“- Por que você saiu de Serra Leoa?

– Porque tem guerra lá. (…)

– Legal…

Eu dou um risinho de leve.

– Você devia contar essa história pra gente um dia”

Assim começa Muito longe de casa: memórias de um menino-soldado, o relato de Ishmael Beah de como se tornar um menino-soldado na Guerra Civil da Serra Leoa (1991-2002), e exemplifica o que está na cabeça da grande massa: guerra é legal! Quem pode falar o contrário principalmente no mundo globalizado onde tudo é televisionado e a transmissão de uma guerra pode garantir uma rodinha de pessoas sintonizadas sem piscar em frente à TV.

Mas o que a TV mostra, mesmo com toda sua tecnologia e jornalistas que se arriscam para ficar perto de tudo, ainda é uma pequena parcela do que realmente acontece em uma guerra. Em Muito longe de casa temos uma visão de um mero figurante que se tornou um dos protagonistas em sua própria história.

Ishmael era um menino normal em seu povoado: ia à escola com seu irmão e convivia com seus amigos; passava o dia cantando e dançando músicas do rap americano e realizando atividades com sua família. Há algum tempo ouvia os rumores sobre a guerra e sobre algumas pessoas que tinham medo de que ela chegasse ao povoado, mas tudo parecia muito abstrato e vago.

Quando pensamos em guerra, lembramos de armas, explosões, cidades destruídas e pessoas mortas; não lembramos que podemos ser separados dos nossos pais e nunca mais vê-los, que deixaremos para trás todos os nossos pertences, que situações surgirão onde teremos que sobreviver procurando comida e locais seguros para passar as noites. Isso não vem, normalmente, às nossas mentes. E é exatamente esse lado que Ishmael mostra num relato direto e sincero e, apesar de toda tragédia que cerca toda a história, sem nenhum traço de drama ou sentimentalismo.

Ishmael perde sua casa e precisa vagar pela cidade em busca de sobrevivência e, em determinado ponto, é recrutado como soldado no exército aliado. Mas qual exército é considerado aliado e qual é o inimigo? Para quem sofre com os efeitos de uma guerra essa diferença parece distante e irreal, pois os motivos de uma guerra são irrelevantes para os cidadãos que precisam viver com ela em seu cotidiano. Além disso, muitas vezes, seus participantes (soldados) parecem perder seus ideais (se alguma vez esses realmente existiram) de vista e usar a guerra para satisfação própria e benefícios pessoais.

Ishmael é retirado do bando onde era soldado e levado para um acampamento da Unicef que visa retirar crianças-soldado da guerra e tentar restabelecer o vínculo normal delas com a sociedade.  Ishmael teve a sorte de ser um dos poucos em que esse objetivo foi realmente alcançado, pois essas crianças-soldado podem sair da guerra, mas todos os traumas estão dentro delas e, na maioria dos casos, elas não consideram a guerra como um trauma, mas como algo tão profundo que passa a fazer parte de suas naturezas ditando normas de comportamento e conduta, sendo quase impossível dissociar a vida normal da vida vivida durante uma guerra.

Novamente, mesmo depois de reabilitado e com uma nova família, Ishmael é encontrado pela guerra, entretanto, dessa vez, ele estava decidido a não voltar a seu passado e não deixar que ela o pegue novamente e consegue fugir para os EUA.

O livro é um relato esclarecedor sobre como é estar realmente dentro de uma guerra, porém não da visão de um soldado ou de uma tropa como retratado incontáveis vezes em livros e filmes. Não temos os motivos políticos da guerra narrados pois, na verdade, eles não interessam: quando uma criança perde todos as pessoas de sua família o porquê daquilo acontecer é irrelevante, estão todos mortos: guerra é guerra.

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Bibliotecária, leitora compulsiva, cinéfila amadora. 25 anos, há 8 com o "the one". Tímida e estabanada. Totalmente distraída, fico nervosa por nada e rápido, mas com a mesma velocidade, esqueço. Não guardo rancor por nada e por ninguém, mas tudo se soma para formar a personalidade das pessoas em minha cabeça. Não sou vingativa, mas sou pirracenta como uma criança. Sou flexível e tento ser prática. Procuro entender mesmo o que não concordo. Não sei receber elogios e não sei fazer críticas. Fico calada quando estou com raiva e depois solto tudo de uma vez só, sem medir as palavras. Sou apegada com o que e com quem gosto. Gosto de ser educada com todos mas às vezes digo respostas atravessadas sem perceber.
  • jacksmara

    Li o livro e é incrivel como ele consegue te prender e não querer parar mais ja nas primeiras vinte paginas, coisas que poucos livros conseguem. é um livro simples e direto, uns dos melhores que ja li. Eu recomendo.