Lembro como se fosse hoje, ao ler um romance espanhol chamado O Sorriso Etrusco,de um personagem, senhor de 80 anos, que vem à cidade onde mora o filho que acabou de ter seu filho, e este avô não conhece seu neto. Ele tem pouco tempo de vida, está com cancro como diz. A emoção que o livro me deixou após ler as últimas linhas, fiquei pensando se um livro merece nos emocionar à ponto de nos levar às lágrimas. Sempre achei a leitura, e portanto a literatura, uma atividade intelectual, embora com caráter lúdico, mas daí não entender se o lúdico precisa de uma camada de subjetividade emocional para funcionar à contento. Era como se não houvesse livro entre mim e a história narrada. Eu funcionava como um leitor-personagem que entra de forma inclusa, mas sem ser um personagem ativo na narração. Algo do tipo, eu estava realmente na Itália?

O escritor não precisa usar sua linguagem para desnortear o leitor assim como o famoso nocaute do Cortázar. O brilho de uma escrita pode vir de desenho tão humano de um personagem que tenha na verossimilhança um devir tão real. Usamos da seguinte maneira: se temos um nonô que já nos comoveu alguma vez, quando lemos a estória de um nonô, fazemos o emparelhamento do real com o avô fabular.

Quando terminei o livro da Rosângela Vieira Rocha, O indizível sentido do amor pela editora Patuá, vi-me mais ou menos na mesma condição de leitor participativo! Achava que já  havia conhecido a narradora e o José seu esposo que foi militante político e foi torturado barbaramente na ditadura militar de 64. A sua escrita, ao mesmo tempo límpida e cheia de nuances, havia me enrodilhado numa sucessão prazeres empáticos, onde o temperamento da escrita da narradora me fazia torcer pelos dois encarecidamente. Havia um desejo de conhecer José, de olhá-lo com admiração, embora não tenha tido algum contato com ele como tive com narradora, via  facebook. Este personagem vem numa espécie de mistério, pois há nele um temperamento fechado de poucas palavras, mas com uma vontade férrea de justiça social e luta contra a opressão.

Conhecer o outro que existiu pelo olhar de um narrador. A escolha dos fatos ou das ações levam às vezes há um tipo de idealização. Mas vejo José como ele realmente deve ter sido. A estrutura do romance estabelece ordens temporais de ida ao passado e volta ao presente, criterizando ações que criam lastro ao desenho do que foi ou É se ficarmos no campo da memória, uma relação de duas pessoas que se reconheciam nos pontos de ser de cada uma. Rosângela não cai numa armadilha muito comum em literatura de intuir sua narração num cunho puramente confessional ou de autoficção.

Exímia fabulista, ela não se cola ao eu-narrador e procura uma posição razoável  para olhar e  escrever sobre si e outra pessoa, o que poderia cair na banalidade de um autodepoimento embaralhado na ficção. A grande obra usa todo o aparato técnico de seu autor; sua instrumentação cirúrgica, vamos dizer assim. Como uma cirurgia onde temos um gancho a procurar ou um mote a trazer. Na escrita devemos procurar um “lugar” distante para depositar uma veia subliminar, um impedimento, ou uma história experienciada como esta.