ascendendo na empresa, sem perceber que sua alma está sendo “possuída”, a ponto de perder sua personalidade. Assim, Mae sai do clichê de politicamente correto e isso é um bálsamo depois de tantas mocinhas certinhas demais e nada humanas e convincentes.

Porém, o filme derrapa feio ao propor tantas questões e não se aprofunda em nenhuma delas. A história parece diminuir o ritmo a partir do momento em que Mae se torna uma febre nas redes sociais e perde muito tempo mostrando o relacionamento dela com seus fãs (que lembra muito filmes como “O Show de Truman” e “Ed TV”, sobre reality shows), ao invés de desenvolver melhor o que está por trás dessa popularidade. Além disso, o diretor James Ponsoldt (em seu primeiro grande filme após realizar produções cult, como “O Maravilhoso Agora”) não acerta na direção de alguns atores, que mudam muito radicalmente de atitudes de uma cena para outra, sem maiores nuances, deixando-os beirar o caricato.

O cineasta, também autor do roteiro ao lado de Eggers, também não é muito feliz ao desperdiçar bons personagens como Ty, que pouco aparece e não tem sua aura de mistério bem desenvolvida. Isso sem falar em sua pressa para terminar o filme, o que deixa no ar uma certa decepção, pois poderia perfeitamente construir melhor o seu desfecho. Mas para quem não for muito exigente, pode ser que isso não incomode.

Depois do grande sucesso de “A Bela e a Fera”, Emma Watson mostra mais uma vez que é bastante carismática e utiliza isso muito bem para conquistar o público com sua personagem, apesar de suas falhas de caráter. Tom Hanks realiza um bom trabalho ao fazer com que Bailey seja um amálgama de Steve Jobs, Bill Gates e Mark Zuckerberg, mimetizando os gestos e a forma de falar dos três, sempre sorridente para sempre demonstrar força, como um guru de autoajuda, reforçando sua ambiguidade. Isso fica bem claro nas cenas em que tem que falar para seus funcionários em palestras que lembram muito as que o ex-chefão da Apple fazia quando anunciava o lançamento de um novo produto.

John Boyega (o Finn de “Star Wars: O Despertar da Força”) é vítima de um mau desenvolvimento de seu personagem e tem uma atuação abaixo do esperado. Os recém-falecidos Bill Paxton (a quem o filme é dedicado) e Glenne Headly têm ótimos momentos como os pais de Mae. Já Karen Gillan faz o que pode com Annie, mas também é sabotada por erros do roteiro e da direção. Vale como curiosidade a participação de Ellar Coltrane, o garoto de “Boyhood”, que interpreta Mercer, um amigo de infância de Mae que terá uma grande importância no terço final da trama.

“O Círculo” tinha tudo para ser um filme bem mais instigante nestes tempos em que cada vez mais estamos devotos de computadores, smartphones e tablets e que o desejo por dominar as informações é algo que é tão desejado quanto obter fama e riquezas. Mas no fim das contas, não ficou muito diferente das outras produções que trataram do tema, como os exemplos mostrados no início deste texto, tornando-o facilmente esquecível quando as luzes do cinema se apagam. Vale como passatempo de fim de semana. Mas fica a sensação que poderia ser bem melhor.

Filme: “O Círculo” (The Circle)
Direção: James Ponsoldt
Elenco: Emma Watson, Tom Hanks, John Boyega, Karen Gillan
Gênero: Ficção Científica, Drama, Supsense
País: EUA/Emirados Árabes Unidos
Ano de produção: 2017
Distribuidora: Imagem Filmes
Duração: 1h 50min
Classificação: 12 anos