Entrevista com o escritor Tiago Feijó

Tiago Feijó é autor do livro de contos “Insolitudes” (7letras, 2015). Tem textos publicados em diversas revistas e blogs de literatura. Nascido em Fortaleza, mudou-se para o interior de São Paulo ainda menino. Formou-se em Letras Clássicas pela Unesp Venceu o Prêmio Ideal Clube de Literatura 2014. Confira abaixo a entrevista que o escritor concedeu à Revista Ambrosia.

Ambrosia: Há uma questão muito interessante no seu livro de contos “Insolitudes” que está matizada por outros temas, mas que eu achei relevante tocar, que é a questão do duplo. Tanto no conto ‘Josés’, nele nitidamente mais claro, quanto nos outros, há uma questão de como na literatura o duplo pode servir como tema, mas também se envolver na forma, de maneira mais sutil, vida e morte, autoria e obra, há um elemento constitutivo do fazer literário, como você instrumentaliza tal procedimento? que está nitidamente enquadrado no papel do duplo, autor – leitor.

Tiago Feijó: O duplo é um tema caríssimo à história da literatura universal; penso eu que existiu desde sempre e seguirá existindo, afinal ele é quase uma espécie de base onde se assentam todos os outros possíveis temas. Homero já o praticava a exaustão em seus dois poemas épicos, veja que o drama de Aquiles nada mais é do que a luta entre o duplo: modéstia e desmedida. No meu caso, é justo que eu confesse que o duplo permeia por completo quase todas as histórias, e em algumas ele chega a assumir um papel principal, erguendo-se mesmo como tema.

Em “A insólita morte de Ernesto Nestor”, o que pretendi compor foi um embate entre autor e personagem, dois homens e duas entidades tão antagônicas quanto colaborativas, como se o autor se mirasse num espelho e visse não o seu reflexo, mas o reflexo às avessas de seu personagem. Buscando camadas mais fundas de significado, poderíamos ver também nesse embate o eterno confronto entre criador e criatura, Deus e homem, enfim, outros duplos. E isso aconteceu – como também nos outros contos – de modo instintivo, dedutivo, sem a menor intenção clara de construir estes duplos.

  • Teu livro requer uma participação lúdica do leitor, ele é parte de um jogo referente à literatura nos dois contos que falam de autoria e leituras, mas nos outros contos existe uma lente que você dá ao leitor, num exercício de leitura não compassivo, mas participativo, tua narrativa nunca se fecha ideologicamente, o espaço é sempre altero. Como você enxerga este espaço que você dá ao leitor co-participativo, e queria perguntar o que podemos fazer pelas livrarias? Este outro espaço co-participativo.

TF: Primeiramente, brincar com a literatura, brincar com a história da literatura, à la Borges, é sempre algo que me atrai muito, poderosamente. Penso que um dos pilares da minha escrita seja este: revirar e reviver as literaturas de tantos outros como eu. Por isso tantas referências, tantas intertextualidades, tanta metalinguagem. Sempre que me aproximo de um tema penso em como vou fazer para construir uma ponte em direção a outro autor. Daí a questão do meu leitor, para maior proveito das histórias e sob pena de perdê-las, ter que ser um leitor cheio de bagagem literária, modéstia à parte. Só com esta bagagem (e com outras também) é que um leitor poderá tomar as rédeas desses contos e participar ativamente deles. Do contrário, serão meras janelas e não estradas. Quanto à questão das livrarias, não faço ideia do que podemos fazer por elas, a questão exigi um conhecimento que não tenho, só sei que é preciso fazer alguma coisa para transformá-las em algo que ainda não são. Neste sentido é que me pergunto, e pergunto a quem quiser refletir, o que as livrarias podem fazer por nós, autores, e por nossos livros?

  • Você maneja perfeitamente bem a voz de acordo com o conto a escrever, são vários temas bem diferenciados, e todos têm uma voz nítida que molda muito bem personagem e enredo. Como você foi vendo estas vozes, estes tons de escrita no decorrer do livro?

TF: É preciso esclarecer que antes do livro nasceram os contos, individuais e solitários, só depois de escritos os contos é que resolvi amarrá-los sob o signo do insólito. É preciso esclarecer isso porque muitos livros de contos nascem de maneira inversa, os contos sendo escritos para aquele determinado livro. Dito isso, vamos para a questão das vozes. Antes de mais, gostei bastante da pergunta porque toca num ponto que me parece fundamental para a concepção de uma narrativa: a voz, ou seja, o narrador.

Dos cinco elementos primeiros da narrativa, a saber: personagem, enredo, narrador, tempo e espaço, o narrador me parece o mais importante e o essencial para o sucesso de uma história bem contada. E, apesar de comumente apresentado como limitado, o tipo de narrador possui inúmeras variações, inimagináveis inclusive. Veja: no primeiro conto me utilizo de um narrador em 1ª pessoa do plural, isso mesmo, o nós, que uma amiga chamou muito acertadamente de narrador-plateia, porque soa como se a história fosse narrada por uma plateia que tudo vê, ou então, pode soar também como se narrador e leitor dessem as mãos para contarem juntos a história.

No segundo conto me utilizo do tradicional narrador onisciente, só que ali ele está próximo dos personagens e seu tom é repleto de ironia e permissões. Depois, num outro conto, quis fazer uso da voz feminina, e a história é contada então em 1ª pessoa, por meio de uma mãe que perde seu filho, voz embargada, carregada, pura emoção, não há outro narrador possível para essa história senão a própria mãe cheia de dor.

Por fim, para não ser prolixo, no último conto do livro tento escrever uma história “sem narrador” (será possível?), e ela se constrói por meio do fluxo de consciência de Ana, uma criança, e os diálogos entrecortados das tias que conversam ao lado dela. Na verdade, faço uso de um artifício vão, visto que apenas escondo, ou tento esconder, o narrador, que é a própria Ana e seu fluxo de consciência. Tudo isso para exemplificar a variedade de narradores e como cada história exigi, veja exigi, o seu narrador fundamental. Encontrar esse narrador, penso, é a primeira e mais difícil tarefa de um autor.

  • A vida é tão marcada por obediências, por demarcações, fronteiras, a literatura chega e abre estas lindas lacunas, desvãos, fendas. O “Insolitudes” é uma forma de abri-las? de deixar a via única como uma outra via de mão dupla, como é autor e leitor, vida e obra.

TF: O “Insolitudes” é uma forma de abri-las, sim, sem dúvida, todo livro é uma porta que se abre para o insondável, para o inacessível. Daí é que vem o fascínio pela literatura, o seu grande mistério e deleite, o inacessível. Muitos outros autores já tergiversaram acerca disso, é lugar comum, mas não me canso de dizer e redizer a mim mesmo, quando escrevo ou quando leio: Onde quero chegar com isso? O que estou fazendo diante destas palavras? E a resposta: Estou trilhando um outro caminho, estou vivendo uma outra vida apenas acessível por meio destas palavras, e a única trilha para se chegar lá é através deste livro. Talvez seja isto, talvez não.