Nascido em São Paulo em 1984, Vitoru Kinjo começou cantando música japonesa na infância. Iniciado no piano aos sete anos, foi influenciado pela música brasileira, norte-americana e europeia da vitrola de seu pai e pelo universo  pop da década de 90. Na juventude, estudou violão, piano e canto, compôs suas primeiras canções, morou fora e apresentou-se em festivais e encontros culturais. Bacharel em Ciências Sociais pela PUC-SP e em Economia pela USP, é mestre em Sociologia e doutor em Ciências Sociais pela UNICAMP, onde defendeu a tese “Cantos da Memória Diaspórica”. Vitoru está lançando seu álbum “Kinjo”, e deu uma entrevista à Revista Ambrosia. Confira abaixo.

1) – Sua música tem um espectro muito legal, que não encontro dentro da MPB, talvez porque ressignifique muitas vozes já ouvidas como Milton Nascimento no Clube da esquina, ouvi ecos de Bethania num início de uma canção (o Fraseado). Acho muito interessante esta forma sua de compor como um lindo mosaico de temas, mas ao mesmo tempo com uma estrutura melódica  tão singular. Como você chegou a este resultado?

Acredito que todos nós somos portadores do canto como modo de expressão, reflexão, comunicação. Assim como podemos escrever, dançar, pintar, podemos cantar, ainda que muitos de nós não nos arrisquemos nesse incrível fazer. Acho que o trabalho do cantor é encontrar sua voz, seu próprio canto, um modo de estar, de existir. É uma abordagem que engaja todo o corpo, nossa memória/experiência/devir, o contato consigo próprio e com o “outro”. É uma busca que traz à música nossa ancestralidade, nossa singularidade no mundo na (re)invenção da cultura. Ancestralidade tão única e tão comum ao mesmo tempo. Fico feliz de você citar o nome do Milton e da Bethânia, porque são dois cantores que amo. E amo porque seus cantos são encantamentos, poesia, ações no mundo.

O que me guiou no fazer desse disco foi perguntar-me o que é preciso cantar no presente, em meu caminho na vida, mas também na nossa vida social. Acredito que, no momento atual, em que o ódio e a violência permeiam tantas relações, precisamos, mais do que nunca, cantar Amor. Não o amor romântico das novelas, cheio de posse, interesses e ilusão, mas o amor com A maiúsculo, aquele que, ao meu ver, pode revolucionar cada um e nossas relações. É nessa fonte que tenho procurado beber e me banhar.

 

2) O trabalho rítmico, das células percussivas é excelente. Sua voz modula muito bem com este fraseado, e as melodias são ricas em matizes que também se juntam muito bem à sua voz. Como você pensou a sua voz (o timbre)  com cada célula melódica do álbum?

Realmente estou bem feliz com o resultado rítmico do disco e isso se deve muito ao trabalho conjunto com os dois produtores musicais de Kinjo: Ivan Banho e Ivan Gomes. No processo de arranjo e gravação, os elementos percussivos foram decisivos para mobilizar um modo de cantar que complementasse e fosse complementado pelo que estava sendo proposto pelos músicos. Penso que cada canção tem um motivo para existir. E descobrir qual é o modo em que a canção ganha vida é um processo de pesquisa e escuta. Pesquisa porque é necessário conhecer e experimentar diferentes interpretações e isso demanda tempo e dedicação. E escuta, porque só ela pode trazer a forma precisa da música.

Na definição dos timbres, propriamente ditos, foi fundamental também a preparação vocal com o Wagner Barboza. Isso porque  existe uma voz que é realmente a sua mais orgânica no encontro com aquele canto, uma que é ligada ao respiro, à escuta de si, a intenção da canção e às batidas do coração. A precisão quase clínica do trabalho do Wagner me ajudou muito a conhecer os detalhes da minha própria voz. 

3) – Depois de ouvir duas vezes o álbum todo realmente não conseguir “rotular”  o seu trabalho. Tá difícil de defini-lo em algum gênero. Esta questão dos gêneros, como você vê aqui no Brasil, onde tudo é etiquetado e rotulado? Partindo do que você produziu?

Pois é, confesso que não pensei em gêneros no processo de composição. Certamente, a gente é muito influenciado pelo que a gente ouve, o que a gente gosta, mas também muito do que a gente gosta é circunscrito ao que nossos círculos sociais nos permitem gostar. Acho que todo gênero pode ser bom, depende mais da mensagem que porta, de como é tocado, colocado. E acho ainda mais que, como tem acontecido na sociedade contemporânea em vários processos de rotulação, precisamos cantar uma música transgênera. A música brasileira e do mundo é tão rica e tão diversa, suas possibilidades e combinações são tão infinitas.

Mas tem uma noção que, quando apareceu, passou a nortear um pouco os caminhos estéticos do trabalho: o regional diaspórico. Eu sou um neto da diáspora japonesa para o Brasil, especificamente da ilha de Okinawa (Antigo Reino de Ryukyu, mas essa é uma outra história). Então, eu comecei cantando música japonesa ainda criança, tanto pop quanto tradicional. Mas meu pai, que já nasceu no Brasil, sempre ouviu artistas brasileiros, estadunidenses e europeus. Eu cresci numa casa com uma linda vitrola onde tocava Pink Floyd, Caetano, Gil, Chico, Bethania, Milton e Gal, Beethoven, Mozart, Led Zeppelin, Mutantes, Beatles, Tom Jobim, Elis, Mercedes Sosa, Winton Marsalys, Bob Dylan e muito mais. Na juventude, ouvi também muito pop latino e americano, Bob Marley, Zeca Baleiro, Lenine, Chico César, Beck, Tom Zé e o que chamam de música regional brasileira (côco, boi, jongo, maracatu, etc).

Gosto muito da perspectiva antropofágica da cultura, da qual considero frutos musicais o tropicalismo e o mangue beat. Nesse disco, acredito adicionar à música brasileira o ingrediente asiático, que considero ainda pouco representado nas imagens e sonoridades da brasilidade.

É por isso que costumo brincar que a canção Permissão, por exemplo, que abre o disco, é um boi nipo-maranhense. Eu conheci a festa do Boi já na época da universidade lá no Morro do Querosene, bairro paulistano que concentra uma viva comunidade diaspórica maranhense. Foi lindo conhecer uma festa tão bela, cheia de música, dança e alegria e isso fez-me refletir sobre minha própria identidade. O Boi maranhense em São Paulo já é uma música diaspórica, ou seja, que viajou com seu povo. Só que a metrópole é também o lugar onde o neto de uma outra diáspora, a asiática, pode conhecer e dançar esse boi.

Essa reflexão, entre outros acontecimentos, me levou, anos depois, até o Japão, lugar que visitei por três vezes desde 2009.  A crise identitária virou terreno criativo. E, por que não, sintetizar esse universo transcultural e transgênero numa canção, numa pesquisa, num álbum?

Como toda síntese, ela é singular, um recorte. Mas tenho dito que o disco KINJO faz parte de uma música regional diaspórica, japonega, asiático-brasileira, latino-amarela, J-Brazilian pop music. Mas, claro, todo rótulo é uma brincadeira da linguagem.

4) – Sua poética nas letras tem um fraseado muito sonoro, o som das palavras exprimem uma musicalidade que só ajuda na costura com a melodia. Mas ao mesmo tempo você usa um vocabulário nada erudito, suas palavras são poéticas e sonoras mas não há intenção de soar hermético, ou erudito. Como você utilizou a poética da escrita para elaborar suas canções?

Meu processo de composição tem mais a ver com os impulsos do corpo do que com a escrita intelectualizada. Passei 13 anos na universidade estudando sociologia, economia, ecologia, antropologia, filosofia, história, política, entre outras. Alguns de meus temas de pesquisa foram cidade, meio ambiente, desenvolvimento e sustentabilidade, ciência e modernidade, identidade/diferença, gênero e sexualidade, orientalismos, descolonização e performance. Várias das canções compus durante esse período, dando vazão a sentimentos e reflexões através da música. Mas só comecei a gravar depois que terminei meu doutorado em Ciências Sociais na Unicamp, em 2015, me entreguei definitivamente à música e ao teatro, e me mudei para o meio do mato na Serra do Mar.

No final da tese, percebi que grande parte do que queria dizer nessa pesquisa não estava cabendo nas palavras da academia. Acabei tendo que performar e cantar na defesa do doutorado. Nesse sentido, a pesquisa nas Ciências Sociais foi totalmente fundamental para inspirar o devir e as ações que esse trabalho musical porta. Porém, minha angústia com o ambiente acadêmico era de que eu não queria só falar entre doutores. Como atravessar essa barreira? Não seria uma barreira de classe, que está expressa na linguagem, nos modos de escrever e falar, na cisão do trabalho manual e intelectual?

A canção Permissão, por exemplo, eu já compus morando na mata, roçando caminhos, pintando paredes. Ela faz parte do começo de uma pesquisa sobre os cantos de trabalho, esses que se cantam quando estamos manualmente trabalhando.

Para mim poesia, musicalidade, corpo e intenção devem servir à ação que é o sentido de cada canção.

5) –  Como vai ser o trabalho de divulgação do álbum? Vai ter uma plataforma fisica? E quanto aos shows, pretende vir ao Rio?

O trabalho de divulgação está sendo o mais amplo possível. Na fase de pré-lançamento, tivemos a felicidade de viajar ao Japão para realizar um show no VI Worldwide Uchinanchu Festival, em Okinawa. O álbum KINJO vai ser lançado no dia 9 de junho, dia de lua cheia, pelo selo Matraca Records/YB Music em todas as plataformas digitais. O disco físico fica pronto no mesmo mês e nosso plano de circulação para esse ano inclui São Paulo, seu interior, Rio de Janeiro, Minas, Brasília, Porto Alegre, Nordeste e América do Sul.

  • marcosordonha

    cheguemos em um ponto que esse regional diasporico seja a musica contemporânea, na globalização dos meios e dos sujeitos.