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A grandeza de Mass effect

Obs: spoiler leve no antepenúltimo parágrafo

Admito que sempre sonhei com vida fora da Terra, o velho sonho de qualquer nerd em encontrar um ser de outro mundo ou ter a chance de encostar, mesmo que por um segundo, na superfície de uma nave. Costumava olhar para o céu e pensar “onde eles estão?”, afinal o universo é grande demais para apenas comportar a existência de alguns bilhões de seres humanos.

O tempo passa e a visão sobre esse desejo muda, deixando de lado o romantismo acerca do misterioso, digno de Julio Verne, e entra o pensamento sobre como seria uma reação humana ou o quanto poderíamos evoluir até atingir uma utopia, da forma como Asimov profetizava em seus romances.

Um segundo fator para minha paixão pela “ultima fronteira” é a mitologia como um todo do universo “Star Trek” e, acima de tudo, como eles sempre abordaram o contato com as mais diversas espécies sem ter que recorrer ao conflito toda hora. É nessa serie (e em seus derivados e filmes) que a relação homem\alienígena foge do conceito criado por H.G.Wells em “Guerra dos Mundos” e nos mostrou o homem redirecionando sua curiosidade para ‘construção’ de uma nova estrutura social pacifica. Será que esse tipo de jogo atrairia mas atenção do que um que reproduz apenas guerra pela guerra?

Isso me leva ao ano de 2013, quando em busca de um jogo qualquer para alugar em um sábado, me deparo com “Mass effect 2” juntando poeira na prateleira. Na sua capa havia a imagem do protagonista e de mais dois outros personagens, dentre eles um alienígena. Aluguei o jogo e começo minha jornada.

“Mass effect” é uma saga de jogos RPG desenvolvida pela BioWare, com temática de Sci-fi (ficção cientifica) disponível para PC, Ps3 e Xbox 360 (em breve para a nova geração também). A trama central dos jogos é basicamente sobre a convivência da raça humana com diferentes raças alienígenas enquanto uma iminente ameaça pode vir a dizimar a vida na galáxia.

O jogador assume o controle de um personagem customizável chamado (a) Shepard que é comandante da nave “ Normandy”, e que deve tomar decisões que podem mudar o destino da sua tripulação e de toda a galáxia. O titulo se deve ao fato da existência dos “ Mass relay”, que no universo do game são tecnologias criadas por uma antiga raça e que estão espalhadas pela galáxia. Quando uma nave se aproxima de um deles ela ganha velocidade suficiente para cruzar a via láctea, algo parecido com o hyper espaço no “Star Wars”.

A trama do primeiro jogo (lançado em 2007) acompanha Shepard em sua primeira missão como Spectro, unidade de elite responsável por investigar os crimes cometidos por todas as raças na galáxia. Nesse contexto ele precisa provar a culpa do lendário agente Saren no homicídio de um colega. Contando com a ajuda de sua tripulação ele percorrerá o cosmo em busca de provas. Talvez o fator mais importante de todos os jogos da saga seja a relação jogador-personagens, a liberdade que todos os jogos da franquia para interagir do jeito que quiser com a equipe da “Normandy” acaba por criar uma imersão única na época. Hoje em dia já é comum a presença de personagens carismáticos nos jogos, mas em 2007 nenhum outro título proporcionou o ímpeto de um jogador dar risadas com as falas dos personagens, de apoia-los/critica-los em suas ações, ou de ter o máximo de cuidado em suas decisões para que todos sobrevivam.

Partindo para o segundo game da franquia (lançado em 2010) e finalmente disponível para o ps3, diferente do primeiro, segue-se logo após o fim do anterior, e acompanha a comandante Shepard (sim, para mim e para os criadores do jogo a verdadeira forma de Shepard é uma mulher) tentando salvar o pessoal da “Normandy” de um inimigo desconhecido, depois de alguns eventos o jogo te coloca para recrutar uma nova tripulação.

Se o primeiro era focado em introduzir um universo original e, mais importante ainda, novos personagens, o segundo apresenta uma atmosfera mais “marginal”. Shepard não contará mais com o apoio dos governos galácticos e precisará recrutar os mais desprezíveis foras da lei para desvendar desaparecimentos em massa pelas colônias humanas. O jogo também trouxe a novidade de importar o “save” do primeiro jogo, assim suas escolhas anteriores influenciariam no novo enredo.

“Mass effect 2” foi como essa saga se apresentou a mim e é um dos melhores games que já joguei na vida devido ao poderoso enredo, muito movimentado mas regido por uma alta carga dramática, personagens carismáticos e por uma protagonista que crescia conforme eu a moldava mas ao mesmo tempo tinha uma imponência natural que me remetia à capitã Kathryn de “Star Trek: Voyager” ou à Samus de “Metroid”.

Todos os caminhos do “hype” acabaram por convergir em 2012 quando foi lançado “Mass effect 3”, nada mais do que a conclusão de toda a saga construída até aqui, em que todas as suas decisões dos dois jogos anteriores recairiam sobre Shepard e seus amigos. O enredo seguiria o inicio da guerra envolvendo todas a raças da galáxia contra os Reapers, que são seres automatizados cujo objetivo era erradicar toda a vida orgânica existente assim que eles atingissem um nível elevado de evolução.

Agora alçada a um posto elevado na hierarquia militar galáctica, Shepard precisa convencer os lideres de todas as raças (até os humanos) a se unirem para derrotar os Reapers. No entanto, o racismo e preconceito presente entre todos os povos se mostrará um obstáculo. Como qualquer ficção científica, a saga “Mass effect” sempre deixou latente em sua trama que o preconceito não é um defeito exclusivo da humanidade, por diversos momentos o jogador sentirá na pele (virtual pelo menos) o quanto uma raça pode desprezar outra. Seja os humanos odiando aliens devido a guerras entre ambos no passado, e por ainda serem considerados inferiores ou eles extravasando sua raiva devido a formas segregarias que o homem os trata.

A crítica ao racismo se torna mais clara aqui do que em qualquer outro, sinalizando constantemente a mensagem de que se não nos unirmos seremos destruídos, seja pelas maquinas espaciais ou por nós mesmos como sociedade. Assim como é valida a critica feita à classe política mundial, corrompida pela corrupção e pela ineficiência, tanto no enredo quanto na vida real a incompetência política é responsável por incontáveis mortes.

Entretanto, esse capitulo sempre será lembrado pela polêmica envolvendo seu final, que muitos jogadores consideraram fraco e desrespeitoso com todo o desenvolvimento proposto até então. Pessoalmente, considero-o confuso e fraco sim, pois ele acaba por reduzir a conclusão da comandante Shepard, que caminhava para algo realmente épico, a um simples momento de “ escolha azul ou vermelho” ( tipo “Matrix” só que não). Muitos dizem que a desculpa foi que o final original vazou e a desenvolvedora teve que reescrevê-lo as pressas.

Só que, há um elemento que salva essa conclusão polêmica, uma cena pós-crédito em que uma criança está junto a seu avô (dublado pelo ex- astronauta Buzz Aldrin) em que dá a entender que ela acabara de ouvir a historia sobre a saga da comandante Shepard e em seguida pede para contar outra historia, o avô então inicia novamente. O que se pode tirar dessa cena é que tudo pelo qual o jogador lutou nos jogos anteriores, os indivíduos que ele matou ou perdoou, os relacionamentos construídos ou destruídos, as várias horas de conversa sobre a história individual de cada membro da equipe e muito mais não foi perdido ou jogado no lixo. Shepard tornou-se no fim uma heroína de fato e suas histórias com o tempo se tornaram lendas que sabemos que ocorreram, mas para as novas gerações elas serão vistas como contos de ninar.

No fim, o jogador sente que realmente fez parte daquela historia e não liga que ela seja ficcional, pois dela ele conseguiu absorver o valor de uma amizade, que o preconceito apenas nos atrasa e divide, que o universo pode ser menor e mais povoado do que ele imagina ou que cada decisão em sua vida construirá quem ele é por dentro assim como ele construiu a protagonista nos três jogos. No próximo dia 21 será lançado “Mass effect: Andrômeda” que servirá como um novo começo para a franquia, possivelmente sem nenhum dos personagens já conhecidos e sem Shepard, mas que certamente apresentará novos indivíduos únicos e apaixonantes.

Bem vindo à Normandy!

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