Nem tudo pode se ver” (independente) é o quarto álbum do Picassos Falsos, formado por Humberto Effe (voz), Gustavo Corsi (guitarra) e Romanholli (baixo). Ao todo, a bolacha reúne dez faixas – nove inéditas e a regravação de “Pavão Mysteriozo”, clássico de Ednardo, de 1974.

Produzido por Jr. Tostoi (que toca guitarra e baixo em algumas faixas), o álbum foi gravado entre dezembro de 2015 e novembro de 2016 no Lab Tostoi – Ministereo Estúdio, no Rio de Janeiro. A banda está de volta após “Novo Mundo” (2004), com uma coleção de canções que passeia por diversas veredas da música brasileira. Esse novo disco inclui outra parceria de Humberto com Sta. Cecília. O funk Vou à Vila foi escrito depois de uma visita à Vila Mimosa, onde a dupla de compositores assistiu a um show de Mr.Catra. Os teclados ficaram a cargo de Humberto Barros, que também gravou em Misturando (Humberto Effe e Alvin L.) e Indômita. A Revista Ambrosia bateu um papo com o trio. Confira abaixo.

Ambrosia: O som de vocês cruza uma série de gêneros brasileiros – do samba ao rock, passando pelo soul e pelo funk. Como foi criar a célula identitária Picassos na música que produzem desde que formaram a banda?

ROMANHOLLI: Foi, essencialmente, intuitivo e natural. Todos os integrantes da banda, desde a primeira formação, escutavam ritmos anglo-americanos como rock, soul, funk e jazz e música brasileira na mesma proporção. A nossa geração, nascida em meados da década de 60 do ano passado, teve a sorte de crescer numa época em que Elton John, Milton Nascimento, Michael Jackson e Martinho da Vila tocavam no rádio e apareciam na TV. Tanto, que, antes de nós, artistas como Mutantes, Novos Baianos, a turma do Clube da Esquina, Baby, Pepeu,  A Cor do Som, Sérgio Sampaio, Tim Maia (a lista é gigantesca) já uniam os hemisférios norte e sul no seu som. Picassos Falsos é uma banda de música brasileira. Não é uma banda de rock cantado em português. Isso sempre fluiu no nosso som com naturalidade.

A: A prosa e o verso de vocês é muito bem fraseado na canção. A métrica parece que se encaixa com perfeição na melodia. Como é este trabalho de alinhar a letra na base melódica?

HUMBERTO EFFE: Geralmente faço a melodia antes da letra. Como se fossem duas etapas. Muitas vezes, fico durante um tempo, com várias melodias prontas sem letra, algumas vezes com a musica já quase pronta, mas sem a letra. Preciso ter uma ideia. Uma cena que aquela canção me remeta ou uma situação que para mim seja extremamente necessário falar, colocar na frente, dar a cara a tapa ou ao carinho. Quando chega essa ideia fica rápido e estou sempre adaptando a ideia à melodia, nem que tenha que tocar em outro assunto, para não perder a melodia e depois voltar a ideia inicial. Outras vezes, como foi em “Vou à Vila”, desse nosso último disco, a melodia e letra chegam ao mesmo tempo. O refrão de “Vou à Vila” veio de uma só vez, com tudo pronto, letra e melodia como se fosse um auto-download  mesmo. Depois pedi para o Mauro Sta Cecília fazer a estrofe B e começamos a desenvolver o resto da letra juntos. É assim, não há regra, nem um método muito rígido. Em “Nem tudo pode se ver”, por exemplo, também desse nosso ultimo trabalho, levei um tema que havíamos desenvolvido em um ensaio e na mesma noite, fiz a melodia e quase toda a letra, já que era um tema que gostaria muito de falar. E como queria falar, resolvi rappear a melodia e jogar, a prisão que a melodia convencional daria ao texto, pra bem longe. O fato é que não há regra.

A: Vocês regravaram o clássico Pavão misterioso. Como foi fazer essa releitura?

ROMANHOLLI: A ideia foi do Humberto Effe. E foi um golaço. Considero Ednardo um gênio. Aliás, é mais um que pode entrar na lista rock + música brasileira da outra pergunta. Sou fã de Ednardo desde que meu irmão, Leonardo, seis anos mais velho do que eu, me apresentou ao cantor. Por isso, para mim, ter gravado e tocar essa canção ao vivo, tem uma carga emocional grande, porque Leonardo faleceu em 2013 e sempre penso nele quando atacamos a música. “Pavão” é um clássico. E é tão poderosa, que, mesmo tendo sido tema de abertura de novela, “Saramandaia”, não ficou batida, gasta. E a letra serve bem aos tempos de trevas que vivemos hoje no Brasil. O que só comprova a atemporalidade da obra do Ednardo. No fim das contas é isso: eles são muitos, mas não podem voar. A gente pode.

A: A balada “Um pouco mais perto” tem uma linha melódica muito bonita. Como fluiu na hora do arranjo? E como foi pensada a poética da letra dentro da melodia?

EFFE: “Um pouco mais perto” inicialmente não era uma balada. Eu nunca fui satisfeito com a versão original dela. Tinha feito essa música há alguns anos, foi daquelas músicas que tirei da gaveta, soprei a poeira e disse: “Tenho que dar um jeito nisso aqui”. Sempre gostei da música,  porque faz parte de um tema que gosto de falar ou de brincar. Brincar em dizer que a natureza é imperfeita e por isso vivemos nos defendendo dela. Mas que essa história de amor, paixão, fé e qualquer coisa mais transcendente é que nos da uma noção de perfeição ao redor. A natureza é por si perfeita, mas posso achar, que poderia ser, em alguns momentos, um pouco melhor. Porque não relativizar até a natureza. Enfim,  “Um pouco mais perto” também foi feita pensando em carta de amor, com uma certa perversãozinha. Com um quê de cantada. Como aquelas canções fantásticas do Roberto Carlos.

Gosto muito dela e do formato de arranjo que ficou neste nosso último disco,  esse arranjo foi idealizado pelo Gustavo Corsi.

Reapresentei a música à banda, como uma balada, daquelas bem arrastadinhas, violões, bateria e baixo, clima anos 1970. Porém, neste disco, é ótima a formação etérea do arranjo, com ruídos, sem um ritmo preponderante e segurando a melodia, aquela situação espacial, sempre em queda livre ou flutuante. A canção passou a ter uma cena, passou a ter uma imagem refletida. Como se a natureza falada, não fosse somente a natureza que a Terra nos da in natura, mas aquela natureza que o homem construiu com suas mãos, essa natureza que nos rodeia. Com seus sons e texturas. No disco sempre digo que ficou uma canção de amor Blade Runner, uma canção de amor entre Replicantes.

Porém volto a dizer, mais que tudo, “Um pouco mais perto”, é  uma cantada, não mais que a possibilidade de ser um boa cantada. Aquela que eu jamais resistiria.

A: As participações da Duda Brack e Fernanda Takai deram uma bela harmonia e visceralidade às faixas que participam. Como foram estas participações?

GUSTAVO CORSI: Somos fãs das duas meninas. Conhecemos e admiramos o trabalho da Fernanda Takai solo e no Pato Fu. ‘Nunca Fui a Paris’ havia sido gravada e lançada como single pela Som Livre em 2015. Ao prepararmos a canção para entrar no novo disco, pensamos na possibilidade de ter uma voz feminina que complementasse a voz anteriormente gravada pelo Humberto. Lembramos diretamente da Fernanda, que logo aceitou o convite.

Nosso produtor, Jr Tostoi, mandou a faixa para ela que gravou em seu próprio estúdio caseiro. A ideia era que ela fizesse uma voz principal que dividiria com o a do Humberto. Para nossa surpresa, porém, ela também  gravou e nos mandou vários vocais harmonizados. Deixou como opção para serem usados ou não. Só que eles eram lindos e muito bem montados. Ficaram todos na faixa.

Conheci a Duda uns meses antes dela lançar seu disco. Fiquei arrebatado por sua presença de palco, pelo som da banda e principalmente por aquela voz sobrenatural! O Tostoi também já tinha trabalhado com ela e juntos pensamos numa participação em “O que fiz foi gostar”. Ela é muito disciplinada, chegou no estúdio com tudo muito pronto e a gravação foi deliciosa. A cada passagem ela ia sutilmente dando seu jeito de ficar mais bonito. Criou belos vocalises e riffs. Duda é uma cantora fantástica. Tem um timbre lindo e uma interpretação muito vigorosa. Adoramos o resultado.

A: Como está o trabalho de divulgação? Como estão os shows? O que vai rolar de repertório neles?

CORSI: Está sendo muito bem feito. Somos uma banda muito bem tratada pela imprensa, em geral. Sempre houve muito respeito e consideração por nós. Agora mesmo tivemos belas matérias nos principais jornais do Rio, muitos sites e blogs nos deram um ótimo espaço. Fizemos alguns programas de rádio também.

Fizemos um ótimo show na Casa Levi’s Rio – a poucos dias lançamos o CD no Teatro Rival que oferece uma rara estrutura de som e luz que nos permitiu fazer um show maravilhoso. Ainda estamos no início dos trabalhos, mas já temos alguns shows marcados no Rio e um em BH no início de agosto. Em pouco tempo, esperamos estar em São Paulo e depois viajar pelo Brasil mostrando o “Nem Tudo Pode Se Ver”.

O repertório contêm canções de nossos quatro CDs. Estamos há um bom tempo sem ir para a estrada, precisamos condensar a história da banda num show que agrade aos que já nos seguem há tempos e também apresentar o Picassos Falsos àqueles que ainda não nos conhecem ou que vão nos ver por conta deste último trabalho.

Há canções que não eram tocadas há muito tempo como “Bonnie e Clyde” do primeiro disco de 87. “Rua do Desequilíbrio” também volta para o show depois de um bom tempo. Quadrinhos, Carne e Osso, O Homem, Supercarioca e Bolero estão no show. São os nossos “clássicos”. Sempre adoramos tocar músicas de nossos ídolos e preparamos algumas surpresas que entram e saem dependendo do show e da ocasião.

O nosso show continua bastante vigoroso mas está, musicalmente falando, num estágio em que jamais esteve. O cuidado com a performance, com os arranjos e com a construção do espetáculo é uma prioridade atual. Nossos fãs e amigos já perceberam isso nos shows que fizemos até aqui. Agora é cair na estrada de novo!