O filme alemão de animação “Automatic Fitness”, uma crítica à industrialização do tempo e ao capitalismo, dirigido pelos argentinos Alejandra Tomei e Alberto Couceiro,  recebeu a Menção Honrosa em sua participação na 19ª Edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA), que se encerrou domingo na Cidade de Goiás. “Automatic Fitness” fala, ainda, do sufocamento provocado pela loucura cotidiana e pelos automatismos em que somos forçados a viver, trabalhar, respirar, pensar e existir.  Convidado especial do evento, o diretor Alberto Couceiro conversou com a Revista Ambrosia. Confira abaixo.

Ambrosia: Qual foi a motivação para fazer o filme?

Alberto Couceiro: A motivação são coisas vividas num sistema de rendimento. A ideia  do filme é fazer a descrição de uma máquina onde o ser humano se vê como parte, como uma engrenagem a mais. Não tem uma importância real. Uma espécie de maquina trituradora de carne imensa, uma máquina que não para, que sempre pede mais e que não pensa. De alguma maneira, funciona todo automaticamente sem se perguntar por que, mas a máquina sempre quer mais velocidade, mais rendimento e as pessoas estão ali metidas, um pouco inspirado no filme “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin.

Eu adoro Charles Chaplin. Uma das maiores figuras do cinema. Tudo o que fez é impressionante  Nosso filme é a descrição de uma máquina que não é moderna por que em todo o filme tem um estética um pouco anciã, velha, um mecanismo que anda um pouco mal. Tudo funciona pesadamente com essa ideia do crescimento permanente., o que é impossível por que nada cresce indeterminadamente. Essa é a ideia de querer sempre mais e mais e mais é o que gera o stress de nossa época. É algo contraditório em si mesmo. Ninguém se reconhece. Todo o tempo estamos apressados e nunca temos tempo de pensar no que estamos fazendo, sempre reagindo aos estímulos, como um controle remoto, sem possibilidade de ação.

Quando as pessoas conseguem encontrar a si mesmas naturalmente há um choque por que começa a se questionar como sair disso. A ideia do filme é bastante pessimista mas tem humor. Isso é o que eu gosto em Charles Chaplin, de falar coisas sérias e complexas com humor.  Tempo é dinheiro. Liberdade custa caro. E ninguém faz o que quer nesse mundo. O fato de poder decidir algo é quase impossível. De alguma maneira estamos presos a este sistema.

A: Vocês pensaram em um público especifico para fazer o filme?

Alberto: Não pensamos muito em que público. Pensamos na estética, na história e em como contar sobre esse mecanismo. Na edição trabalhamos muito.  Foi um processo muito demorado. Mas fiquei muito feliz das crianças que assistiram ao filme em Goiás terem recebido com tanto entusiasmo e emoção. Me parece que estamos falando de algo com que as pessoas se sentem identificadas.

A: É uma ironia que demoraram tanto tempo pra fazer o filme?

Alberto: Muito grande por que não é óbvio. Sobretudo que as pessoas que patrocinaram não tem ideia desses prazos. Aconteceram muitas discussões. Tivemos que ganhar o nosso espaço. Nada foi grátis. Para as pessoas, não interessa a realização ou o produto final, mas sim o protocolar. Tempo é dinheiro. Liberdade custa caro. E ninguém faz o que quer nesse mundo. O fato de poder decidir algo é quase impossível. De alguma maneira estamos presos a este sistema. Em um dado momento, eu me sentia como um dos personagens do filme. Mas não foi nada fácil.

A: Qual o compromisso da humanidade em relação à questão do tempo?

Alberto: Em relação ao tempo, me parece que o tempo é algo vital. Tempo e espaço são as duas bases da existência. Sem isso não se pode fazer nada. Se você não tem tempo, está condenado à morte. Quando alguém te diz que não tem tempo, pergunte: “Não tem tempo para quê”? As coisas precisam ser curtas e com muito êxito. Essa ideia de que tudo que ser perfeito é vazia por que nada é assim. Isso causa muito stress. Você tem que estudar, ter o melhor posto, ganhar muito dinheiro, etc.

A: Isso é mente coletiva, uma programação da sociedade não?

Alberto: Sim, mas está mudando. Existe toda uma nova geração que não vê na competição a necessidade de triunfar. O que tem o capitalismo de positivo é que cada um quer fazer o melhor e todos ganham. Outra coisa é que e nosso mundo a sua felicidade é o sofrimento dos outros. Há lugar para todos. A ideia é de existir um exitoso multimilionário quer dizer que existe muita gente morrendo de fome. É uma matemática muito simples de compreender. O fato de querer ser melhor precisa ser algo pessoal e não em comparação com os outros.

A: Tiveram patrocínio?

Alberto: Sim, muita ajuda. Nosso orçamento foi para valores médios de curtas-metragens, mas foi bastante dinheiro. Cerca de 150 mil euros, o que teoricamente é muito dinheiro, mas dividido pelo tempo tão extenso que filmamos acaba que não foi tanto. No início, ganhamos 50 mil euros do governo alemão, de Berlim e de Bremen, e do Fundo Nacional de Alemanha e de patrocínios privados, como a Kodak por que começamos a filmar com câmera analógica em 2008 e depois passamos para câmera digital.