Qual seria a relação da escrita de ficção com uma atenta prática analítica? Talvez a relação de fatos e ficções que um paciente expõe na sua relação com o psicanalista? No discurso dele, de quem processa a linguagem para falar de si, há duas camadas de fala e discurso: o real e o simbólico. A linguagem tanto verbal quanto escrita está aberta à uma tendência fantasista\ imagética. Falamos ou escrevemos com  se tivéssemos um pincel ou uma caneta hidrocor na articulação da língua. A língua é colorida, e também possui fraseado colorido-fabular. Redefinimos o molde.

Será que é porque não aguentamos algum princípio de realidade? A fantasia é labor? Até no luto elaboramos a perda com algum tipo de rito escapista. Se não, o peso da existência seria, por demais, pesado.

No livro Aqui de dentro, que acaba de ser lançado pela Editora Estação Liberdade, com tradução  de Denise Bottmann. De autoria do dramaturgo, ator e escritor Sam Shepard, falecido nesse ano, temos esta narração em um narrador distanciado que se traveste de um material muito pessoal e intransferível que é a vivência biográfica do autor. Na raiz de uma vida, não deve, ser ou ter, somente sua existência biográfica. Tanto a leitura quanto a vida fazem parte de círculos interativos partindo do núcleo da família e de relações profissionais. No caso dele a atuação teatral e cinematográfica, até uma relação macro do narrador com seu país-nação. Todo artista acaba narrando um grande território de si, guardado por fronteiras que muitas vezes se confundem com as próximas, os entes queridos.  Ele representa não um pensamento de nação, mas uma representação em gênero do arquétipo do lugar onde nasceu.

Sam Shepard, em seu livro, visita espaços de sua memória, mas não faz com voz compassiva e colada de um eu-narrador. Percebemos que se trata de Sam pelo tom da mímesis afetuosa e apegada que tem com seus temas particulares começando com pai, lutou na guerra, que sempre foi distante de algum círculo afetante/afetuoso com o filho. Nesta relação pastoral  entre  pai e filho, um mitologia forte e simbólica entrará como fonte de leitura paterna do filho sobre o pai. A pequenez ou diminuição do “porte” do Pai. Ele se verá na narrativa transformado numa espécie de miniatura. Num conto – boneco de chumbo. Já sem dotes de sopro, sem qualquer lastro de vida. Para uma criança ter seu pequeno soldado vivo onde o narrador-criança dota o boneco de vida, o narrador de “Aqui de dentro”, metamorfoseia seu pai num boneco-miniatura-morte.

São várias as mulheres que passam pela vida do narrador. Felicity, a namorada do Pai, uma relação de desejo e temor, algo como uma competição ao afeto do pai. Talvez não. Talvez por ser a primeira mulher que ele tomou consciência ao ser ver envolvido por afetos e desejos, a mais próxima do seu universo nuclear. Ela era bem mais jovem que o pai. Mas há no jovem narrador uma posição de distanciamento que vai trilhar sua natureza errante até a velhice. O desejo está todo ali. Mas talvez o afeto seja por demais distanciando dos objetos, como se o ser que “afeta” tivesse por demais coisas a olhar, pesquisar ou considerar antes de se pôr inteiro.

Na parte mais interessante do livro o narrador faz uma espécie de diálogo teatral com a outra mulher com que se relaciona: “A garota chantagem”. Ela quer tomar parte da vida dele. Não só afetivamente. Mas cunhar o material biográfico dos dois num tipo de livro confessional com depoimentos gravados dos dois. É simplesmente impagável a relação de fala-escuta entre ele e ela. A posição dele é claramente defensiva, mas nunca ofensiva. Ele se mantém sempre, passo lacônico, um passo reticente ao discurso dela de expor a vida conjugal dos dois.

É esta posição de narrar. Este distanciamento crítico, com o experimento do seu pai, sua relação com o teatro, que lhe ajudou a formatar um olhar cuidadoso sobre pessoas, como uma forma toda sua de atuar no mundo. Não considero sua prática relacional agressiva. Nenhum um pouco! Talvez um postura de observação “isenta”, mas envolvida na imersão da vida, sua vida.