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Quatro perguntas para a escritora Andrea Ferraz

Andrea Ferraz vive no Recife e escreveu o romance “A Sutileza do Sangue”, livro premiado pela Academia Pernambucana de Letras na categoria ficção. É uma das autoras da antologia de contos “O Bordado das Sombras”. Está lançando a novela “Guardem as Cinzas”. Fizemos quatro perguntas para a escritora. Confira abaixo

1 – Tua narrativa é muito concisa no desenvolvimento da ação dramática e você se preocupa bastante com a apuração da linguagem criando um efeito estético forte nela. Como você pensou estas características quando começou a escrever?

A estética vem primeiro, a linguagem vem em função dela, em função do efeito estético.
A ação dramática não importa. Importa a condição humana e a exploração da estética. Cada conflito tem um nível de profundidade, uns mais, outros menos, eu não me preocupei tanto com o drama, o drama decorreu, surgiu naturalmente porque eu explorei a condição humana dos meus personagens, como eles reagiam, como se mantinham de pé diante das angústias, do desafio que é viver.

A linguagem é o básico para tornar verossímil a narrativa. A tentativa vem através de frases enxutas, sem derramamentos líricos, o cuidado no uso de adjetivos e advérbios, a escolha das técnicas mais adequadas e principalmente de mostrar ao invés de dizer. É a voz de Carrero: não digam, mostrem. É preciso acreditar no leitor. Não dar muitas explicações.

2 –  Santa tem um olhar em relação a estória, que ela é parte meio conformista. O que acha? Ela aceita o papel de amante até a hora do parto, onde ela chama o personagem-narrador à responsabilidade. Como desenvolveu o perfil de Santa? 

Não se manifestar não significa ser conformista. Talvez Maria Santa finja conformidade. Não seria Paizinha a personagem conformista? Que escolhe não ver o que se passa claramente diante dos olhos dela? Santa tem muita personalidade, e toma uma atitude no final, eu acredito que em determinado momento eclodiu outra pessoa que sempre esteve nela. Não cabe a mim julgar. Logo no início Antônio indaga: “quem é esta mulher? O que é a sombra que se esconde atrás de alguém?” Deixei muito espaço para interpretações.
Maria Santa foi desenvolvida a partir de uma história verídica que me chamou bastante atenção e me fez buscar, tentar compreender quem era aquela mulher, e o porquê de ela ter feito o que fez.

3 – A tua narração é o ponto de vista do homem. Como foi estruturar a mente do personagem com toda as suas características humanas bem próprio de um contexto que hoje está sendo desconstruído? O do machismo.

Apesar de eu ter feito uma escolha muito consciente, a narrativa ser do ponto de vista de um homem ou de uma mulher é irrelevante. A condição humana é universal, a arte é universal, a estética é universal. Escolhi o ponto de vista de Antônio, e por acaso, Antônio é homem. Poderia ter sido o ponto de vista de Santa, ou de Paizinha, mas acreditei que através dos olhos de Antônio eu  deixaria meus personagens e os leitores mais livres diante dos fatos que se seguiriam no romance. Antônio foi construído a partir de minhas observações, estruturado a partir dos homens que passaram em minha vida, das pessoas com quem convivi e convivo intimamente.

A arte não tem compromisso com ideologias. A arte tem compromisso com a beleza.
O elemento machismo existe, mas não é o foco, não é o tema central, não foi intencional, é apenas um elemento. O foco é a estética e a condição humana. O machismo é uma característica que aflorou do personagem, não é para torná-lo melhor ou pior, mas para torná-lo mais humano, não há maniqueísmo nem julgamento. Eu deixei meus personagens livres, me afastei do texto. A partir do momento que o autor mostra a ação, se determinados comportamentos são moralmente aceitáveis ou não, fica a cargo do leitor.

Mesmo com estas características ditas machistas, realmente, Antônio é machista, mas a autora não julga em momento algum. A moral é fora da arte. É fora do objeto estético. A temática está inclusa para revelar como a condição humana se manifestou.

O que importou na narrativa, no caso, de “Guardem as Cinzas”, foi construir a hesitação de Antônio em buscar a parteira, os conflitos existentes ali. Era um caminho curto, por que ele demorou tanto? Por que ele não queria ser pai? A certo ponto ele queria largar as duas mulheres, queria fugir. Por quê? Deste modo o autor cria o que Umberto Eco chama de “o espasmo do desejo”, o desejo de Antônio de ir embora e ao mesmo tempo de ir chamar a parteira, e cria “o espasmo do desejo” no leitor em descobrir, saber por que aquilo tudo está acontecendo, em conhecer quem são aquelas pessoas.

Revelar a condição humana. Isto é o que importa no romance, não o tema, não o drama, muito menos a tragédia. Isto são consequências.

4 –  Você participou de oficinas do escritor Raimundo Carrero. Como estas oficinas te auxiliaram na elaboração do livro?  

Eu participo das oficinas de Raimundo Carrero há um bom tempo. Ele me ensinou tudo que sei através das aulas, indicações de leituras, construções e correções de textos. Meus livros são frutos de oficina, meus textos foram construídos e levados para a sala de aula, distribuídos entre os colegas para apreciação, expostos a críticas.

Oficina não é um lugar de elogio. É necessário ter humildade e desapego para se desenvolver. Se o aspirante a escritor fica agarrado aos próprios rochedos, paralisa, não se desenvolve.  A escola de Carrero nos ensina e nos convida a nos retirarmos do texto, as deixarmos que as personagens se apresentem como elas são, o próprio autor se torna expectador, e ele próprio pode ser surpreendido.

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Publicado por Fernando Andrade

Fernando Andrade

Escritor e poeta, e jornalista, tem dois livros de poemas, Lacan por Câmeras Cinematográficas, e Poemometria lançados pela editora Oito e meio. Participa do coletivo de Arte, Caneta lente e pincel, com contos e poemas. também participa do Trema Literatura, coletivo de textos de ficção. tem entre seus escritores mais amados, Thomas Pynchon, Ìtalo Calvino, e no cinema ama demais Krzysztof Kieslowski.

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