Antes de tudo, gostaria de esclarecer que o texto não será uma análise cinematrográfica profunda sobre o tema, levantará apenas a questão de uma pessoa que assiste a filmes e gosta do gênero e sente falta de musicais nas produções atuais.

Mas primeiro, um pouquinho de história para situar o assunto. Os musicais em si tiveram origem no teatro e se tornaram muito populares em Londres e Nova York, onde se situa a Broadway, ninho de nascimento e propagação de grandes musicais.

O primeiro filme falado também era musical, O cantor de jazz (1917).

O gênero nasceu com o cinema. Porém, os musicais ganhariam mais força na década de 30, quando surgiu um dos maiores nomes do cinema musical: Fred Astaire, protagonista de grandes sucessos como O Picolino (1935), A Roda da Fortuna (1953), e Cinderela em Paris (1957), também fazendo parte de uma das cenas mais famosas do história do cinema com Ginger Rogers, seu grande par, dançando Cheek to cheek, do filme “O picolino” – número que é citado em muitos outros filmes contemporâneos.

A Grande Era de Ouro do gênero foi depois da Segunda Guerra Mundial até a década de 60, quando foram produzidos filmes que marcaram a História do cinema, como Cantando na Chuva (1952), O Mágico de Oz (1939), Amor sublime Amor (1960), Mary Poppins (1964), e A Noviça Rebelde (1965). Todos fazem parte da lista de melhores musicais da AFI (American Film Institute).

Se Fred Astaire foi o ícone desse tempo, Gene Kelly despontou como representante da modernidade com um estilo mais atlético que influenciou a origem do charme dos nossos galãs de hoje. Ele esteve em Sinfonia de Paris (1951) e Cantando na chuva (1952).

O lado feminino é bem representado por vários nomes de peso do cinema hollywoodiano como Audrey Hepburn (Funny face e My fair lady), Ginger Rogers (O picolino) e Judy Garland (O mágico de Oz , Agora Seremos felizes e Nasce uma estrela). Apenas para citar algumas.

Mesmo depois da época de ouro, continuamos encontrando grandes musicais como Cabaret (1972) que rendeu o primeiro Oscar de Liza Minelli (filha de Judy Garland com o grande diretor de musicais Vincent Minelli) em seu primeiro filme e Grease – nos tempos da brilhantina (1978) que revelou John Travolta para o estrelato. Mais recentemente, tivemos Moulin Rouge (2001) que renovou o gênero com seu estilo extravagante e narrativa inconvencional; a refilmagem Chicago (2002) com a ótima dupla Velma e Roxie (Catherine Zeta-Jones e Renée Zellweger respectivamente), baseado em peça teatral da Broadway; e Nine (2009), adaptação livre do filme 8 ½, de Fellini, que contava com um grande elenco mas ficou muito aquém do esperado.

Nesse ponto, Nine abre uma brecha para a questão: o que aconteceu com um gênero que atravessou quase um século sendo uma fórmula perfeita para o sucesso? Poucos são feitos no cinema atual e quando realizados não correspondem às expectativas do público. Nine possuía todos os ingredientes para ser mais um sucesso do gênero, entretanto se perdeu em seus números musicais pouco atraentes, apesar de toda sensualidade empregada nas coreografias. Os únicos destaques do filme foram Marion Cottilard, que teve o filme só para si e para o número musical de Kate Hudson que acabou tendo sua música como tema do filme.

Muita gente enxerga os filmes musicais com preconceito, afirmando que não possuem realismo e são puramente ilusórios com seus personagens que começam a cantar sem nenhuma explicação. Mas justamente aí que está a magia: no momento em que o personagem tem um grande sentimento, ele não precisa expressá-lo através de situações do roteiro, a própria música com sua letra e coreografia, adicionada com o ânimo do personagem e o uso do espaço, oferecem ao espectador uma deliciosa visão do que se passa na cabeça do personagem. Trata-se apenas da mistura de cinema, música e dança. Apesar de na realidade não termos pessoas cantando e dançando no meio das ruas, é perfeitamente lógico dentro da estrutura do filme.

Então será que o público foi quem mudou e não precisa mais desse gênero? Nesse cinema de efeitos especiais e filmes em 3D não sobrou espaço para os musicais? Para responder a essa pergunta seria preciso uma análise do mercado cinematográfico e do perfil de seu público. O que sabemos é o que o mercado atual está mais comercial e talvez os musicais não se enquadrem nessa categoria a menos que se submetam a esse sistema.

Com estréia agendada no Brasil para 11 de fevereiro, o musical Burlesque, protagonizado pela sempre diva Cher e pela cantora, metida a atriz e no ostracismo Christina Aguilera, o filme já é taxado como um fracasso. Conta a história de uma menina do interior que vai tentar a sorte na cidade grande e arranja emprego como garçonete num teatro velho, porém majestoso. Recebeu uma indicação ao Framboesa de Ouro na categoria de pior atriz coadjuvante para Cher.

O jeito é esperar para ver se este e os próximos filmes representarão bem o cinema musical hollywoodiano.

Agradeço a ajuda cinéfila de André Ornellas na revisão do texto.

  • Não entendo muito de musicais, mas acho o gênero fantástico e esse texto vai servir de referência para eu ver mais coisas do gênero, principalmente os clássicos. Eu gosto muito da versão do Baz Luhrmann pro Romeu e Julieta, que não tá nessa lista.

  • thaisaux

    O público quer ver musicais, sim. Prova disso é o sucesso da série Glee. Realmente Nine não foi tão bom como esperado, e talvez Burlesque não seja a salvação dos musicais. Mas que há público, ah, isso há!

  • E sou apaixonada por musicais. Desde os clássicos aos mais recentes. Não vi Nine por falta de tempo ainda, mas pretendo muito em breve.
    Esse é um gênero que não vai morrer jamais, vide todo o sucesso que Glee anda fazendo. Mais pela nova roupagem que as músicas estão ganhando, com arranjos diferentes e inusitados.

    Nine pode não ter sido O sucesso que era esperado e Burslesque não pode estar tão mal assim se concorreu ao Globo de Ouro.
    Não se esqueçam que a Sandra Bullock ganhou um Framboesa de Ouro por Maluca Paixão e logo depois ganhou o Oscar. Tudo bem q por filmes diferentes, mas ainda assim vale a ressalva…

    Não me deixo levar pela crítica, nem pelas premiações. Gosto muito de todas elas e claro de saber a opinião dos mais entendidos.
    Mas nenhum opinião supera a minha.