Mauro Paz nasceu em Porto Alegre, em 1981. Redator Publicitário, formado em Letras, passou pela Oficina de Escrita Criativa, de Luiz Antônio de Assis Brasil. Em 2009, mudou para São Paulo. No ano seguinte, o Instituto Estatual do Livro do Rio Grande do Sul publicou o primeiro livro de contos do autor, Por Razões Desconhecidas. Em 2014, seu segundo livro de contos, escrito em parceria com Tiago Morales, São Paulo – CidadExpressa, foi publicado pela Editora Patuá. Além de participação em diversas antologias de contos, o autor mantém o projeto #instacontos, que mistura fotográficas com mini narrativas. Nesse ano, lançou seu primeiro romance, intitulado Entre Lembrar e Esquecer. Confira a entrevista que o escritor concedeu à Revista Ambrosia.

Ambrosia: Como você chegou a esta história do Carlos Eduardo? Como foi a pesquisa para coletar os dados  sobre o caso da morte do jovem?

Mauro Paz: Eu conheci o Carlos Eduardo ainda criança. Ele era afilhado dos meus tios. Nas festas de aniversário da minha prima, nos encontrávamos. Depois, mudei para São Paulo e não soube mais dele. Certo dia, minha tia compartilhou no Facebook uma reportagem que falava do caso. A situação me chocou não só por eu ter lembranças de Carlos Eduardo. Havia um cheiro de impunidade insuportável na história. Um garoto negro, com dezesseis anos, vai a uma festa em um dos condomínios mais caros de Porto Alegre. Na manhã seguinte, ele é encontrado desacordado no pátio dos vizinhos da festa. A polícia limpa o local e surge com a tese capenga de que Carlos Eduardo caiu do muro enquanto urinava.

Passei a acompanhar o caso através das reportagens que pingavam nos jornais de Porto Alegre. Quando decidi escrever Entre Lembrar e Esquecer, meu desejo foi me afastar um pouco dos fatos reais. Criei um ecossistema familiar diferente do real. Escrevi a história com o caso em andamento. Por isso, apoiei a trama mais na vida do narrador do que na resolução real do crime. O curioso foi ver as duas histórias se encontrarem em diversos pontos.

A: Tua narração tem uma pegada super cinematográfica, tendo também uma linha policial. Como foi pensar que narrativa você queria para teu livro?

Mauro: É interessante escutar esse ponto sobre o livro ter uma pegada cinematográfica. Você não é a primeira pessoa que me diz isso. Minha proposta inicial com Entre Lembrar e Esquecer era o oposto. Eu desejava construir uma narrativa próxima do lírico. Porém, César, o narrador, é um jornalista. No decorrer da escrita, nos conhecemos melhor e entendi que, por mais abalado que César estivesse com a morte do sobrinho, ele sempre tenderia a escrever da forma com que aprendeu nas sucursais.

O fundo policial do romance vem de minha paixão que tenho pelo gênero. O crimes sem rostos espalhados pelas grandes cidades é uma herança definitiva da modernidade. Com a revolução da internet, a questão do anonimato ganhou mais força. Navegamos em um mar revolto de informações que são usadas de formas diversas. Há infinitas possibilidades de caminhos, tanto para as verdades quanto para nossas vidas. Com o que vou trabalhar? Onde morar? O que ler? Assistir? Em que acreditar? Os caminhos são tão diversos que nos perdemos e muitas vezes ficamos imóveis frente ao labirinto.

Gosto das histórias policiais por terem como centro a figura do detetive. O detetive, na maioria das histórias, é um homem comum em busca da verdade sobre um crime e também enfrenta seus tormentos mundanos. Esse segundo ponto é o que me atrai mais. Um detetive sempre está em busca dele mesmo, assim como nós.

A: Tua narrativa expõe de maneira muita clara e eficiente o racismo na sociedade brasileira. Há um tipo de não punição quando o racismo é perpetrado por pessoas muito influentes e que cometem o racismo com alguma certeza de impunidade. Como tentar bloquear este condição na cultura brasileira em que certos grupos, ou certas pessoas, estão acima da lei?  

Mauro: Dias desses eu caminhava por uma rua meio deserta do meu bairro e quis atravessar para o outro lado. Enquanto eu cruzava a rua, surgiu um carro. O motorista acelerou em minha direção e precisei que apressar o passo. Claro que essa não foi a primeira vez que isso aconteceu comigo. Porém, naquele dia, fiquei a pensar no quanto aquilo era absurdo. Não importa se em uma motoca com 125 cilindradas ou em uma SVU, o motorista brasileiro vai acelerar quando vir você atravessar a rua. E essa situação diz tudo sobre nosso país: 1. a necessidade de exercer o poder quando se está em uma posição privilegiada; 2. a falta de empatia a ponto de considerar o homicídio; 3. o sentimento de impunidade. Um sujeito que acelera quando você passa pouco se importa com a lei, pois ele sabe que a lei no Brasil é relativa. Essa lógica de impunidade está espalhada pela nossa sociedade de forma letal. E, nos últimos anos, temos visto a intolerância se agravar ainda mais.

Enquanto escritor, não acredito que meu trabalho deva apontar soluções. Entre Lembrar e Esquecer não é um romance sobre soluções, por exemplo. É um romance sobre problemas. A literatura que busco praticar tem como intenção ser um espelho: “olha vivemos assim. Você acha que está tudo bem?”. Pelo ponto de vista humanitário estabelecido nos últimos séculos, a sociedade brasileira está doente. E assim como em um processo terapêutico, precisamos nos enxergar, precisamos conhecer os nossos desejos e medos mais profundos para descobrirmos o quão ridículos ou perversos somos.

A forma que eu escolhi para contribuir nesse processo é a literatura. Temos um caminho longo pela frente, principalmente quando encaramos a questão do racismo. Não podemos ignorar que o Brasil tem 517 anos de história colonial. Desses, apenas 130 sem escravidão instituída.

A: Este problema do racismo cria na pessoa discriminada todo um processo de diminuição da auto estima de sua auto-imagem dela como pessoa. No livro o narrador Cesar tem uma série de dificuldade de potencializar sua vida de forma plena. Isto é horrível, pois trouxe na vida dele muita dor e angústia. Fale sobre isso?

Mauro: É complicado eu responder para você sobre o real impacto do racismo na forma de um homem negro ou uma mulher negra viverem. Não tenho essa experiência em minha vida. Esse foi o maior desafio para compor a voz do narrador de Entre Lembrar e Esquecer. Iniciei a escrita movido pela paixão de contar uma história sobre injustiça e paternidade. Depois me deparei com essa questão gigante: o impacto do racismo sobre a forma de um ser humano se constituir socialmente. Então pedi socorro ao Jeferson Tenório, autor negro a quem respeito muito. A ajuda do Jeferson foi crucial para eu entender em que momentos pesei a mão e encontrar novas situações reais da opressão racial.

Além do racismo, acredito que toda opressão nos coloca em uma situação de abalo existencial. A modo de vida nas grandes cidades pautado na produção, por exemplo, é uma opressão violentíssima. O medo de perder o emprego, o desejo de produzir mais, de ganhar mais, de aparecer mais, de não conseguir pagar o aluguel, o medo de um futuro incerto quanto a aposentadoria são sentimentos que nos tiram do eixo. Deixamos de enxergar quem somos, o que desejamos realmente, para vivermos pautados pela sombra do medo e da dor.

Narrar é uma ferramenta importantíssima para superar esses medos e se tornar mais seguro frente as diversas formas de opressão impostas. Por isso, sempre que converso com leitores faço a provocação para que não deixem as suas histórias de lado. Narrar é preciso, cada vez mais e com novos pontos de vistas.