Ah, o Rio… O seu deslumbre e estado de espírito há anos seduzem o cinema. Aliás, trata-se de uma cidade impressionantemente cinematográfica pelos contrastes que a personaliza. Constastes geográficos, sociais e humanos. Se o lobby para que a saga turística de Woody Allen aporte em terras (e mares) cariocas ainda não funcionou, a franquia Cities Of Love, depois de Paris (Paris, Je T’aime) e New York (New York, I Love You), chega a cidade com Rio, Eu Te Amo, reunindo diretores brasileiros e estrangeiros em pequenos curtas que representam pontos de vista abrangentes e distintos sobre a abrangência do que é ser e estar no Rio de Janeiro. Evidentemente que como todo filme coletivo, o desnível é quase obrigatório, mas o problema geral do longa está, basicamente em dois pontos: na fragilidade da pretensão de ter uma trama que perpassa todas as outras, e na visão equivocada de certos curtas, principalmente dos diretores internacionais.

O filme começa com “Dona Fulana“, de Andrucha Waddington, protagonizado por uma maravilhosa Fernanda Montenegro, como uma moradora de rua que reencontra seu neto. Poetizar seres ordinários diante de pontos turísticos da cidade rende uma espécie de ode à despretensão do viver carioca. O diretor é assertivo ao se valer do poder cênico de sua grande atriz e faz um curta banhando a afeto. Pela vida. Quer coisa mais complexa e descomplicada do que essa metáfora da cidade?

O sul coreano Im Sang-Soo, com o advento do soturno cinema feito em seu país, tem a (boa) ideia de fazer uma fantasia soturna em “O Vampiro do Rio“, entretanto, parece ter se deslumbrado demais com os clichês daqui – principalmente com as mulatas – e resultou numa trama confusa e sem nenhum impacto ao que propõe.

Pior ainda fez o australiano Stephan Elliott, com “Acho Que Estou Apaixonado”, para contar uma história de amor superficial e com um desfecho tão ridículo, quanto vergonhoso (como aprovaram isso, gente?!). Para ter uma noção, em determinado momento aparece a cantora Bebel Gilberto (mal) vestida de fada sobrevoando o Pão de Açúcar (!). Juro.

O italiano Paolo Sorrentino foi bem genérico com o pretensioso “La Fortuna“, onde o discurso poderia se passar em qualquer lugar do mundo, sem grande ligação – mesmo distanciada e estrangeira – com a cidade.

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Quando Não Há Mais Amor” é mais um exemplo de como John Turturro é equivocado por trás das câmeras. Seu filme, passado numa bem fotografada Ilha de Paquetá, acompanha o fim de um casamento entre o ele e a atriz Vanessa Paradis. Mas os diálogos são inconsistentes, assim como o intuito do diretor.

Dos “gringos”, os melhores filmes estão nas criações do mexicano Guillermos Arriaga e da libanesa Nadine Labaki. Ele, com seu cinema sempre colérico, traz a dureza cotidiana a partir de um ponto de vista imprevisível da cidade. Um belo filmete. Ela, é extremamente bem sucedida ao investir numa espécie de parábola social onde extrai do carisma de um menino de rua (e da atuação singela de Harvey Keitel) toda uma contradição entranhada na realidade das ruas cariocas.

Fernando Meirelles, um dos grandes realizadores cinematográficos do país, se vale de sua propriedade e domínio técnico para entregar um curta sensorial e um tanto completo sobre o Rio que extrai de si. Carlos Saldanha demonstra muita sensibilidade – em live action, vale dizer! – em “Pas de Deux“, sobre amor e (talvez) renúncia, aproveitando a intensidade latente de Bruna Linzmeyer.

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José Padilha, em sua aptidão para botar o dedo nas feridas de sua cidade, faz de “Inútil Paisagem” um desabafo quase uníssono da população frente a glamourização de um Rio mais penoso que maravilhoso. O roteiro até começa disperso, mas alcança o clímax mais emblemático do atual momento do Rio. E na embocadura feérica de Wagner Moura.

Vicente Amorim se propôs a fazer a ponte de ligação entre as histórias, mas a inutilidade da pretensão fica bem clara diante da banalidade do resultado final, uma vez que o artificialismo da historinha de um casal separado que se reencontra no fim, só demonstra o quão burocrático pode ser um trabalho que visa ligar percepções, onde talvez somente a multiplicidade de visões em si, já radiografaria a contento o quanto é preciso amar o Rio para talvez entendê-lo. Por isso que, no fim das contas, vale a sessão: o Rio é justamente a sua face ordinária, assim como esse retrato fílmico… Eis, Rio, Eu Te Amo.