Luciana Saddi é psicanalista e escritora. Nasceu (1962) e mora em São Paulo. Autora dos livros: O amor leva a um liquidificador (ed. Casa do Psicólogo), Perpétuo Socorro (ed. Jaboticaba), Alcoolismo – coleção o que fazer? (ed. Blucher) e Educação para a morte (ed.Patuá). Membro efetivo e docente da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica – PUC/SP, publicou artigos em revistas e livros especializados. A Revista Ambrosia conversou com  escritora. Confira a entrevista abaixo.

Ambrosia: Como você ao escrever contos sobre a morte achou este tom afetuoso de escrita que nunca se dá pela amargura e sim pela ternura?

Luciana Saddi: Boa pergunta! Você é um leitor muito atento. Eu não tinha percebido o tom de ternura atravessando todo o livro, não de forma acentuada, mas, revendo Educação para a morte, reconheço a ternura bem-humorada – um pouco absurda, um pouco irônica – a perpassar os contos.

Acredito que a voz infantil do narrador sustente essa qualidade de afeto. Já a voz adulta, que se mistura à terna voz infantil, inclui a dor e o olhar crítico. Compaixão com pitadas de misericórdia é um bom remédio para viver, afinal, a morte não pode matar tudo, não pode matar o amor, não vamos deixá-la ganhar até nisso!

A: A afetividade e amor sem exigências são companheiros de viagem do leitor durante o percurso. Queria que você falasse deste amor aos bichos, e também do amor que não é sacrifício, pelo contrário é guardado quando falta no lado esquerdo do peito.

Luciana: Novamente você apreende outra característica geral do livro. O olhar infantil para o mundo, o amor desmesurado da criança e o amor pelos animais estão na mesma categoria – fazem parte de um conjunto de afinidades – não há julgamento moral. O amor dá risada. O rancor condena!

É fácil amar animais, eles podem ser possuídos por inteiro, coitados, essa forma ingênua de amar é pura destruição. Quanto mais altruísta for o amor, mais maligno se torna.

Sou psicanalista além de escritora, não confio em sacrifícios. As atitudes mágicas ligadas ao sacrifício expõem apenas loucura e egoísmo, nunca contém, de verdade, uma consideração e um cuidado com o outro. O sacrifício é um tipo de prazer masturbatório inútil. Medir o amor pela régua do sacrifício é insultar o amor. Medir o amor pela possibilidade de perda que ele gera é mesquinho.

Além do mais, amor não é apenas sofrimento, amor é encontro, é sexo, é amizade, é alivio para solidão e, acima de tudo, antidoto contra a morte em vida. Há o sofrimento da perda do amado, sem dúvida! Enorme sofrimento. Elaborar o luto de qualquer perda dá muito trabalho e nem sempre resulta em sucesso ou em novos amores. Muitas vezes ficamos presos, morremos junto, nos matamos em vida, não conseguimos nos ligar em novos amores. Mas o amor não pode ser reduzido a esse componente, infelizmente, não deveria ser sinônimo de dor de cotovelo, fossa. Agora, amar quem não te ama é apego ao sofrimento inútil, é amor platônico infantil em versão masoquista. Escrever é amar.

A: Diga-me quais? livros você nutre interesse ou pretende ler ou já leu do catálogo da sua editora?

Luciana: A Editora Patuá tem feito um trabalho brilhante ao publicar literatura brasileira de qualidade. Dar voz e visibilidade a autores que estão fora do tradicional mercado editorial têm dignidade ímpar. Ao seu redor criam-se leitores qualificados, resenhistas e críticos, não apenas bons e premiados livros. Penso que é um movimento semelhante ao das artes plásticas nos anos 80/90, quando as galerias de arte começaram a se fortalecer e a e expandir o mercado em torno da arte brasileira. O mesmo movimento observei e participei na psicanálise brasileira, tivemos um salto qualitativo e quantitativo a partir do aumento do número de revistas e de critérios para publicação.

Considerando o pensamento imediatista e de mercado, livros podem não ter o mesmo valor que obras de arte, mas se não formos imediatistas, a linguagem e o poder de narrar são aspectos de imenso valor para um país, para um grupo e para a humanidade. É patrimônio indispensável, não é à toa que estudamos literatura na escola, a literatura faz o inventário do próprio tempo, é instrumento de conhecimento precioso, propicia conversas, garante o diálogo com o sofrimento, com a experiência, com o mundo sensível e faz transcender. A transcendência é fundamental para a vida humana, é a substância da poesia.

O catálogo da Patuá é muito interessante, basta clicar no site e ver muitos autores produzido literatura de grande qualidade e inovadora. Contos, romances, poesias, experiências com a linguagem, ousadias geniais. Pretendo ler muitos dos livros da Patuá. Adorei o título de um livro que já vou comprar, Amorte chama Semhhora, poemas de Jr Bellé, a capa é sensacional, há muito capricho nos livros da Patuá. Mas vou começar pelo seu, Lacan por Câmeras Cinematográficas da editora oito e meio, vi que seus poemas merecem meu tempo.

 

 

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Fernando Andrade
Escritor e poeta, e jornalista, tem dois livros de poemas, Lacan por Câmeras Cinematográficas, e Poemometria lançados pela editora Oito e meio. Participa do coletivo de Arte, Caneta lente e pincel, com contos e poemas. também participa do Trema Literatura, coletivo de textos de ficção. tem entre seus escritores mais amados, Thomas Pynchon, Ìtalo Calvino, e no cinema ama demais Krzysztof Kieslowski.