Suelen Carvalho nasceu em Castanhal, no Pará, em 1982. É jornalista e roteirista. Publicou contos em revistas literárias, antologias e um e-book infantojuvenil. O passado é lugar estrangeiro é seu primeiro romance. Mora há quatro anos em São Paulo-SP. Fizemos quatro perguntas para a autora. Confira abaixo:

1 –  Tua narrativa tem uma pegada de suspense com uma visualidade impressionante, a forma de leitura para o leitor é muito visual muito devido a como você burila a linguagem. Como foi este processo de chegar a esta escrita-câmera?

Eu diria que foi um experimento. O suspense surgiu da própria natureza da narrativa que persegui, uma busca de formatar a memória, de controlar o incontrolável, o passado. A tentativa foi traçar os caminhos de percepção do que não se pode tocar de verdade, por isso a visualidade, o entrever, o vislumbrar. Acredito ser isso que chamas de escrita-câmera.

2 – Como foi escrever a trama deixando as sombras e os segredos de Marcos serem só sugeridas, e a ideia dos capítulos com a voz de Marcos criando sugestões muito imagéticas. Com foi fazer estas elipses do texto?   

Deixar o segredo nas sombras foi uma escolha ligada diretamente a incapacidade de Diana de lidar com ele. O narrador se relaciona com a protagonista, só existe por causa dela. Ele vai aos poucos se aproximando dela até incorporá-la em níveis diversos. O narrador só acessa o que se passa com a personagem, se Diana não consegue enunciar o segredo, pensar sobre ele, o narrador também não pode. É como se o segredo lutasse para ter alguma voz, não necessariamente o próprio Marcos. O narrador não pode revelar a si mesmo. Eu amarrei o segredo na testa do narrador e tirei as mãos e os espelhos daquele universo. As vezes penso se isso não foi uma maldade. 

3 –  Você molda sua narrativa de forma muito semelhante na minha opinião ao novelo que não sabemos o quanto tem de fio enrolado, só o jogando no espaço, saberemos seu comprimento, seu tamanho. Quase como um processo de desnovelar a memória. Como foi na hora de estruturar seu romance, você chegar a esse conteúdo encoberto? 

Acredito que tenha sido orgânico pela proposta da narrativa que me fiz. O livro é sobre segredo, sobre para onde vão as palavras que não conseguimos pronunciar ou comunicar nem para nós mesmos, ou seja, é sobre o encoberto. Sem uma estrutura nebulosa e cinzenta isso se perderia e o livro também. A personagem quer se descolar a todo custo do que já soube, do que descobriu. É possível deixar de saber o que já se sabe? “O passado é lugar estrangeiro” se desenrola a partir dessa pergunta. A resposta não tem definição, muito menos indefinição, por isso o título não apresenta o artigo “um”, porque podem ser muitos lugares. Foi o que eu pensei ao escrever, mas sabemos que as leituras podem mudar os rumos. Os véus permanecem.

4 – Como foi o desenho da personagem Diana? Como foi seu desenvolvimento no decorrer da narrativa? Com tantas nuances, como a questão da dor à cor.

Diana quer ter controle sobre o seu passado, sobre um segredo, sobre a dor. O incômodo das cores é um sintoma desse desejo doentio por controle. As cores são mais difíceis de domar e harmonizar que uma escala de cinzas, do que o preto e branco. É uma atitude de certa forma covarde, se não fosse uma alternativa de sobrevivência naquelas circunstâncias tão frágeis. Para ela, seria mais confortável, assim como se descolar da própria história, por muros entre si mesmo e o seu passado.