em

(Re)descobrindo o cinema irlandês com “The Lord’s Burning Fire”

“Era uma terra pela qual valia à pena

A Irlanda é muito mais que trevos de quatro folhas, pubs e Saint Patrick’s Day. Como todo país independente e com uma rica cultura, a Irlanda também tem cinema nacional. Mas nem sempre foi assim. O primeiro cinema, lugar físico para ver filmes, foi o Volta, aberto em Dublin em 1909 por James Joyce (ele mesmo, o autor de “Ulisses”). Se você se lembrar bem das aulas da escola, saberá que a Irlanda esteve sempre marcada pelo conflito entre católicos e protestantes, resquício das lutas de independência contra os ingleses, conflito esse que inclusive causou a destruição involuntária de muitas películas da década de 1910. Não é à toa, portanto, que essa tensão seja pano de fundo comum para as produções irlandesas.

Mas, se nem sempre a Irlanda produzia filmes, ela sempre servia de locação para diversas produções internacionais de sucesso. Foi assim com “O homem de Aran” (1934), documentário de Robert J. Flaherty, “A filha de Ryan” (1970), de David Lean, e em especial “Depois do Vendaval” (1952), de John Ford. Foi só recentemente que o cinema irlandês aprendeu a caminhar, com sucesso, com suas próprias pernas. Uma nova produção independente irlandesa, ‘The Lord’s Burning Rain”, usa tudo que já foi explorado: paisagens verdejantes, olhares para o passado, o adorável sotaque irlandês e até um pouco de mitologia.

the-quiet-man
Cena de “Depois do Vendaval”

É a Irlanda dos anos 1960. Donnachadh Diarmuid, um garoto de 16 anos, vai com o pai e os tios comprar um cavalo e, como o equino não cabe no pequeno carro da família, o garoto precisa voltar para casa montado no animal. É um longo caminho que se transforma em jornada de autodescobrimento. Ele encontra primeiro a camponesa Sarsi (Caroline Morahan), que lhe aponta uma pedra, onde estão marcados fatos das lutas revolucionárias dos anos 1920. Desvencilhando-se da mulher, que, além de um pouco profetisa, é muito safada, ele acaba parando para descansar na propriedade de um senhor idoso, George (Jonathan Ryan), que começa a relatar fatos e ideias da época dos combates.

Screen Shot 2014-06-04 at 17.50.48

Continuando sua jornada, em locais estratégicos são mostrados, em preto e branco, momentos da resistência da qual participou seu pai, membro do IRA, contra os ingleses e os Black and Tans (força de repressão da elite britância). Cada paisagem serve como testemunha dos acontecimentos. Assim o garoto passa a ver seus familiares de outro jeito.

“The Lord’s Burning Rain” é um filme feito em família. Maurice O’Callaghan escreveu o roteiro como um conto e publicou-o em 2005. Resolveu então adaptá-lo para o cinema através de sua produtora / editora independente, a Destiny Films & Puyblishing, e foi ele mesmo o diretor, com o filho de 17 anos, Harry, como protagonista, e a filha de 21, Maud, como produtora. Outro fato interessante salta aos olhos: as cenas em preto e branco são de arquivo, e foram gravadas há 25 anos, com o próprio Maurice no papel do revolucionário pai de Donnachadh. É também um filme com orçamento pequeno, daí a duração relativamente curta (80 minutos) e a presença constante da narração voiceover (também usada no curta anterior de Maurice, “A Day for the Fire”, 2011), que pôde ser feita em estúdio após a gravação das cenas. Ah, e esta narração tem um motivo a mais: ela remete à narrativa da Odisseia de Homero, o épico sobre a volta para a casa e a descoberta de si mesmo através do passado.

maurice

Este é um daqueles filmes que não vão chegar a todas as salas de cinema. Talvez você o veja em um festival em São Paulo ou Rio, em uma mostra alternativa ou no Cine Conhecimento do Canal Futura, onde sempre passam filmes com um contexto histórico por trás. Talvez até algum trecho possa ser usado em uma aula de história. Não é um filme rápido e com cenas de ação, mas também não é um filme iraniano, lento até não poder mais. Não é um filme para todos os públicos, mas que, chegando à audiência correta, encontrará uma calorosa acolhida.

Trailer de “The Lord’s Burning Rain” (2013)

 

Deixe uma resposta

Publicado por Letícia Magalhães

Letícia Magalhães é estudante universitária e tem dois livros publicados. Desde cedo mostrou interesse pela escrita, ganhado cinco vezes consecutivas o concurso de poesia de sua escola, tendo seus trabalhos publicados em antologia. É também ganhadora do concurso da Câmara Municipal de Poços de Caldas, edição 2010. Atualmente mantém o blog Crítica Retrô, sobre cinema clássico, e escreve para os sites Leia Literatura, Filmes e Games, Os Cinéfilos e Antes que Ordinárias.

Musical “De volta aos Anos Dourados” é uma grata surpresa com direito a um delicioso chá da tarde

Crítica: “Como Treinar o Seu Dragão 2” é uma versão aditivada do antecessor