Sobre Ratos e Homens, de John Steinbeck, acaba de estrear no Teatro I do CCBB-RJ, trazendo a adaptação do romance homônimo para uma dramaturgia intensa, dessas de se ficar sentada na cadeira algum tempo depois que a peça termina. Dessas também que dão vontade de nada dizer após o espetáculo, para que germine sossegadamente alguma palavra e algum pensamento dizível que possa veicular em outros canais os afetos que a peça suscita.

Há um excelente trabalho de direção artística de Kiko Marques e um elenco ótimo, formado por Ricardo Monastero, que também assina a tradução, Ando Camargo, Natallia Rodrigues, Roberto Boerenstein, Cássio Inácio Bignardi, Tom Nunes, Pedro Paulo Eva e Thiago Freitas. Alguns deles conseguem, de acordo com o espaço próprio de seus personagens específicos, crescer em sua interpretação à medida que o espetáculo se desenrola, e é claro que o destaque vai para a perfeita e afinadíssima dupla de protagonistas interpretada por Ricardo e Ando.

Ando Camargo é de uma entrega admirável a Lennie, seu personagem perdido na força (literal) de seus afetos. Seu trabalho de interpretação possui uma habilidade comunicativa capaz de transmitir imediatamente o assombramento vivido por Lennie diante do mundo, diante de si e de sua capacidade destruidora de amar. E este personagem é tão emocionante quanto a capacidade de Ando de dar vida a ele. Assinalo também a interpretação de Thiago Freitas, adequadíssimo no papel, e de Tom Nunes, que é hábil em emprestar características próprias a seu personagem, que, entre outras, é isolado dos demais por ser negro.

 

O texto gira em torno de Lennie e Jorge, que pulam de trabalho em trabalho, movidos pelo sonho de conseguir, um dia, ter sua própria terra, sua própria criação de coelhos e, enfim, um mínimo de autonomia sobre a própria vida e sobre o tempo. Nada mais pertinente nas mudanças que têm se anunciado no mundo do trabalho recentemente, no país. Eles não param em nenhum emprego porque há sempre uma confusão que envolve a já mencionada força destruidora do amor de Lennie. Parece que há energia demais circulando naquele corpo, naquelas mãos, e Lennie não sabe muito bem o que fazer delas, não sabe administrar suas emoções e é capaz de, atarantado, produzir grandes estragos.

Junto com ele, há o amigo e protetor Jorge, vivido por Monastero, que se impacienta e se desgasta ao ter de, constantemente, orientar seu companheiro naquilo que deve e no que não deve fazer, o que parece inócuo na maioria das vezes. Eles estão sempre juntos, o que é uma surpresa para outros trabalhadores. Seu companheirismo é de causar perplexidade no entorno, o que parece assinalar uma cultura de individualismo crescente, em que cada um faz o seu, cada um se preocupa com o seu, sem olhar para o lado, característica que inexiste na parceria entre Jorge e Lennie. Eles pulam juntos de trabalho em trabalho porque Jorge não abandona Lennie, e Lennie é grato a Jorge, até quando não deve ser. Eles compartilham de sonhos parecidos e se alimentam desses sonhos. Lennie, tal qual uma criança que implora aos pais para que contem e recontem a mesma história sem mudar os detalhes, pede que Jorge narre, repetidas vezes, o futuro que os espera, a terra que eles terão, a criação de coelhos que será deles. A liberdade calma é o que os aguarda, assim desejam, e é isso o que os impulsiona a viver. Mas é claro que esse percurso não será fácil. E é claro que a constante na vida dessa parceria são as reiteradas frustrações.

A cenografia assinada por Marcio Vinicius é interessante, pois consegue criar estruturas que aproveitam o espaço e que permitem a movimentação dos atores, em certos momentos, por seus quartos e dormitórios, acentuando, de modo pertinente, a sensação de claustrofobia desses lugares, o espaço reduzido que a eles é destinado. Os aspectos técnicos do espetáculo são todos muito cuidadosos e adequados.

O romance, publicado em 1937, guarda afinidade com o momento atual, talvez por se passar no período da Grande Depressão, após a quebra da bolsa de Nova York, em 1929, guardadas as devidas proporções com o que acontece hoje, em termos econômicos, no mundo e, por conseguinte, no Brasil. Nesse sentido, é a amizade e o afeto o que parece unir personagens assolados por conjunturas macrossociais extremamente violentas, absolutamente impiedosas. É a amizade e o afeto que alimentam a esperança coletiva de dias melhores vindouros. É o que impulsiona Jorge e Lennie. É o que movimenta todos nós.