Quem nunca acreditou em contos de fadas? Ok, alguns podem se pronunciar negativamente, mas quem nunca gostaria de, pelo menos em uma determinada ocasião, ter a pureza de coração e acreditar? A fantasia é essencial à alma, pois nos dá a plena convicção de que tudo termina bem, que um passe de mágica resolve tudo. A fantasia tinge em matizes coloridos o que naturalmente tem cor escura, ou monocromático. Se não há fantasia não há esperança, há niilismo.

Neil Jordan, em seu novo filme, Ondine (Ondine, E.U.A/Irlanda 2009), aborda justamente a importância de se acreditar em contos de fada, por mais absurdo que se pareça em tempos tão cínicos e céticos. Na trama, Syracuse, um solitário pescador irlandês vivido por Colin Farrell, encontra em sua rede durante a pesca uma mulher, que se identifica como Ondine (Alicja Bachleda, uma atriz polonesa nascida no México), por quem acaba se apaixonando. Sua filha, por sua vez, antenada com contos de fadas e observando algumas peculiaridades da “madrasta”, chega à conclusão de que pode se tratar de uma seria, o que deixa Syracuse bastante confuso, confusão essa que aumenta sua paixão por Ondine.

O cineasta, que também assina a autoria da trama e ficou famoso com os polêmicos Traídos Pelo Desejo e Na Companhia Dos Lobos, coloca em questão o papel da fantasia como mero analgésico para aliviar as dores colaterais advindas do cotidiano duro e muitas vezes impiedoso. Filmado em locações na Irlanda natal de Jordan, o filme conta com o belo trabalho de fotografia de Christopher Doyle, que tem no currículo obras primas como Amor À Flor Da Pele e 2046 de Wong Kar Wai, Herói de Zhang Yimou e uma série de filmes asiáticos. Doyle tem a missão de dar tons sombrios ao conto de fada moderno e agridoce, numa antítese da explosão de cores de A Pequena Sereia da Disney, ou do tom leve e cômico de Splash, a comédia oitentista com Tom Hanks e Darryl Hannah.

Jordan não é um cineasta que faz questão de ganhar o público, de agradar, fazer concessões. É ame-o ou odeie-o. Porém, nesse aqui ele foi bem comedido. O protagonista, apesar de sua certa melancolia, nota-se que foi concebido para cair nas graças do espectador. Sua filha Annie, que vive com a mãe e anda em uma cadeira de rodas, também é propositalmente desenhada para gerar empatia com o público, uma vez que é ela quem estabelece a conexão do real, cru com o imaginário, onírico. Já Ondine surge com o encantamento óbvio da beleza e da aura mágica que paira sobre a personagem. Isso somado a uma narrativa linear e sem grandes surpresas, mostra que Jordan não estava muito preocupado em desafiar ou provocar o espectador durante a película, nem render discussões após a saída da sala de exibição, num misto ponderado de despretensão e preguiça.

Ondine não é nem de longe o mais significante trabalho de Neil Jordan, mas é eficiente na proposta  de reforçar a pergunta: ainda vale a pena sonhar? E há um lugar seguro para depositarmos nossos sonhos?