Livro “Mandrágora” e a afetiva voz narrante à cidade que somos

Dizem os oradores que falar e orar guardam-se semelhanças. Enquanto um é um código linguístico externado ao outro, o orar é uma fala com muitas ponderações ao internalizado. Aos moradores de uma cidade há uma variedade de falas e situações de como a linguagem ou estratifica ou ramifica modalidades de conflitos na urbe. Mas ao passar do oral ao escrito, da moral à fábula, temos noções de como uma cidade pode ter dentro dela espelhos que reflitam aquilo que o (m)orador deseja ver como emblema ou signo desta sua cidade.

No livro de contos da escritora Romy Schinzare, intitulado Mandrágora” (Editora Patuá), temos dramas que acontecem em algumas faixas mais cotidianas, revelando os lados da convivência entre pessoas que vivem seu cotidiano, às vezes, numa cor monocromática, num zumbido de sons intermitentes, como se o projeto arquitetônico da cidade fosse mais uniformizante possível. O grande barato da autora é dinamizar os desejos dos oralistas do cerne urbano; criar através de sua linguagem abrasivamente fraterna um meio de melhorar a auto-imagem dos pertencentes e participantes da cidade. De um jeito ou de outro as fraturas precisam perder das fraternidades; precisa-se dos laços da memória afetiva, e que os sonhos-projetos-projetivos tenham força e derrotem qualquer exclusão social.

Em outros contos, a autora parte para universos surreais como do personagem que gosta de vermelho, lidando com certo imaginário coletivo. Sua narrativa, tanto nos contos mais alusivos ao desenho da urbe quanto aos que entram num arquétipo, fabular é de uma doçura ao envolver-se com o narrado. Aqui volto à distinção entre a fala e orar, quando narramos ao tom do cântico, do canto, não estamos pedindo nada a ninguém à priori. Estamos apenas internalizando desejos e vontades para que o externo não nos amedronte. A forma de Romy contar é de um poemoração. Uma comemoração, esta reunião de contos sobre quereres e pertencimentos.