Franck Santos é um brasileiro-nordestino-maranhense do interior. Morou em Sampa,  e reside há mais de três décadas na ilha de São Luis. Bancário licenciado em Geografia (um professor com alto grau de miopia), publicou Fogo Fátuo ( Independente) Quando o azul não desbotava (Penalux), ambos de prosa poética, Poemas para dias de chuva (Patuá) e agora Do lado de cá do Atlântico, seu primeiro romance (Penalux). Abaixo, nossa conversa com o autor.

Ambrosia: O afeto no seu romance é algo tão buscado pela personagem narradora quanto uma necessidade de deslocar-se pelo espaço/mundo. A gente precisa sair do porto seguro, da nossa raiz etimológica para singrar outros mares e sermos o outro (a), neste espaço de alteridade que é de outras referências geográfico-culturais também?

Franck Santos: Há pessoas que nascem com essa busca espacial e afetiva, talvez seja assim com a personagem narradora. Às vezes encontramos esse porto seguro nos dois sentidos, às vezes essa busca seja preenchida apenas por lugares ou por pessoas. No caso da personagem acho que ela não encontrou.  Talvez ela (a outra personagem) seja mais desbravadora do que a narradora: fotografando, não ficando muito tempo num mesmo lugar, talvez por isso ela questione que não suporta mais sofrer por amor.

  • Sua escrita é muito musical, você mantém uma coloquialidade fluída, que é tão gostosa para quem é seu leitor, o ritmo de leitura é  um deleite para quem te lê. Como surgiu em você esta concepção de escrita que acho que é muito – vivencial – sua. Contradiga-me se eu tiver errado. Como sua vida te afeta na sua escrita?

FS: Obrigado por dizer que minha escrita seja musical, fluída, e assim deduzo que seja fácil ser lido. Nunca quis usar um estilo, mas tiveram escritores, claro, que me influenciaram na sua forma do dizer, do contar, como Caio Fernando Abreu.

Escrever é algo orgânico e, sem perceber, trazemos para nossas escritas as vivências. As leituras, os filmes, as músicas. Gosto muito do urbano e do que está implícito: solidão, desamor, buscas, esperas, desencontros e por que não os encontros. O livro em si, por exemplo, não tem nada de autobiográfico, nem conheço pessoas que viveram as experiências dos personagens.

  • A saudade é um tema muito entranhado na trama. Ela dá ao romance um aspecto poético e melodioso somando ao seu jeito de escrever. O perfil que você dá ao personagem existe algum tipo de sentimento de exílio nele, pois apesar da língua ser a portuguesa, a cultura é outra (europeia).

FS: Sou um saudosista, como a mãe da personagem narradora quando comenta os cantores. Sinto saudades do que vivi e do que não vivi. Por isso acho que mesmo sem o deslocamento geográfico há aquele dia que vamos nos pegar no nosso exílio interior e buscar nas memórias as saudades que todos temos.

  • A imagem do Atlântico como espaço de travessia e distância é tão bem utilizada por você. Como trabalhou esta imagem do oceano para sua narrativa?

FS: Como geógrafo, interesso-me muito por outros continentes, outros países, outras distâncias; como me interesso pelo que acontece na minha rua, no bairro, na cidade, no país. O ‘Do lado de cá do Atlântico’ foi escrito com leveza, mesmo o livro falando de encontros e desencontros. Mas em nenhum momento criei o perfil dos personagens, que eles estariam lá e cá. Mas gosto de pensar que essas travessias e distâncias podem ser rompidas, mesmo que existam Oceanos a nos separar. Que hoje somos uma aldeia global.