Quatro perguntas ao escritor Alex Tomé

0
19

Alex Queli Tomé graduou-se em Comunicação Social: Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e atualmente cursa Direito. Roteirizou os curtas-metragens “A Cena Perfeita” e “Recortes”, este vencedor de um Kikito em Gramado. Atualmente Alex Tomé reside na cidade de Guaíra/SP. Eu contra o sol é seu primeiro livro. Fizemos quatro perguntas ao escritor. Confira abaixo.

1 –  Como foi o processo de criação do livro? Como você chegou a este enredo tão contemporâneo sobre política, falando sobre manifestações?

O primeiro livro é sempre interminável. Certamente porque nossa voz ainda oscila ou por que nossas obsessões estão candentes, no decorrer do trajeto fazemos muitas curvas perigosas e vez ou outra caímos em desfiladeiros incontornáveis. Obras inaugurais são fantasmas pra toda vida. Cada escritor lida com isso de uma forma. Tenho amigos que renegam sua estreia, outros escrevem o mesmo livro com variações de personagem e temas. Meu processo de criação do “Eu contra o sol” foi prazeroso, difícil, patético, intenso e doloroso – como são as grandes paixões. Nunca me dei prazos – quando negociamos com o tempo estamos sempre em dívida. Durante quatro anos escrevia todos os dias porque a literatura acabou se tornando a coisa que mais fazia sentido em minha vida. Certo dia as palavras não vieram mais, compreendi aquilo como um ponto final. Tenho a impressão que jamais voltarei a escrever algo parecido. Do ponto de vista temático, desde 2008 escrevia sobre uma cidade em convulsão, imersa em contradições políticas e sociais de toda natureza. Quando as manifestações explodiram em 2013 pensei “a realidade solapou minha ficção”. Depois do livro publicado concluí: a ficção não é um exercício de adivinhação da realidade, mas o preenchimento de lacunas que o artista nunca compreenderá senão pela arte (a literatura, em particular).

 

2 –  Como você encontrou a voz do livro? O narrador do personagem Benício mistura e cruza uma série de referências do mundo de hoje, indo de um espectro político ao artístico, como foi junto ao desenho tão complexo do personagem-narrador, esmiuçar tão bem as suas preferências e as nossas também dos arquétipos culturais?

Cada livro exige sua própria linguagem. Desde o princípio, tomei o duplo de desafio de conciliar prosa e poesia. Ledo engano, elas não se conciliam. São zonas de atrito constantes. Há tantas (im)possibilidade nesse interregno que a estruturação do romance quase me levou à loucura. Certamente ultrapassei um ponto o qual já não foi possível retornar. A jornada de formação filosófica-artística-amorosa-existencial-política de Benício coincide com a errância dessa busca.

 

3 –  Você tem uma preocupação com linguagem ao escrever a narrativa. Esta preocupação vem de alguma corrente literária específica que você gosta; de algumas preferências por alguns autores? O que você pensou primeiro? Na voz e na linguagem ou no enredo?

Um escritor deve se orgulhar mais de suas referências do que aquilo que escreve. Usei a leitura como estratagema de criação. Quanto mais leio mais escrevo e a recíproca não é verdadeira (há uma autonomia incontrolável em ser leitor). Daí que “Eu contra o sol” surgiu dos diálogos que travei com Raduan Nassar, Coetzee, Drummond, Nietzsche, Hilda Hilst, Don DeLillo, Alejandra Pizarnik, João Gilberto Noll, Albert Camus, Juan Gelman, Faulkner, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, entre tantos outros. Em razão de minha formação também há muita influência cinematográfica. Em “Eu contra o sol” utilizo muito do jump cut godardiano entre uma frase e outra. Os contemporâneos também estão muito presentes no livro. Em suma, tenho comigo cinco ou seis projetos para escrever, o que torna um deles relevante e urgente é a feliz coincidência de boa história com sua linguagem singular, pois só há uma maneira de contar uma determinada história.

4 –  Você tem algum próximo projeto? Como foi sua experiências com roteiros para cinema?

Estou escrevendo um romance que nomeei provisoriamente de “FFF” em que pretendo abordar e amalgamar ideias acerca de Fosfoetanolamina, Feminismo e Falências (humanas e institucionais, a priori). Em relação ao cinema comecei como roteirista em curtas-metragens, há certas investigações que percebo ser o cinema a linguagem plena para seu aprofundamento, contudo mesmo que mantenha um interesse genuíno pelo cinema não morreria se jamais voltasse a escrever um roteiro, ao contrário dos romances.