O que têm os espanhóis e os latinos de sangue espanhol que os torna tão predispostos à magia? O que é isso que está no sangue que vem de Dom Quixote e está também em Cem Anos de Solidão? Não sei. E, apesar de encontrar realismo mágico também em “As Invernas”, de Cristina Sánchez-Andrade, ainda não consegui entender a cerne da imaginação fértil espanhola.

A autora de “As Invernas”, Cristina Sánchez-Andrade

É o começo dos anos 50. Depois de 15 anos longe, as irmãs Saladina e Dolores voltam a Terra Chã, vilarejo espanhol onde nasceram. A volta das irmãs reabre as feridas dos moradores do local, que parecem parados no tempo, quase enfeitiçados. E não é para menos.

Em uma manobra que parece vinda do realismo fantástico, descobrimos que todos os habitantes de Terra Chã assinaram contratos vendendo seus cérebros ao avô das invernas, dom Reinaldo. Ele só usaria os cérebros depois que as pessoas morressem, e ele próprio já está morto quando as irmãs voltam para a Espanha, mas há ainda ressentimento e desconfiança por parte dos moradores com relação a tudo que cerca aquela família.

As irmãs passaram anos na Inglaterra, sendo educadas em inglês, e depois se tornaram costureiras em Coruña. Dolores, a mais bonita, esconde um segredo do passado e sonha em ser atriz. Ela vê a oportunidade perfeita quando uma equipe vai rodar “Os Amores de Pandora” (um filme real de 1951, que também tem um toque de magia) na Espanha. Saladina, a mais feia, é metódica, gulosa, sabe do segredo da irmã e, segundo uma adivinha, vai se apaixonar ao voltar para Terra Chã.

Ava Gardner em cena de “Os Amores de Pandora”, com Tossa de Mar, Espanha, ao fundo

A galeria de personagens de Terra Chã é riquíssima: há o tio Rosendo, professor local e criador de uma teoria sobre o instante que muda a vida de todos, a viúva de Meis, casada com Rosendo, mas que nunca esqueceu o primeiro marido, o caponero Tristán, o protético Tiernoamor, a velha do Bocelo, que está para morrer há muitos anos, o Ramonciño, criança quando as irmãs foram embora e marinheiro quando elas voltaram. É por esta galeria de tipos e por outras razões que eu acredito que o livro funcionaria muito bem se fosse adaptado como uma série de televisão.

Este livro me proporcionou uma sensação que eu só tive vendo filmes: a de chegar ao final e querer voltar imediatamente para o começo e ler tudo de novo, para saborear novamente aquelas páginas, reviver aquela história e ir pegando novas pistas do desfecho que haviam me escapado na primeira leitura – e, por que não, solucionar algumas questões que eu ainda tenho.

O livro me fez lembrar dois filmes, em especial nas páginas finais: Zorba, o Grego e Assassinato no Expresso do Oriente. A Terra Chã das Invernas é uma aldeia como a da história de Zorba, isolada e com pessoas de mentalidade tacanha, que não respeitam ninguém, em especial os mortos. E o final do livro, com a revelação do que aconteceu em outubro de 1936, é semelhante ao final de Assassinato no Expresso do Oriente – pelo menos a meu ver.

Sem dúvida o trabalho da tradução foi primoroso, pois o vocabulário usado é rico e nem um pouco artificial. O único porém é o verbo “assertou” que deveria ser “acertou” na página 256 – mas, com tanto esmero, é comum que os erros mais simples passem despercebidos.

Não obtive todas as repostas ao final do livro. Não obtive sequer reposta para o porquê do título. E é possível gostar de um livro que lhe deixa com mais perguntas ao final da leitura do que quando você a iniciou? É, sim, e por isso digo: ¡ bravo, Cristina Sánchez-Andrade!