Ao poeta parece uma condição estar deslocado ao ponto onde se encontra, nunca estar de frente ao que se vê, mas sim enviesado, meio perpendicular, não muito particular, como se a sua visão fosse (três)passadas. Olhar guloso e anguloso, que devora com sua percepção aguda dos condutos das coisas.

A sua própria criação através da linguagem de uma camada fina de pó, acumulada sobre o real, o poeta acrescenta o microscópio na sua aptidão por observação. Mas observar as palavras com uma lente de sentido, fazer valê-las nas criaturas polimorfas, este jogo é interessante? Para os bate-pontos, bate-estacas, baterias dos autos.

No livro do poeta Ruy Proença, “Caçambas”, pela Editora 34, temos um título utilitário e referencial, sobre a condição do mundo, capitalista. A caçamba é um objeto de passagem até do olhar, pois enquanto estamos passando, ela está lá a desempenhar várias mais-valias. De armazenamentos de sentidos-objetos que portam sua âncora. De coisas esquecidas que ficou ali meio quase como um objeto de arte.

Os poemas obedecem ao repertório de alocações do meio urbano onde as coisas são mercadorias ou trocas ou apenas lixo. Num ritmo muito bem esmiuçado pelo som e pela trama do poema, Ruy estabelece um alto teor de informação sem deformá-lo na sua completude. O poeta vai nos revelando o mundo ou uma cidade onde não somos os donos de nada, nem do nome da cidade e nem sabemos se somos dali, numa clara alusão ao fato de que estamos de passagem. Como se a vida, uma obra transitória, tornasse-nos a nossa capacidade adaptativa de fugaz e efêmera de ser transitório na nossa capacidade de produção e criação também.

Portanto a esta babel de deformidade e desinformação, o poeta só pode ter duas metas: a clareza da pontuação, neste mundo louco. E o exercício de trazer o fundo (sentido) à superfície da porcelana onde a beleza reluz ao menos no olhar surpreso; estético.

REVISÃO GERAL
Ótimo
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Fernando Andrade
Escritor e poeta, e jornalista, tem dois livros de poemas, Lacan por Câmeras Cinematográficas, e Poemometria lançados pela editora Oito e meio. Participa do coletivo de Arte, Caneta lente e pincel, com contos e poemas. também participa do Trema Literatura, coletivo de textos de ficção. tem entre seus escritores mais amados, Thomas Pynchon, Ìtalo Calvino, e no cinema ama demais Krzysztof Kieslowski.