A história dos ursos panda parte de uma premissa absolutamente instigante, para dizer o mínimo: um homem e uma mulher encontram-se em um quarto fechado, como se apartados do mundo, onde acabam de acordar e há um reconhecimento (nada fácil, diga-se de passagem) a ser feito. As tentativas que estabelecem (e das quais se esquivam) de construção de uma relação cujo nome desconhecemos se apresentam, então, como um começo engasgado, emperrado, cheio de nuances e provas. Mas é também um reconhecimento de si e do lugar onde estão.

O isolamento do quarto onde a interação se dá torna a situação ainda mais singular. Parece, à primeira vista, que não há nada além deles, ou que tudo que possa haver do lado de fora desse espaço bem guardado não será determinante no que começa a acontecer ali. Eles estão afastados do mundo, cujos sinais únicos e cada vez mais distantes são ligações e recados deixados na secretária eletrônica do apartamento. Tal é a premissa de onde parte o excelente texto do dramaturgo romeno Matéi Visniec, de 1998, que cumpre temporada no SESC Copacabana, com direção de Márcio Meirelles, que já montou a peça duas vezes, uma no Brasil, outra em Portugal.

No palco, Mariana Nunes e Alexandre David (que também assina a tradução do texto de Visniec) interpretam o homem e a mulher que compõem esse casal inaugural, por assim dizer. Mariana tem êxito em compor um personagem de força, que dá o tom do jogo, colocando-se na condução dos caminhos dessa relação inesperada. Alexandre, também ótimo, encarna o DJ que topa seguir junto, um pouco obedecendo e um pouco manipulando algumas situações, promovendo rupturas e pequenos desvios nas regras do jogo.

O texto de Visniec não é um texto qualquer, e há de ter disposição poética e desapego referencial, se preciso for, para entrar nele. Essa, diga-se de passagem, é a sua maior qualidade. Nesse ponto, lembra os textos de Clarice Lispector, não por questão formal ou de conteúdo, mas pelo fato de que há muito mais a ser dito do que nosso léxico e os limites que lhes são próprios são capazes de dar conta, mote constante na escrita de Clarice. É exatamente aí que o autor da obra precisa escapar do óbvio e lançar mão de recursos linguísticos e imagéticos no intuito de se aproximar daquilo que quer dizer. É também por causa desses limites entre o que se diz e aquilo a que o dito se refere, é nessas lacunas intransponíveis entre o significante e as modulações afetivas e oníricas sobre as quais se quer falar, que o uso da arte torna-se a única saída possível, ainda que cause espanto: mais especificamente, no caso de Clarice e Visniec, são os modos específicos de linguagem do texto literário e dramatúrgico que podem promover o desprendimento de um realismo impregnado de uma literalidade por vezes cansativa. É desse realismo que o texto de Visniec é bem-sucedido em se distanciar, progressivamente.

N’A história dos Ursos Panda, o que começa parecendo um encontro fortuito, desses que acontecem aos montes, em que um homem e uma mulher acordam na mesma cama, nus, e têm de construir um caminho tortuoso de reconhecimento (Quem é mesmo você? Como viemos parar aqui? E seu nome, qual é?), vai se desdobrando em algo muito pouco corriqueiro e nada consensual. A paulatina transformação vai se dando em um crescendo, a cada encontro que passam a ter a partir deste primeiro, até o clímax – verdadeira explosão poética – ao final.

 

O casal estabelecerá nove noites para se conhecer. O combinado é que ela (mulher cujo nome ignoramos) irá visitá-lo por essas nove noites e que ele a esperará no apartamento. No enredo, aparentemente tudo se dará do jeito que ela achar melhor, na hora em que ela quiser, e ele, também aparentemente passivo, seguirá seus ditames. Mas os pequenos jogos dentro do jogo maior, os caminhos pelos quais se deve seguir, aos poucos são interpolados. Esse é um jogo que se joga junto, e é preciso que cada um deles entre nas regras e no mundo do outro, como se não pudesse ser diferente. Num momento, ela traz uma gaiola e lhe ensina sobre o que fazer com o animal que ali está; noutro, é ele que apontará os sons dos vizinhos e a interpretação de seu significado. E aí se encontra a beleza do texto, que vai se destacando de referentes concretos e óbvios, para constituir um mundo abstrato e simbólico muito particular.

A montagem acompanha o texto em sua capacidade de prender o espectador do início ao fim. O cenário espetacular de Mina Quental, em conjunto com o figurino de Flávio Souza e a trilha sonora de Alexandre Negreiros formam um conjunto de elementos a adornar e conferir concretude à singularidade poética do texto e ao seu desprendimento do que julgamos familiar. Há uma cama no centro do palco, mas concreta, dura (o oposto do que seria um conceito de cama, que remete a lugar de maciez e conforto). Essa cama mais repele do que atrai, detentora de força centrífuga. Atrás, tudo é escuro, construindo-se uma sensação de perspectiva que leva a um mergulho num fundo misterioso (em consonância com tudo o mais), no qual os personagens por vezes entram e do qual emergem, respeitando ritmos e tempos necessários para o afloramento e a transmutação da relação entre eles e da que estabelecem com seus próprios corpos.

Esse cenário, que pode iluminar e ocultar seus elementos de maneira intercalada (tanto quanto as nove noites permitem certa alternância de quem dá as regras do jogo) sublinha a sensação de estranhamento e de desprendimento de um referencial mundano. O figurino, prateado no caso da mulher, seguindo a coerência de tons entre o preto e branco, dá continuidade a esse cenário, e a direção musical, nada óbvia, fecha o conjunto, traduzindo em sonoridade os estranhamentos do que se vai desenrolando na dinâmica entre ele e ela. Há uma coesão ‘textual’ – na falta de expressão mais adequada – entre a cenografia, a iluminação (a cargo de Paulo César Medeiros), os figurinos e a trilha sonora, compondo uma atmosfera na qual o único elemento de cor, no cenário, é uma maçã vermelhíssima no centro da mesa atrás da cama, que certamente não está ali ao acaso, assim como tampouco é ao acaso o momento específico que a mulher misteriosa a devora. Não há aconchego em nenhum desses elementos, tal como um caminho que exige coragem para que possa ser percorrido: garantias não existem; contamos, então, com a fascinação.

A seguir e para concluir, risco de spoiler brando…

Numa das nove noites, num momento absolutamente genial e de beleza superlativa, a mulher misteriosa se embrenha em uma série de pedidos para que ele fale a letra A como quem sente, age ou pensa outra série de experiências diferentes, num jogo de respostas sucessivas a esses pedidos. Se ele não corresponde ou emite o A de qualquer jeito, a mulher fará uma advertência: se não me obedecer, eu paro. Ele não quer parar e vai topar suas propostas (tanto quanto ela, quando, em outro momento interessantíssimo do espetáculo, resolve entrar no jogo dele de mapear o comportamento dos vizinhos a partir dos ruídos que escapulem de suas rotinas ínfimas), evidenciando a vontade total (irrecusável) de seguir junto. Seria possível falar mais desse texto inesgotável, riquíssima dramaturgia, mas fica o convite para a descoberta também paulatina (e, sobretudo, individual) do que A história dos ursos panda tem a oferecer. O espetáculo fica em cartaz até 31 de agosto.

 

Ficha técnica:

Texto: A História dos Ursos Panda – De Matéi Visniec

Tradução: Alexandre David

Encenação: Márcio Meirelles

Atores: Mariana Nunes e Alexandre David

Direção Musical: Alexandre Negreiros

Supervisão Musical: Caíque Botkay

Iluminação: Paulo César Medeiros

Cenografia: Mina Quental / Atelier na Glória

Figurino: Flavio Souza

Programação Visual: Rico Vilarouca

Video Teaser: Ernesto Solis

Direção de Produção: Mina Quental

Produção Executiva: Flávia Menezes e Fernanda Camargo

Assistente de Direção: Felipe Koury

Assistente de Cenografia: Ellen Rambo

Cenotécnico: André Salles

Assessoria de Imprensa: Mônica Riani

Mídias Sociais: Rafael Teixeira

Idealização: Alexandre David

 

Serviço:

A História dos Ursos Panda – de Matéi Visniec. Direção: Marcio Meirelles. Elenco: Alexandre David e Mariana Nunes. Estreia nacional dia 8 de agosto, às 20h

Local: Cine Teatro do Sesc Copacabana – Temporada de 8 a 31 de agosto.

Sessões às terças, quartas e quintas, às 20h

Ingressos: R$ 6 (associado do Sesc), R$ 12 (meia), R$ 25 (inteira)

Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro – RJ

Informações: (21) 2547-0156

Bilheteria – Horário de funcionamento:

Segundas – de 9h às 16h;

Terça a Sexta – de 9h às 21h;

Sábados – de 13h às 21h;

Domingos – de 13h às 20h.

Classificação indicativa: 14 anos

Duração: 75 minutos

Lotação: 39 lugares

Gênero: Romance existencial