O espetáculo A minha primeira vez, em cartaz no Teatro Fashion Mall, tem uma boa intenção: trabalhar a dura temática da perda da virgindade, tocando no tema tabu da sexualidade. Somos brasileiros e esbanjamos sexualidade na tevê aberta às cinco da tarde, mas esse ainda é um tema difícil para nós, ainda que finjamos que não, ainda que pareçamos muito avançadinhos e bem-resolvidos. Tudo fachada.

No caso da experiência da primeira vez, digo que a temática é dura porque às vezes não é o mar de rosas que parece ser. É exatamente esse o aspecto que a peça busca trabalhar: a primeira vez pode ser muito boa, pode ser boa, pode ser neutra, ruim e muito ruim. Pode ser péssima, inclusive. Por outro lado, pode não se dar em um único momento na vivência subjetiva daquele que perde a virgindade, constituindo-se, às vezes, num processo. Também são abordados os sofrimentos pelos quais as meninas passam quando não são verdadeiramente ouvidas pelos meninos. Esse é um ponto alto do espetáculo: quando jovens rapazes tiram a virgindade das meninas que não queriam ter nenhum tipo de relação sexual com eles.

A peça, de Ken Davenport, foi dirigida por Isser Korik. Davenport comprou os direitos da página myfirsttime.com, em 2007, que trazia 40 mil depoimentos à época, transformando-os em espetáculo teatral. Korik, por sua vez, traduziu e adaptou a peça, acrescentando aos depoimentos do texto original, outros de brasileiros, colhidos no site www.aminhaprimeiravez.com.br, criado em 2012 pela produtora Conteúdo Teatral. Foram mais de mil depoimentos recebidos pelo site.

“A minha primeira vez” poderia ser ótima, se não fossem três problemas, que considero significativos: o primeiro é a extensão do texto. Não são necessários 90 minutos para abordar as histórias e desdobramentos narrados nos pequenos trechos entrecruzados. Ao final, fica cansativo porque não há mais novidade. É uma grande repetição de tudo o que já foi apresentado anteriormente. A peça ficaria muito melhor se fosse enxugada e tivesse 60 minutos, talvez.

O segundo ponto que considero problemático (e talvez o mais problemático dos três que enumero aqui) é o fato de os atores escolhidos, principalmente as meninas, serem absolutamente lindos, de corpo, rosto e cabelo. É ótimo que sejam lindas na vida real, mas na peça esse é um ponto fraco. Se a ideia do texto é atingir o público mais jovem, (mas mesmo que o objetivo fosse atingir o público mais adulto), dificuldades referentes à autoestima são relevantes em relação à vergonha do corpo, à obesidade, à magreza excessiva, às espinhas, à moda, ao cabelo, às etnias diferentes e às diferentes classes sociais. Se fosse para incluir depoimentos e vivências que tocassem nas discrepâncias de relacionamentos sexuais e perda da virgindade entre pessoas de classes sociais e/ou etnias diferentes, abordando o racismo bem próprio da cultura brasileira, ou para incluir a perda da virgindade de um rapaz mais gordinho etc, aí talvez os 90 minutos valessem mais a pena.

Se o espetáculo pode ser um ótimo recurso para identificação do público e dos adolescentes normais, que não frequentam academia, que não vivem na zona sul e não têm dinheiro para as melhores roupas e penteados e cremes, que seriam lindos se possuíssem as mesmas condições financeiras daqueles que estão no palco, por que não aproveitar atores adequados a isso ou caracterizá-los como tal? O que não significaria cair em uma caricatura grotesca. Cabe a pergunta aqui: a ideia é explorar a sensualidade das atrizes novatas, repetindo o mais do mesmo global, ou seria (o que julgo muitíssimo mais interessante) ampliar a discussão, de modo artístico, sobre a primeira vez?

E o terceiro ponto é que “A minha primeira vez” é anunciada como adulta, o que está longe de ser. Ou, então, não há nenhum aviso de que se trata de uma peça juvenil, talvez escolar, no que se refere ao tema, à dramaturgia e aos atores. O horário é às 23h e poderia ser mais cedo. Será que adultos desavisados irão assistir à peça achando que se trata de temática adulta e toparão com esse grande engano?

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