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Sherlock Holmes: Inteligente Brutalidade

Por André Tag

Hollywood, há muito, adota a seguinte prática. Utiliza narrativas e personagens conhecidos e os transforma em blockbusters (Filmes Arrasaquarteirões). Daí, por exemplo, a profusão de tantos filmes sobre super-heróis. Isto se dá por que o espectador, em geral, para se sentir mais atraído às salas de cinema, necessita ter idéia do que seja o produto que está comprando. Para que isto ocorra com novas estórias, é necessário que se gaste muito mais com publicidade do que com a opção anterior. A despesa com divulgação destes filmes costuma ser bem maior do que a própria produção da obra. É de se estranhar, portanto, que até hoje não se tivesse feito nada neste gênero com Sherlock Holmes. Este é simplesmente, deixando o Conde Drácula em segundo, o personagem mais utilizado da História do Cinema.

Para executar a missão, convocaram para dirigir o projeto o ex – Sr. Madonna, Guy Ritchie. Já tendo dirigido filmes tais como “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”(Lock, Stock and Two Smoking Barrels; 1998), “Revólver” (Revolver,2005) e “Rocknrolla – A Grande Roubada” (Rocknrolla, 2008), todos ambientados no submundo londrino, demonstrava experiência suficiente para tratar da ambientação, embora em outro século.

Uma das cenas iniciais já demonstra o que serão os 128 minutos da película. Nela, enquanto o famoso detetive aguarda o momento de emboscar um oponente seu, planeja, passo a passo, cada pancada que dará nele para obstruí-lo. É como diz o grande sambista Nei Lopes: Todo bom partideiro traz seu improviso escrito, memorizado, ensaiado e com cola no bolso. É a forma que arrumaram para adaptar o personagem ao gênero. Brutalidade, sim, mas com inteligência.

A Literatura Policial, iniciada pelo “Divino Poe”, tinha como primeiro grande detetive Dupin, que solucionava seus casos sem sair de casa, lendo jornais, através da mera dedução. Holmes, apesar de ter que partir, de vez em quando, para as “vias de fato”, era seguidor da mesma escola acrescida pelo conhecimento científico e um superdotado senso de observação. Evidentemente, para ser retratado pelo cinema contemporâneo, deveria levar e distribuir sopapos com maior freqüência. Ponto para os engenhosos roteiristas.

Recurso de modernização também utilizado, sem a mesma felicidade, é a mudança do figurino do famoso investigador. O chapéu quadriculado some. Originalmente, Conan Doyle, criador da figura, jamais escreveu qualquer referência ao acessório que tanto ajudou-nos a manter a imagem do violinista amador da Baker Street em nossas memórias. Foi, na verdade, criação de Sidney Paget, ilustrador da revista The Strand Magazine ,onde primeiro apareceram os contos com nosso herói. O cinema adotou-o entusiasmadamente. O chapéu de caça tornara-se de detetive. Isto não seria problema se Robert Downey Jr., fosse de aparência mais longilinea. Em troca o vestiram com um pretinho básico, tal como fizeram com super-heróis a exemplo de Batman. A identidade visual do personagem, na forma em que foi popularizado, ficou imperdoavelmente invisível. Isto para não falar do cachimbo sinuoso trocado por um retilíneo. Putz…

Falando no Senhor Downey, este, ainda por cima, apresenta-nos a mais preguiçosa de suas interpretações, valendo-se apenas de seus truques de carisma. Sabe-se lá o que teria ocorrido no set de filmagem mas o mesmo se deve dizer dos atores, Jude Law, Rachel McAdams e Kelly Reilly. Desta só podemos contar com sua grande beleza. É a direção dos atores o grande ponto fraco. Mesmo os mais esforçados, os já pertencentes à panelinha do diretor, perdem piadas a ponto de quase arruinar o excelente humor de suas falas.

Ritchie só nos oferece talento no excelente ritmo e nas boas cenas de mais ação.

Para não dizer que não falei de flores, falo mais no roteiro. Além de muito bem adaptar o detetive à demanda de seus produtores e, provavelmente, seus espectadores, há uma interessantíssima alegoria aos recentes oito anos de Baby Bush no poder. Tempo, página infeliz de nossa História, em que se utilizou o medo, causado por terrorismo e mistificação, para se aumentar escandalosamente a violação de direitos civis por parte do governo americano.

Na época de Basil Rathbone, o mais celebrado defensor de Holmes, suas aventuras também eram utilizadas politicamente como propaganda antigermânica no período da Segunda Grande Guerra.

Já se anuncia uma continuação. Se mudarem o diretor poderá ser um filmaço.

7 comentaram

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  1. Gosto demais de Guy Ritchie, mas todos tem suas falhas (Frank Miller que o diga, degringolou geral), e temo que essa seja a vez que eu não vá curtir um filme dele. Podemos pensar que é de se esperar que não saia nada muito bom quando se pensa em blockbusters, mas filmes como Dark Knight até que contradizem essa máxima.

    Talvez o Holmes não seja mesmo próprio de uma visão tão vulgar quanto a que parece ter sido dada, apesar de eu gostar de outras interpretações de obras consagradas. Fica meu desejo então para que quando sair do cinema, eu ache que este seja um bom filme e uma péssima adaptação. Do contrário, direi "essa você perdeu, Ritchie".

    Ótima resenha André!

  2. Excelente conjectura. De certa forma eu meio que já esperava estas características do Ritchie para com a adaptação. Seus filmes são muito mais ação do que uma história das mais agitadas de Sherlock Holmes pede. Mesmo que tentasse fazer algo cerebral, as cenas de ação seriam sim, o ponto alto do filme.

    As mudanças no figurino que levaram a criação de uma nova identidade visual para o detetive me agradaram. Para mim, não deve ser algo a se abominar.

    O que mais me preocupa é o roteiro e a interpretação. Principalmente de Downey Jr e Jude Law. Agora, devo admitir: Fiquei um pouco com o pé atrás. Mas antes de comentar sobre o filme, devo assisti-lo… então vou esperar mais um pouco, torcendo para que a decepção não venha junto.

  3. Eu acho que vai ser legal sim.
    Acho que os filmes da trilogia do submundo londrino tbm são muito bons, além de conter um clássico no meio dela que é Snatch.
    Espero não está enganado…só pra variar!!!

  4. Gostei bastante do filme. Acho que as cenas de ação foram bem dosadas, o tom de comédia bem empregado e a interpretação do trio principal foi muito satisfatória. Tirando algumas cenas que não integram corretamente à personalidade de Holmes descrita nos livros por Doyle, a adaptação foi bem executada.

    Que venha o 2!

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