Andé Balbo nasceu em São Paulo em 1991. É autor do livro de contos Estórias autênticas – importunâncias do engenho alheio (Patuá, 2017). Integrou as coletâneas de contos Tabu (Oito e meio, 2017) e Civilização e Barbárie (Gueto, 2017). É editor da Revista Lavoura. Graduando em direito (USP), já foi trainee da Folha de S.Paulo, editor-chefe e colunista do Jornal Arcadas. Confira a entrevista que o autor concedeu à Revista Ambrosia.

A: Sua escrita está muito ligada à leitura, diria até do ponto de vista linguístico, devido ao uso do seu vocabulário e de gírias do cotidiano no seu repertório. Sua literatura através do seus contos mantém a ficção fraseada na vida dos processos constituintes da pessoa como leitor(a). Fale disso.

André Balbo: Há mais de um ano, tive uma prosa rica com o Prof. Júlio Pimentel Pinto Filho, do Departamento de História da USP, em razão dos trinta anos da morte de Jorge Luis Borges. Na ocasião, ele se lembrou de uma entrevista que Borges deu no começo dos anos 70, na qual afirmara que era um “amanuense do engenho alheio”. O escritor portenho acreditava, com razão, que por trás da escrita estava a leitura. Quer dizer, não existe um fiat lux a cada corrida de caneta ou batida de tecla; o escritor, a todo momento, (re)corre ao engenho de outros escritores, seja para a partir deles provocar rupturas, seja para redescobri-los e perpetuá-los.

Borges talvez tenha sido quem primeiro levou ao extremo essa ideia no seio do próprio fazer literário. E é o que também me propus a fazer nas minhas Estórias autênticas: os espelhos imperfeitos, assimétricos, os jogos de identidade e a própria noção de plágio são ao mesmo tempo uma consequência da leitura de grandes mestres da literatura e uma proposta de repensar os lugares de sentido da ficção em tempos de pós-modernidade, a fim de refletir sobre a importância de “conversar” com o outro, a importância da “fusão de horizontes” entre os diversos engenhos, entre as diversas veredas que se bifurcam, como possibilidade de “salvação” do individualismo, da arbitrariedade e da barbárie que marcam nosso tempo. E por isso desconfio muito de autores que dizem que não gostam de ler ou que não precisam ler para escrever livros.

Sem o perdão da sinceridade, não acho possível produzir literatura sem conhecer pelo menos um pouco de… literatura. Numa palavra: meu processo criativo de escrita é indissociável das experiências que tenho enquanto leitor.

A: Teus contos casam muito bem enredo e estilística de uma forma que não dá ideia de algo puramente acadêmico, até porque, nos seus contos há muito de uma gaiatice, de um franco humor que lembra a minha ou sua formação cultural de massa. Queria que você me falasse desta imbricação entre alta cultura e baixa cultura discutida pela sociologia da comunicação. E que no seu livro é muito bem realizada.

André: É curioso, porque essa imbricação não foi uma proposta, um projeto consciente, pelo menos no início. Quer dizer, é um fato que em meus contos existe um diálogo entre um “mundo”, digamos, mais etéreo, intrincado, não raro dialógico com temas filosóficos e hermenêuticos, e um “mundo” mais prosaico, telúrico, preocupado com a boa e velha conversa de botequim que só quer saber qual foi o resultado do futebol. Mas essa mistura, não tenho dúvida, é antes de qualquer coisa consequência do meu perfil enquanto pessoa: gosto de ler Heidegger e Freud, Shakespeare e Cervantes, e também vou ao estádio, às segundas-feiras jogo futebol, na hora da resenha sou o que mais fala bobagem, encho a cara de cerveja e sacaneio com todos da mesa – e não há absolutamente nada de incompatível nisso. Por exemplo, estou certo de que meu vizinho da frente, o Juca Orelha, é uma reencarnação pós-cosmopolita do Fausto.

Shakespeare é magnânimo, não há dúvida, mas no dia a dia a gente pega busão lotado, acorda com ressaca, tem gases, briga com a mãe por causa de mistura e manda meia dúzia de gente pra puta que pariu. Se Hamlet existisse hoje, o solilóquio do terceiro ato seria 70% palavrões e ele não se vingaria do tio e de mais ninguém, porque estaria ocupado tirando a segunda via do RG no Poupatempo da Sé, assistindo ao filme do momento da Marvel em cartaz na rede Cinemark e puto da vida com Ofélia porque ela quis pagar R$ 35,00 reais num combo de pipoca e coca-cola.

Acho que essa percepção sobre o diálogo entre “mundos” – ou entre duas “culturas”, como você diz – tive pela primeira vez nos tempos de colegial, quando me apaixonei pela música e pelos poemas do segundo maior diplomata da história do Brasil. “Tarde em Itapuã”, por exemplo. Mesclando figuras vivas e metáforas sutis numa cadência clássica, o poetinha fez uma autêntica ode à vagabundagem e à embriaguez. Enfim, o que quero dizer é que esses “mundos” não são compartimentos estanques, não estão cindidos ou pertencem a dimensões diferentes, mas se entremeiam e originam dobras fecundas que constituem a própria realidade. Arriscaria dizer, portanto, que essa imbricação é, em alguma medida, o lugar de partida do fazer literário.

A: Há em alguns de seus contos referências a fatos ou notícias atuais como o conto do lagarto, que repercute um pouco a noção de opinião pública atrelado às posições políticas. Você diria que este conto resvala para um tipo de paródia de modelo político e formação cultural?

André: No epílogo, escrevi que este conto “poderia ser mais denso, não fosse o problema de ejaculação precoce de alguns leitores”. Exatamente porque este conto, em particular, faz alusões a episódios recentes da cena político-jurídica pátria. No entanto, muito mais do que preocupado em tomar partido em algum debate – até porque não é o tipo de preocupação da minha literatura, pelo menos no momento –, tive a pretensão de fazer um desenho irônico, como você percebeu, do próprio modelo político e da formação cultural do país.

Pois bem, esse conto surgiu a partir de um artigo escrito por um importante jusfilósofo do país, no qual criticava a “fabricação”, pela doutrina e jurisprudência brasileiras, de “princípios”. Muito grosseiramente, esses “princípios”, fabricados em massa, seriam enunciados que serviriam para respaldar decisões arbitrárias, ignorando o direito democraticamente produzido para fazer valer opiniões morais/políticas e, muitas vezes, ainda justificando isso sob a égide da “voz das ruas”. O fenômeno por trás disso tudo, penso eu, é a histórica e estrutural confusão, no Brasil, entre os espaços público e privado. É o atemporal conflito entre Creonte e Antígona. Mas tudo isso, ainda que relevante, é a casca do conto – e daí, novamente, a “ejaculação precoce”.

No frigir dos ovos, o mais importante é o significado da figura do juiz-lagarto enquanto um modelo de personalidade ou uma visão de mundo que perpassam praticamente todos os contos do livro. Então quem muito se apegar ao pano de fundo político, vai aproveitar apenas a primeira camada do conto.

A: Uma pergunta ousada. O que você acharia se um leitor usasse seu livro como hipertexto? E se ele escrevesse nos espaços que você deixa aberto?

André: É uma consequência natural, não é mesmo? Não só porque eu mesmo exploro essa possibilidade, escrevendo nos espaços que outros escritores deixaram abertos – ou às vezes literalmente copiando esses espaços –, mas porque, fundamentalmente, e aqui me permito uma autocitação, o papel do escritor é “desvelar o que foi previamente ocultado, sabendo que a sua palavra não será a primeira nem a última”. Ao cabo, é o que me vejo fazendo. Borges dizia que o escritor escrevia um só livro em toda sua vida, e que os livros sucessores seriam apenas reescritas do primeiro.

Atualmente estou revisando (e reescrevendo) meu segundo livro e constantemente me surpreendo ao notar como cada um dos novos contos, em novos ambientes, com novas referências e novos elementos, parecem ter desabrochado das raízes de Estórias autênticas, isto é, do não-dito que pulsa e quer ser desvelado. Acho que estou condenado a reescrever essas estórias até convencer alguém – e a mim mesmo, sem dúvida – de que tenham elas têm valor artístico relevante, qualquer que seja seu título na ocasião.

A: Cite pelo menos 5 escritores que poderiam ser os leitores deste seu “Estórias  autênticas – importunâncias do engenho alheio”. Em uma frase, diga o porquê para cada autor.

André: Agora você me complicou. Corro dois riscos: citando os vivos, o de ser rasga-seda; citando os mortos, o de ser autocomplacente. Vou reunir os dois para garantir uma alforra completa da seara. E começo já me queimando:

  1. Raduan Nassar – uma vez que foi ao meu lançamento e recebeu um exemplar autografado, me parece razoável dizer que existe uma chance de que ele seja meu leitor, ainda que eu preferisse ter escrito um livro cinquenta vezes melhor para merecê-lo.
  2. Ricardo Lísias – Estórias autênticas têm a Linguagem como elemento fundante, da qual decorrem os meandros da autoficção, como em “insônia em prosa” e “romance em cadeia”, e da qual também decorre a acidez temperada por um quê de punk em contos como “o escorregão”, “ideias do papagaio” e “república federativa dos lagartos”.
  3. Marcílio França Castro – pela fuga aos gêneros pré-determinados, como em “cinco fragmentos”, “the undiscovered country” e nas quatro estórias de horror, e pela exploração improvável a partir de lentes oblíquas, como em “inseticídio” e “dois irmãos”.
  4. Virginia Woolf – acredito que Woolf foi por muitos reduzida a lugares que ofuscam o elemento mais imprescindível de sua estética: o amor pela leitura, que é o tema do conto “a lição de virginia”, que a plagia homenageia em diversos níveis de leitura.
  5. Jorge Luis Borges – por uma razão (ornito)lógica: Pierre Menard foi o autor da orelha do meu livro, e sendo ele uma criação de Borges, é possível dizer que o próprio Borges escreveu minha orelha, ergo, se ele ainda não leu o livro, mesmo o havendo “orelhado”, está mais do que na hora de fazê-lo.