Quando foi lançado em 1979, “Alien, o oitavo passageiro” se tornou uma das mais perfeitas obras cinematográficas a misturar ficção científica espacial com suspense nas doses exatas. Tanto que Hollywood procura beber na mesma fonte criada com maestria por Ridley Scott e sua equipe desde então, com resultados bem abaixo dos obtidos pelo cineasta que depois faria outro clássico moderno com “Blade Runner – Caçador de Androides” (1982). Curiosamente, somente quando James Cameron lançou a sequência “Aliens, o Resgate” em 1986, é que houve algo que pudesse se equiparar ao filme de Scott.

A importância de “Alien” é tão grande que ele criou, praticamente, uma cartilha com todos os elementos necessários para serem seguidos para quem se aventurar em desenvolver projetos com premissas semelhantes. E isso fica mais claro do que nunca ao assistir “Vida” (Life, 2017), produção que apresenta uma bem cuidada parte técnica e um suspense bem eficiente que ajuda a manter o interesse durante boa parte de sua trama. O único porém é que, mesmo com alguns pontos positivos, o filme não consegue ser original em praticamente nenhum momento, especialmente para quem lembra muito bem como foi o primeiro confronto da tenente Ripley (Sigourney Weaver) contra um dos mais letais alienígenas que  o cinema já mostrou.

Ambientada na Estação Espacial Internacional, a trama mostra um grupo de seis astronautas de diferentes nacionalidades: o médico David Jordan (Jake Gyllenhaal), o especialista em missão Rory Adams (Ryan Reynolds), a microbióloga Miranda North (Rebecca Ferguson), o engenheiro de voo Sho Murakami (Hiroyuki Sanada) e o cientista Hugh Derry (Ariyon Bakare), todos liderados pela capitã Ekaterina Golovinka (Olga Dihovichnaya).

Durante a missão no espaço, eles descobrem uma forma de vida vinda de Marte e resolvem estudá-la dentro da nave para descobrir suas características que, acreditam, podem vir a ser benéficas para a humanidade.

Batizada de Calvin após um concurso realizado na Terra (onde as pessoas acompanham a missão via satélite), a criatura fascina os astronautas por sua composição celular e por sua evolução acelerada. O que eles não esperavam é que, à medida que vai ficando cada vez mais complexo, o alienígena passa a ser cada vez mais hostil e se tornando uma verdadeira ameaça à vida de todos os tripulantes, que precisam impedir que o extraterrestre avance em direção ao nosso planeta e seja capaz de destruir a raça humana.

O que faz com que “Vida” seja um filme capaz de prender a atenção é sua incrível parte técnica. Os efeitos especiais conseguem criar o mesmo impacto que o público teve quando “Gravidade” foi lançado há quatro anos atrás, dando a impressão que todo o elenco está mesmo num ambiente de gravidade zero. O formato de Calvin também é bem interessante, embora caia um pouco no lugar comum à medida que a história avança. O design de produção da Estação Espacial Internacional está bem convincente e verossímil.

Outro mérito do filme está na direção de Daniel Espinosa, de “Protegendo o Inimigo”, que constrói sequências de suspense com bastante tensão, que vão deixar os espectadores grudados em seus assentos, especialmente aqueles que se assustam facilmente, especialmente nos momentos em que Calvin começa a revelar sua real natureza de uma maneira bem aterrorizante.

O problema é que, tirando esses méritos, o filme não consegue tirar a sensação de déja vu, já que o roteiro escrito por Rhett Reese e Paul Wernick (a mesma dupla que roteirizou “Deadpool” e “Zumbilândia”) cria situações que são praticamente “chupadas” de “Alien” sem a menor cerimônia. Além disso, o texto vai perdendo força com o desenrolar da trama, criando momentos pouco ou nada criativos. Para piorar, há um furo (ou melhor, uma cratera) num dado momento da história (não será revelado aqui para não dar spoilers) que fica completamente inexplicável, o que pode irritar um espectador mais criterioso, deixando-o de se importar com o que acontece na trama. Outra falha grave cometida pelos roteiristas é fazer com que um dos astronautas passe a dar sinais claros de que sua inteligência é um pouco limitada por deixar a razão de lado em nome da emoção, algo que já tinha sido criticado em relação à personagem de Anne Hathaway em “Interestelar”.

No bom elenco, não há grandes destaques, embora Jake Gyllenhaal construa David de uma maneira interessante, já que seu personagem é o recordista de permanência na Estação Espacial Internacional e isso está começando a mexer com a sua cabeça. Rebecca Ferguson passa bem a disciplina de Miranda, sempre determinada a seguir regras e protocolos e convence nos momentos mais emotivos, especialmente quando a situação parece fora de controle. Ryan Reynolds, mais uma vez, usa seu bom humor para tornar Rory bem carismático, já que ele se revela mais impulsivo do que os outros astronautas. O britânico Ariyon Bakare tem o difícil trabalho de convencer como um homem da ciência que se vê diante de uma limitação motora, já que Hugh é paralítico e precisa lidar com isso em gravidade zero. Os outros atores correspondem ao esperado em seus papéis e não comprometem o resultado final.

“Vida” perdeu a oportunidade de ser uma obra de ficção científica e suspense mais marcante por causa de sua falta de personalidade. Se houvesse uma vontade de fazer algo mais original, poderia certamente ser um filme mais relevante do que acabou se tornando. Do jeito que ficou, a produção acabou se tornando apenas “mais uma” que reverencia e reforça o conceito (autêntico, diga-se de passagem) de que “Alien, o oitavo passageiro” é mesmo uma obra prima do gênero.

No fim das contas, vale como aquecimento enquanto “Alien Convenant”, sequência de “Prometheus” também dirigida por Ridley Scott, não estreia nos cinemas. Vamos ver se, desta vez, o diretor de “Gladiador” volte a entrar nos eixos e mostre como se faz uma boa mistura de ficção, terror e suspense.

Filme: “Vida” (Life)
Direção: Daniel Espinosa
Elenco: Jake Gyllenhaal, Rebecca Ferguson, Ryan Reynolds, Hiroyuki Sanada, Ariyon Bakare e Olga Dihovichnaya
Gênero: Ficção Científica, Suspense, Terror
País: EUA
Ano de produção: 2017
Distribuidora: Columbia Pictures
Duração: 1h 44min
Classificação: 14 anos