Geraldo Lima é natural de Planaltina-GO e reside em Brasília, DF. É escritor, dramaturgo e roteirista. Tem algumas obras publicadas, entre elas, Baque (conto, LGE Editora), UM (romance, LGE Editora), Tesselário (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco), Trinta gatos e um cão envenenado (teatro, Ponteio Edições) e Uma mulher à beira do caminho (Editora Patuá).
Participou de algumas antologias literárias, como: Antologia do conto brasiliense (org, por Ronaldo Cagiano, Projecto Editorial, 2004), Todos os portais: realidades expandidas (antologia de contos de ficção científica org. por Nelson de Oliveira, Terracota, 2012), e Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro (org. por Anderson Fonseca e Mariel Reis, Oito e Meio Editora, 2013).
Tem textos publicados em jornais, suplementos literários, revistas impressas e revistas eletrônicas, sites e blogs. É autor do roteiro do longa de ficção O colar de Coralina – direção de Reginaldo Gontijo e da peça de teatro Trinta gatos e um cão envenenado, encenada em 2016 em Brasília
A: Como foi a compilação destes contos? Muitos deles tinham saído em revistas literárias? Neste tempo de 20 anos, como foi o arco de seu estilo de escrita?

Geraldo Lima: Como eles apresentam, entre si, uma temática variada, optei por dividi-los em duas seções, usando como critério o tamanho: na primeira, os mais longos, e, na segunda, os mais curtos. Sim, praticamente todos já haviam sido publicados em antologias, jornais, suplementos literários, revistas impressas e revistas eletrônicas, sites e blogs.

Alguns foram escritos, inclusive, por encomenda. Para se ter uma ideia: O conto “Entre livros”, que você leu no Clube da Leitura, na Casa Rio, foi escrito para o blog da editora Apicuri, a convite do escritor Rodrigo Novaes de Almeida, que à época era editor lá. O conto devia abordar o tema livros e erotismo. Posteriormente, esse conto foi publicado no Jornal Rascunho.

Essa experiência, de escrever a partir de uma temática sugerida, foi instigante e desafiadora. Dela saíram mais dois contos, “Amanhã acordaremos mais tarde” e “Naquela noite, num lugar distante de casa”, sendo o primeiro para um especial do blog O’Bule, sobre o fim do mundo, aquele de 2012, e o segundo para um especial, também n’O’Bule, com uma temática pornográfica. Um dos contos, “Mesa de Bar”, ficou em 3º lugar no I Concurso Nacional José J. Veiga de Conto, organizado pela UBE de Goiás, isso em 94. Dos contos que compõem o livro Uma mulher à beira do caminho, ele é o mais antigo.

O que acontece é que, ao longo desse tempo, a cada vez que esses contos iam sendo publicados, eu burilava cada um deles. Para o livro, fiz isso até mandá-lo para impressão. Como explico no texto de apresentação do livro, alguns desses contos foram escritos durante uma fase em que eu estava experimentando formas novas (ou mais instigantes) de narrar. São contos mais experimentais nesse sentido. É o caso, por exemplo, do conto que dá título ao volume, Uma mulher à beira do caminho.

Essa fase não se esgotou, gosto de experimentar (o romance que acabei de escrever traz essa marca), mas estou tentando, também, construir uma narrativa mais fluida, mais, digamos, convencional, sem cair, no entanto, no superficial. O uso de uma línguagem poética, que amplia os sentidos do texto e adensa a tensão dramática, permanece.

A: Alguns de seus contos como, por exemplo, ‘Uma mulher à beira do caminho’, e outros deslidam a questão do desejo em situações onde os personagens se veem enredados por (re)ações orgânicas/desejantes. Mas há algum tipo de espera do olhar alheio (reações dos outros) como o motorista que dá carona à mulher, que entra em neura. Fale um pouco desta questão.

Geraldo: Trabalho essa questão do desejo que arrasta o indivíduo para a insanidade com personagens masculinos/héteros que têm muito a perder. Nesses casos, em momento de iminente queda, procuro mergulhar em suas mentes em curto-circuito, tomadas de pânico e angústia com a possibilidade de serem apanhados em falta.

[Aqui vai um pouco da influência que a leitura da prosa de Edgar Allan Poe e de Dostoiévski deixou em mim.] É o caso do personagem do conto a que você se referiu. Ele é um Juiz de Direito, aspirante a uma das vagas no STF, homem de notável saber jurídico, que se orgulha de ter controle sobre suas emoções, mas que, a partir do momento em que dá carona a uma mulher que se encontra à beira do caminho, sob uma chuva rala e persistente, ele se vê tragado pela força do desejo. E essa mulher, ele vai constatar, nem é atraente, encontra-se em precárias condições de higiene, mas a partir do momento em que o desejo irrompe em seu corpo e em sua mente, ele se vê num caminho sem volta.

É o homem que cai em desvario, prestes a se perder. Pode-se até dizer que a mulher continua aí a ser vista como um objeto de sedução para o homem, mas, em todas as situações, sua subjetividade se impõe. As minhas personagens femininas, na maioria das vezes, estão no controle da situação, mesmo não sendo as protagonistas. Mas os meus textos trazem sempre mais de uma questão. No caso do conto “Uma mulher à beira do caminho”, procuro abordar também a questão social. O nojo que a presença da mulher desperta no Juiz desnuda os conflitos sociais que marcam a nossa realidade: esse olhar de asco das elites econômicas em relação ao povo, que vimos bem acentuado nesses
últimos anos.

A: Tanto nos contos mais longos da primeira parte quanto nos mais curtos da segunda, você não perde a tensão narrativa do conto de vista. Eles são muito bem narrados do ponto de uma ação dramática quanto do leque de temáticas sempre muito bem enquadradas por uma linguagem ágil e bem visual. O fato de também escrever para cinema te auxilia? na narrativa literária?

Geraldo: O trabalho com roteiro de cinema veio bem depois. Escrevi um roteiro em 1987, que não foi filmado, e só agora, em 2012, retomei o trabalho nessa área, com o roteiro do longa de ficção O Colar de Coralina, dirigido por Reginaldo Gontijo. O fato é que agora estou bem mais atento ao enredo, à trama, e isso é, sem dúvida, uma influência do escrever para cinema. Meus primeiros contos não traziam muito essa preocupação, as situações aconteciam de modo um tanto caótico, guiadas pelo lirismo, pela força da poesia, que foi de onde eu migrei para a prosa. Meus primeiros contos eram poemas líricos que eu transformava em narrativas. Daí também a presença de uma linguagem carregada de imagens poéticas. Li muitas HQs na adolescência, e algo daquela escrita ágil, com ações fragmentadas, unindo o visual e o linguístico, ficou na minha maneira de escrever. Creio que é isso.

A: Me fale um pouco de seus projetos nas áreas de dramaturgia e roteiros para cinema.

Geraldo: Estou adaptando para o cinema o conto “Jornada”, que é um dos contos do livro Uma mulher à beira do caminho. Nada certo ainda de que será realmente filmado. Depois de pronto, pretendo ir atrás de alguém que se interesse em filmá-lo. Colaborei, este ano, na criação do roteiro de um filme sobre Augusto dos Anjos. Tenho ideia para mais dois roteiros. Todos, como o “Jornada”, com protagonistas negros.

Na prosa estou buscando também trazer cada vez mais para o primeiro plano indivíduos da população negra brasileira. Iniciei um livro de contos só com protagonistas negros. Meu romance “O vazio está do outro lado” tem protagonistas negros. Bom, tenho duas peças de teatro inéditas, esperando ser levadas ao palco. Consegui, em 2016, encenar a minha peça “Trinta gatos e um cão envenenado”, aqui em Brasília, com o Teatro Caleidoscópio, sob direção de André Amaro. Vamos ver se nos próximos anos consigo também tirar essas duas do ineditismo.