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“Eu e outras consequências” tece a poética na colheita em ótimas epifanias

Não, o livro do poeta Tanussi Cardoso não é biográfico. Nele não há nenhuma trajetória e nem mesmo a história de uma vida. A poesia é muito instantânea para uma coleção de dados biográficos; ela é infinitesimal perante o vagar do corpo pela sua existência. Mas o poeta usa-a como material de flores (poesis) e de colheita como pequenas epifanias que situam sua vivência como pontos ou sinalizações de fachos coloridos. O poema brota do acaso da mal aventurada impermanência do existir/sentir do trova(dor).

O poeta Tanussi em seu livro “Eu e outras consequências”, pela Editora Penalux, estrutura seu livro em suítes, três para ser mais exato, onde para cada espaço haverá um fímbria de determinada luz à focar seu labor poético.

O primeiro recinto é o espaço duplo da ação da colheita e da lembrança. Aqui há uma dupla hélice de ação modular. A escrita gira ao avesso em poemas que exibem algum tipo de redundância afirmativa do existir como neste poema afirmação de lastro e de permanência de raiz. Há no poeta há bela interação entre estados do ser/estar, jogando entre eles, contradições metafísicas.

eu não sou
de onde nasci

eu não sou
de onde vim

Nenhum língua me engana
nenhuma terra me enterra

eu sou
onde estou
eu sou
onde sou

Cria-se com isto uma contraposição entre existires na dualidade habilitando o poeta na própria ambiguidade da linguagem ao indefinir estados do existir como entre ser e estar.
Na segunda parte intitulada Encontro, Tanussi parte para uma referencia espacial-afetiva de seus lastros. Como um bom melodista da memória, o poeta tece elegias-elogios aos lugares de permanência como Rio de janeiro.

um rio é entre
o peso das margens
bicho que acena sua morte
entre as grades
pelos musgos da lama
caranguejos paisagens…

Há, por sinal, nesta suíte  uma emaranhada sanha do poeta em relacionar o espaço urbano do Rio com seu entorno natural. Numa delicada tapeçaria onde cantos misturam-se do lado compositor melódico do zoar urbano ao lado do trinado dos pássaros. A última suíte o poeta se recolhe na colheita da experiência do amor. Poemas cujo teor gramatical se afeita mais afetuoso e sem a ambiguidade dialética do primeiro recinto.

o que o amor
exprime
enquanto voz

o que o amor
redime
enquanto paz

o que amor
deseja
enquanto reza

o tempo
da carnadura
das pedras.

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Publicado por Fernando Andrade

Fernando Andrade

Escritor e poeta, e jornalista, tem dois livros de poemas, Lacan por Câmeras Cinematográficas, e Poemometria lançados pela editora Oito e meio. Participa do coletivo de Arte, Caneta lente e pincel, com contos e poemas. também participa do Trema Literatura, coletivo de textos de ficção. tem entre seus escritores mais amados, Thomas Pynchon, Ìtalo Calvino, e no cinema ama demais Krzysztof Kieslowski.

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