Leandro Jardim tem 3 livros publicados: Rubores (contos) Peomas (Poemas) e A Angústia da Relevância (romance). Participou de duas antologias de contos Veredas – Panorama do conto contemporâneo e Para Copacabana com amor. Escreveu canções com Diogo Cadaval, Clara Valente, e Mateus Kruger. Em entrevista à Revista Ambrosia, o escritor falou sobre seu oficio, nas letras e na música.

Ambrosia: Como você pensou nesta ciranda de jogos de narrar onde o autor está sempre ou pode estar sempre além de seus limites? Algo como uma predisposição por referências?

Leandro Jardim: Quando comecei a publicar poesia, me intrigava a dificuldade declarada de muitas pessoas com o gênero. Familiares e amigos muitas vezes vinham me dizer que não entendiam poesia, ou a achavam difícil, ou hermética, ou mesmo que não sabiam ler poesia. Não só a minha (o que eu poderia compreender com mais facilidade), mas falavam dos poemas em geral. Me dei conta de que eu mesmo demorei a me identificar com as estéticas e formas da poesia. As razões para isso são provavelmente inúmeras, e não vêm exatamente ao caso. Mas o incômodo com a questão, com o fato de que as pessoas apresentavam uma resistência prévia, e impeditiva, em relação a algo que me parecia, e continua parecendo, tão valioso, me fez pensar em um projeto que misturasse poemas com prosa ficcional. A ideia até então era a de que, uma vez imersos em um único contexto ficcional, os leitores teriam mais naturalidade para fluir da prosa para a poesia. Com isso, quem sabe, eu sonhava, perderiam o medo dos versos. Guardei essa ideia na gaveta. Muito tempo depois, ao reler um poema que eu havia escrito, me veio o impulso de continuar com uma prosa auto irônica. Uma semente de enredo nasceu ali. Percebi que aquela antiga ideia poderia então ganhar vida. Logo concebi o formato e fui atrás de textos que pudessem compô-lo. Como a temática me era familiar, pude aproveitar alguma coisa que já tinha escrito, muitas outras redigi especificamente para o projeto. Uma primeira versão ficou pronta em alguns meses. E ao longo de outros cerca de cinco anos, com a contribuição de algumas leituras críticas importantes, fui refinando o complexo projeto até as vésperas do lançamento. No fim das contas, se tornou um romance, uma novela, em que – assim como na poesia – a forma e o conteúdo são absolutamente indissociáveis. Nesse contexto é que fui agregando as diferentes referências. Tanto em termos de estilo, quanto de formato, e até mesmo de menções a autores influentes.

Ambrosia: Por que no livro parece que os estilos às vezes parecem sair do seu próprio jogo do fazer literário, para irem pairar sobre uma diferente esfera de se auto “olhar” artista. A escrita não cabe em si? ou fora de si, dentro de seus liames?

LJ: A pergunta me faz pensar. Talvez nenhuma escrita caiba em si. E ao mesmo tempo acredito que tudo cabe na escrita. Até mesmo ela própria, portanto. No que, me parece, chegamos inconscientemente à resposta à sua questão. Essa aparente confusão, esse perseguir o próprio rabo, a inescapável contradição, os cabimentos literários, o impossível ou inexistente eternamente buscado, o lirismo como forma única de consolo para a impossibilidade de haver resposta, talvez sejam exatamente o tema do livro. Em outras palavras, e como você mesmo disse, é o tal jogo do fazer literário. Esse jogo que, acredito, é onde se expressa a tal Angústia da Relevância. E que por isso mesmo se reflete na forma múltipla e vária do livro. Mas veja como é difícil não soar evasivo ou abstrato. Essa minha resposta é um claro exemplo disso. Por essa razão é que penso ser fundamental esse auto olhar crítico que você menciona. Para poder dizer de forma bem humorada e consciente que eu mais divaguei do que respondi à sua pergunta. E mesmo assim pode ser interessante o resultado. E pode não o ser também. É um risco, uma aposta, essa busca errante.

Ambrosia: Você tem um trabalho como músico também, e letrista, que tipo de experiência o seu envolvimento com ela lhe trouxe liberdade para individualizar o seu livro?

LJ: Nunca me vi como músico, embora já tenha formado uma banda jovem de canções próprias num passado longínquo. Minha atuação na música também se dá pela forma de texto. O texto da canção. Sou, como você bem disse, e adoro essa palavra, letrista. E, na falta de quem cante minhas canções, e somente nesses casos, me arrisco também, sem a menor sombra de talento, a cantar. Tenho, e isso sim quero frisar, parceiros que são músicos excepcionais, e com quem me sinto muito honrado de colaborar. Feita a imensa e digressiva ressalva (desculpe-me), acredito que eu possa dizer que sou, sim, muito influenciado pela música ao escrever. Meu primeiro livro é explícito quanto a isso desde o título. Ainda gosto de rimas, ao contrário da contemporaneidade. Quero crer que reescrevo meus textos incessantemente na busca de alguma melodia para a prosa. Acho (espero) que tudo isso aparece bastante no A Angústia da Relevância. Você me flagrou bem. Porém, quanto a responder se isso individualiza o livro, ou, quiçá a minha voz literária, não estou habilitado a dizer. Tomara que sim, penso. Mas para esse tipo de avaliação a soberania será sempre do leitor. E, confesso, por fim, eu adoraria convencê-lo nesse sentido.