Livro de poemas “Sanguínia até os dentes” traz ao corpo tanto orgânico quanto semântico uma veia bacante

Há uma imagem em uma cavidade. Sangue na boca sempre foi motivo de preocupação e horror. “Botou sangue pela boca” um impedimento, uma interdição. Mas há muitas imagens veladas que sugestionam esta relação entre cavidade bucal e sangue. Podemos falar de um dos mitos e arquétipos mais antigos das histórias de terror: Vampiro que “bebe” depois de morder o pescoço (esta coluna erótica) para se alimentar e não se deixar morrer. Talvez até a bolada no rosto da pré-adolescência com dentes quebrados e alguma pouca hemorragia na boca, já foi totalmente culturada.

O fio que corre, a seiva que percorre as veias é o magma do corpo. Sua nutrição aos órgãos; tecidos e músculos, mas também, um tipo de têmpera, ou uma calorífica temperatura. O corpo duro das palavras, cada osso duro de roer como um sentido fechado entre a grafia da palavra seu visual mais estético: o som. A musicalidade da junção das sílabas – o corpo das palavras: erotização que aos ouvidos dos músicos e poetas cabem numa luva.

A poeta, e artista plástica, Lia Testa em seu segundo livro, Sanguínia até os dentes, pela Editora Patuá, esqueletiza um corpo linguístico e dançante ( antes do poético) com aliterações, ritmos fônicos e telefônicos numa espiral de circularidades esvoaçantes em poética. Na sua mão de artesã, a palavra-barro se torna tão maleável e moldante quanto um pedreiro levantando alicerces de uma casa.

O livro tem uma primeira parte de poemas onde o desejo erotiza a estrutura de um código linguístico prevalecendo uma fonia de sons aliterativos onde o próprio corpo diagramático do poema ondula vibrações visuais. Na segunda parte uma sucessiva montagem de fotos aparentemente casuais criam um efeito de mosaico, poses de figuras femininas polimorfas em traços fibrilantes.

A relação de encaixe talvez pela imagem desculturada do sangue na boca. A situação inusual que percorre o sentido do olhar em busca de compreensão. Mas o que é arte se não a posição nossa de desencaixe, de uma manivela que não gira para dar a ideia do movimento. Só no susto como uma boca sangrando é que o descortinado pode ser re(ver)berado.