Se fosse mais uma produção hollywoodiana, “Os Guardiões” (Zashchitniki, Rússia/2017) certamente passaria batido como um filme de super-herói genérico. Mas o fato de ser uma produção russa seguindo a linha Marvel faz do longa um obrigatório programa para o final de semana. É como se fosse uma resposta de Vladimir Putin aos Vingadores ou à Liga da Justiça. E se a equipe da DC seguir o mesmo ritmo de “Batman vs Superman”, periga os heróis “vermelhos” entregarem um entretenimento melhor. Mas que fique clara uma coisa: não exatamente pelos motivos apropriados.

A trama não se difere das histórias de origem das superequipes dos quadrinhos estadunidenses. Durante a Guerra Fria, uma organização chamada “Patriota” (o título do filme no idioma original, o nome dado no Brasil é tradução do título em inglês) criou um esquadrão especial, que inclui indivíduos de diferentes repúblicas soviéticas que foram submetidos a experimentos científicos. Durante anos, os heróis tiveram que esconder suas identidades, mas diante de uma ameaça eles devem se mostrar novamente.

Daí, temos Xenia (Alina Lanina), uma Mulher Invisível como no Quarteto Fantástico, Khan (Sanjar Madi), um ceifador veloz à la Flash (ou Mercúrio), Arsus (Anton Pampushnyy), que tem poder de se transformar em um urso (!!!) (lembram-se de Bravestar?) e Ler (Sebastien Sizak), com poderes de controlar pedras e incorporá-las como arma (em um momento fica bastante parecido com o Coisa). Isso sem falar na tal Patriota, que se assemelha à S.H.I.E.L.D.

O que faz “Os Guardiões” ser tão divertido (que chega a ser genial) é que no lugar de piadinhas sagazes milimetricamente calculadas para encaixar entre um tiro e uma bordoada, como vemos nas adaptações da Marvel e DC, aqui entra o humor involuntário. Como uma autêntica pérola trash. Os efeitos especiais até são convincentes em algumas tomadas, mas na maior parte do tempo são toscos. Foi o que deu para fazer com o orçamento disponível. O filme foi realizado com 33 milhões de rublos, o equivalente a 5 milhões de dólares.

As atuações são canhestras. Cá entre nós, não é o tipo de produção que exige interpretações shakespearianas, mas os atores são ruins de doer. Isso sem falar nos furos e incoerências do roteiro. Mas como não se render a cenas impagáveis, como Arsus na sua forma urso-humanoide empunhando uma metralhadora giratória, ou quando se transforma completamente no animal, graças a um upgrade que recebe da organização?

O prolífero diretor armênio Sarik Andreasyan (comandou 12 títulos em 8 anos), em boa parte do tempo, segue a cartilha dos blockbusters americanos. Sem grandes enlevos estéticos, ele envereda pela retidão, não se esquecendo da principal qualidade que deve ter um cineasta que se aventura pelo cinema de gênero fora dos EUA: a cara de pau. Só assim para driblar a falta de recursos financeiros e tecnológicos. E aí reside o mérito de “Os Guardiões”, a despeito do resultado. Tem todo potencial para virar um cult daqui a alguns anos.

Apesar de não ter sido um sucesso arrasador nem mesmo na Rússia, haverá uma continuação, como fica subentendido no final. Uma pena que as cópias disponíveis no Brasil sejam dubladas em inglês. Ouvir o som original em russo tornaria a coisa ainda mais divertida. E, como não poderia deixar de ser em um filme de super-heróis, há uma cena pós-créditos.

Filme: Os Guardiões (Zashchitniki)
Direção: Sarik Andreasyan
Elenco: Anton Pampushnyy, Alina Lanina, Sebastien Sizak
Gênero: Aventura/Ficção Científica
País: Rússia
Ano de produção: 2017
Distribuidora: Paris Filmes
Duração: 1h 29 min
Classificação: 12 anos