Um dos maiores ídolos da MPB, Ney Matogrosso sempre chamou a atenção do público com sua voz espetacular e sua maneira única de interpretar suas canções, com o auxílio luxuoso de seu figurino bastante inusitado. Com 40 anos de carreira e 70 idade, Ney obteve uma proeza que poucos artistas no nosso país conseguem: o de se tornar relevante tanto para a crítica especializada quanto para muitos brasileiros, mesmo com tanto tempo de estrada. Como as diversas fases de seu trabalho foram largamente registradas na TV, faz sentido que, ao comemorar quatro décadas de bons serviços prestados para a música brasileira, tenha surgido um projeto para homenagear este grande artista. Mas, como Ney nunca foi um cantor convencional, que se mantivesse do mesmo jeito por muito tempo, nada mais justo que “Olho Nu” (Brasil, 2014), também fosse um documentário que foge totalmente do lugar comum.

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Narrado de forma não linear, o filme retrata a vida e a obra de Ney, a partir do conjunto de imagens e sons que o artista reuniu até hoje em sua casa e existentes em arquivos públicos, ao mesmo tempo em que sai numa nova turnê pelo país e volta à sua terra natal, em Bela Vista (MS), relembrando alguns momentos importantes de seus 70 anos. Ney fala sobre quando deixou a casa dos pais, aos 17 anos, e foi morar no Rio de Janeiro. Mas ele confessa que foi em Brasília que aprendeu a ser “humano”. Neste mesmo período, começou a cantar num coral, durante a década de 60, e quis se tornar um ator. Mas, nos anos 70, entrou para o grupo Secos & Molhados, que o tornou famoso no Brasil inteiro, com sucessos como “Rosa de Hiroshima” e “O Vira”, em parte graças às suas interpretações teatrais e com muita sensualidade, que chocaram os militares durante a ditadura que o país vivia. Pouco tempo depois, ele saiu em carreira solo e obteve diversos hits, entre os quais “América do Sul”, “Homem com H”, “Sangue Latino”, entre outros. No meio dos anos 80, volta a surpreender a todos ao deixar a maquiagem pesada e os figurinos escandalosos para ser mais intimista com o show “Pescador de Pérolas”, que também é bem sucedido. Mas, sempre inquieto, Ney abandonou essa fase para uma outra, sem nunca perder a qualidade.

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O que mais se destaca em “Olho Nu” é o incrível trabalho de edição do filme, feito por Alexandre Gwaz e Joaquim Castro, que utilizaram imagens de diversos formatos, com cortes rápidos aliados a trilha sonora, composta de 85 canções de Ney, que deixam a obra como uma experiência extrassensorial, onde a música ‘conta’ a história. Porém, o recurso pode desagradar algumas pessoas, pois o filme fica com um jeito de um grande e longo vídeo clipe, não se aprofundando em algumas questões que o cantor chega a mencionar em sua trajetória. Um exemplo disso, é o seu relacionamento com Cazuza e sua morte, assim como os amigos que perdeu por causa da Aids. A montagem também parece se perder em um certo momento e fica arrastada, dando a impressão de que os seus 101 minutos de duração sejam mais longos do que deveriam ser. Mas as declarações dadas por Ney em entrevistas que fez em sua carreira, para artistas como Grande Otelo, onde fala do choque que o pai dele teve ao ver o filho se apresentando na TV, são primorosas e mostram o caráter controverso do artista.

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A direção de Joel Pizzini é apenas regular, já que apesar de conseguir extrair de Ney declarações interessantes sobre o que ele pensa de diversos assuntos, peca quando resolve “dramatizar” a passagem do cantor em sua casa, no Mato Grosso do Sul. O resultado nunca soa natural e muitas vezes destoa do que é mostrado nas imagens de arquivo, não conseguindo uma ligação entre eles. Mas vale pela ousadia do diretor em retratar Ney Matogrosso de um jeito que ninguém imaginava.

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“Olho Nu” (que ainda vai virar uma minissérie no Canal Brasil com o material que não entrou no filme) pode até encontrar o seu público nos cinemas, pois possui qualidades inquestionáveis. Contudo, também pode decepcionar muita gente que deseja saber mais profundamente sobre a vida e a obra de Ney Matogrosso. Como uma esfinge, ele faz algumas perguntas, mas não dá todas as respostas. O filme não procura deixar tudo ‘mastigado’ para o espectador e prefere que ele tente interpretar os fragmentos que estão diante dos seus olhos. O que pode tornar a experiência cativante ou mesmo decepcionante. Isso realmente vai depender de cada um.