Ah! Este rigor que os autores russos escrevem. Com uma mistura de sofrência e ética. Aqui no Pai que não assume sua paternidade s é plural de algo que sempre deixará espaços brancos ou noites brancas. Olhamos o Pai russo, severo, centrado, será mesmo que todo rigor trouxe uma densidade filosófica na literatura de lá? Aqui caminhamos em passos descentrados, tudo que vemos é a nossa máxima grandeza continental, abarcada pelo Tubo catódico. Mas lá a geográfica é imensa! Só se as revoluções de lá tiveram algum efeito contraditório? Afinal viver na Sibéria.

Mas cá funcionamos bem com o modelo do Tio Sam, até importarmos o Pós-Modernismo. E ele funciona bem com nossos melhores autores.

Li o livro de Priscila Gontijo que escreveu um romance chamado Peixe Cego lançado pela editora Sete Letras. A personagem vive em São Paulo e recorre à máxima de nós, urbanos, que precisam ir atrás da vivência, pois o sobre, não sabemos, nestes tempos bicudos.

Num relato que junta uma linguagem paródica, Irina que junta empregos como se estivesse a perdê-los de vista. Estrutura-se na arte com sua emoção e afeto. Tenta montar uma peça russa num hospital psiquiátrico; está desenvolvendo um livro de guia de viagens à Sibéria, e encontra seu destino numa loja onde se vende peixes. Ali depois de quebrar cinco aquários recebe de um colega um aquário com um peixe cego que logo será intitulado de Míchkin, o idiota de Dostoiévski.

Depara-se com um concurso e ganha, uma viagem à Moscou com um acompanhante, com tudo pago. Nesta tão brasileira, encruzilhada, Priscila montará sua visão muito bem azeitada da condição do artista no Pai(s). Numa linguagem sempre fluída e com um raciocínio narrativo impressionante, a peteca não cai nunca, na estrutura semântica da narrativa, isto, mantendo o humor ferino e paródico, e costurando lindas referências ao teatro russo e a literatura.

Ela parte como Ulisses à sua procura de companhia de viagem, revisitando amigos do passado, indo e vindo a descobrir através do mote da viagem por quem? Ela sente amor ou se é amada. A cegueira do peixinho, que bate a cabeça na parede do aquário, parece boba, mas não é.

No filme e livro “Ensaio sobre a Cegueira”, homens e mulheres ficam cegos através de uma epidemia, num cenário apocalíptico. E precisam através do afeto e da alteridade voltar a ver o outro à distância. Esta cegueira do peixe idiota nos identifica, não só aos artistas, mas a todos habitantes irreais de um chão que não tem pavimentação. Somos todos, sem pátria, como Irina, com sua afeita afeição ao Pai tradutor que de tanto ler pode ter ficado com os olhos “cansados”.